August H. Nimtz – Livro recém-publicado de intelectual marxista mostra como o voto operário em Trump não é adesão ao fascismo, mas grito de desespero e ausência de alternativas reais. Cerne do debate, sugere, deve ser a construção de um partido genuinamente trabalhista nos EUA.

A vitória de Donald Trump em 5 de novembro de 2024 é o preço que a classe trabalhadora dos Estados Unidos paga por não possuir seu próprio partido político. Ainda assim, ela veio acompanhada de dois possíveis aspectos positivos.
Como mencionei anteriormente, a imagem de Marx acerca do náufrago que se agarra a qualquer graveto para sobreviver permanece a chave para entender o fenômeno Trump. O voto operário em 2024 não é uma adesão ideológica ao fascismo, mas um ato de desespero diante da erosão das condições de vida. Eis por que milhões de trabalhadores votaram novamente em Donald Trump. Em momentos de crise, a história revela que os trabalhadores podem se abrir não apenas para soluções de esquerda, mas também para soluções de direita. Não existe, portanto, atalho para a clareza política. Apenas por meio do processo de tentativa e erro – o laboratório da luta de classes, como alguns de nós o chamamos – isso se torna possível.
Felizmente para os trabalhadores do mundo, a alternativa direitista escolhida desta vez por seus equivalentes norte-americanos para tentar resolver a crise que os aflige é Trump. Como se torna cada vez mais evidente que nenhum outro pretendente à coroa mundial do modo de produção capitalista provavelmente destronará o regime de Washington-Wall Street, será em solo norte-americano que o destino da humanidade será decidido.
Ao contrário da campanha alarmista do Partido Democrata, Trump não é um fascista – é apenas um autoritário comum. Nunca se deve esquecer que o único emprego que esse septuagenário teve antes de 2017 foi o de patrão capitalista. Reitero aqui que Trump personifica a essência do capital em sua forma mais crua. Sua trajetória, moldada desde o nascimento para a acumulação, faz dele o ocupante da Casa Branca que mais fielmente opera sob a lógica do autointeresse desavergonhado.
Empresas capitalistas, especialmente as privadas como a Trump, Inc., são autoritárias em sua essência; basta perguntar àqueles que trabalham nelas. (A Declaração de Direitos dos Estados Unidos não se aplica ao setor privado.) Mais precisa do que a definição de fascismo utilizada pelo ex-chefe de gabinete de Trump, John Kelly, para descrevê-lo no Google, foi sua própria observação direta sobre o antigo chefe: “Ele adoraria agir exatamente como fazia nos negócios – poderia mandar as pessoas fazerem coisas e elas fariam, sem se preocupar muito com legalidades e afins”.ii Trump é simplesmente a galinha capitalista que voltou, mais uma vez, para o poleiro – desta vez na Casa Branca. Existem, de fato, figuras de mentalidade fascista no universo de Trump, mas ainda não chegou o momento – pelas razões que explicarei – de elas ocuparem o centro do palco.
As escolhas enfrentadas pelos trabalhadores norte-americanos nas eleições resumem-se aos dois partidos capitalistas do “mal menor”, isto é, os dois partidos patronais; a um terceiro partido com poucas chances de vitória; ou à abstenção. Daí minha resposta, quando encontrei pela primeira vez com o movimento Impeach Bush em 2007: “Se não destituirmos o sistema que produziu Bush, acabaremos tendo alguém na Casa Branca que nos fará sentir saudades de Bush”. O sistema ao qual eu me referia era o capitalismo norte-americano do século XXI e seu duopólio bipartidário correspondente.
A história revela que todos os sistemas econômicos possuem um ciclo de vida. O melhor que o capitalismo tinha a oferecer à classe trabalhadora ficou para trás, algo que o sentimento MAGA
procura recuperar ao tentar restaurar o “Sonho Americano”. Na véspera da eleição presidencial ocorreu outra votação reveladora: a tentativa dos trabalhadores da Boeing de recuperar suas pensões – o passaporte para a “classe média” – retiradas pelos patrões em 2014.
Embora tenham conquistado aumentos salariais, os trabalhadores da Boeing ainda não venceram a batalha pela restauração de suas pensões. E está claro que tal vitória exigirá mais do que um único grupo de trabalhadores sindicalizados, por maior que seja; exigirá muitos trabalhadores de diversos setores unidos em ação coordenada – algo que um partido político da classe trabalhadora poderia possibilitar, mas que atualmente não existe.
Quando Bernie Sanders afirma que a derrota do Partido Democrata ocorreu porque ele abandonou a classe trabalhadora, pressupõe que em algum momento esse partido efetivamente representou os interesses dessa classe. Ao contrário, nada na história do partido dos proprietários de escravos e seus descendentes, certamente desde a Guerra Civil, permitiria prever que os Democratas seriam vistos – e conseguiriam se apresentar – como o partido da classe trabalhadora. Apenas a contingência histórica explica essa anomalia.
Somente porque a classe trabalhadora ocupou as ruas de maneira sem precedentes nos Estados Unidos durante a Grande Depressão – sendo a greve dos caminhoneiros de Minneapolis, em 1934, possivelmente o ponto culminante daquele momento – Franklin Roosevelt, que por acaso estava no poder naquele período, ofereceu o New Deal, um programa de concessões destinado a conter a radicalização. Essa oferta foi suficiente para convencer figuras-chave do movimento operário a abraçarem os Democratas – o início de uma relação disfuncional em prejuízo dos trabalhadores. Não poderia ser diferente para trabalhadores que votam em um partido capitalista, isto é, um partido de patrões. Eis por que milhões deles marcaram as eleições de 2024 dizendo: basta.
Para aqueles que têm dificuldade em imaginar um verdadeiro partido operário nos Estados Unidos, vale lembrar que, em Minnesota, durante os anos 1930, um deles efetivamente existiu, vencendo quatro eleições consecutivas para o governo estadual (quando os mandatos ainda eram de dois anos). Democratas e Republicanos chegaram inclusive a cogitar uma fusão para conter o sucesso do Farmer-Labor Party (FLP).
Mas, quando o FLP foi cooptado pelos Democratas em 1944 – razão pela qual hoje o partido se chama Democratic-Farmer-Labor Party – ele já era uma força esgotada. Sofria, não diferentemente da social-democracia, de duas doenças fatais: o “cretinismo parlamentar” e aquilo que chamo de “fetichismo do voto” ou “fetichismo eleitoral”. A primeira enfermidade consiste em acreditar que aquilo que ocorre na arena legislativa constitui o alfa e o ômega da política. Não, o elemento decisivo na política é o que ocorre fora dessa arena. Já a segunda enfermidade consiste na crença equivocada de que votar equivale a exercer poder político. Não, votar é exercer o direito democrático de registrar uma preferência por um candidato ou por uma política, duas ações profundamente distintas. O poder político é exercido nas ruas, nas linhas de piquete, nas barricadas e, se necessário, no campo de batalha, como entre 1861 e 1865. O FLP de Minnesota oferece, portanto, uma advertência sobre aquilo que constitui um partido político efetivo da classe trabalhadora.
Com recursos limitados, apenas o pequeno Socialist Workers Party (SWP) fez campanha nas eleições de 2024 pela criação de um partido nacional da classe trabalhadora pela primeira vez na história dos Estados Unidos. Segundo o partido, trabalhadores em várias regiões do país mostraram-se receptivos à ideia onde houve campanha, mas, não surpreendentemente, tinham dificuldade em imaginar concretamente tal partido.
Mesmo sem a formulação específica apresentada pelo SWP acerca do que um partido operário poderia realizar, um ex-dirigente sindical e líder grevista concorrendo como “independente” em Nebraska obteve mais de quatrocentos mil votos (47% dos votos, superando os 39% de Harris) em disputa contra seu rival republicano ao Congresso, sugerindo que o terreno é fértil para a construção de um partido operário.
Em meados do século XIX, tornou-se claro para os abolicionistas que nem o Partido Democrata nem os Whigs ofereciam solução para o que então constituía a questão mais controversa da história dos Estados Unidos: a constitucionalidade da escravidão de pessoas negras. Era necessário um novo partido e, assim, surgiu o Partido Republicano em 1854. Em sua segunda disputa presidencial, em 1860, alcançou a vitória com Abraham Lincoln como candidato. Assim como a escravidão racial, a escravidão assalariada, o fundamento do capitalismo, não será abolida sem um novo partido, um autêntico partido da classe trabalhadora.
A história também ensina que um momento fascista implica uma ameaça real ao capital por parte da classe trabalhadora, ameaça essa que convence uma parcela significativa das elites de que ela precisa ser esmagada – tarefa na qual os bandos fascistas são especialistas. Os partidários honestos da classe trabalhadora devem admitir que tal ameaça não existe hoje e, portanto, o capital ainda não necessita “soltar os cães” – os verdadeiros fascistas – ao menos por enquanto. Fazê-lo prematuramente convenceria trabalhadores demais de que suas reivindicações não podem ser resolvidas por meios pacíficos.
Podemos ter certeza de que o “Trump 2.0” não realizará as esperanças dos milhões de trabalhadores que votaram nele, dada a profundidade da crise em que o capitalismo atualmente se encontra. Somente pela experiência esses trabalhadores poderão aprender esse fato sobre o outro partido patronal.
Muito menos certo é se haverá uma alternativa genuinamente da classe trabalhadora disponível para eles quando perceberem a quimera representada por Trump. A mão esquerda do capital tentará seduzir novamente os trabalhadores afirmando que o Partido Democrata finalmente compreendeu seus problemas, sente sua dor e fará melhor da próxima vez que estiver no poder. Ao mesmo tempo, porém, a mão direita do capital estará preparando o plano B, preparando os canis para o momento em que talvez precise fazer o que fez nos anos 1930.
O principal problema do voto no “mal menor” é que ele se define muito mais por aquilo a que se opõe do que por aquilo que defende. Somente possuindo seu próprio programa, pelo qual lute; seus próprios candidatos em eleições de todos os níveis promovendo esse programa; poderá a classe trabalhadora avançar e resolver a crise capitalista que pesa sobre suas costas – algo que um partido patronal jamais fará.
Comparada ao experimento verdadeiramente custoso de tentativa e erro que os trabalhadores da Europa e de outros lugares tiveram de suportar nos anos 1930, a repetição de Trump promete ser uma experiência relativamente menos onerosa. Mas isso dependerá, em ultima instância, das lições aprendidas nos próximos quatro anos – relacionadas ao outro “lado positivo” de 5 de novembro.
Se Harris tivesse vencido, essa discussão tão necessária, adiada por tempo demais, não estaria ocorrendo. Em 2013, escrevi que “cada adiamento na busca por uma ação política independente
da classe trabalhadora apenas fortalece a reação”.iii
Mas o quanto existe de positivo na derrota de Harris depende da existência de um verdadeiro partido da classe trabalhadora quando os trabalhadores inevitavelmente se desiludirem com a alternativa Trump, e não apenas de um Partido Democrata remodelado. Caso contrário, uma quantidade suficiente deles poderá mostrar-se receptiva, da próxima vez, à verdadeira solução de direita – uma resposta genuinamente perigosa para a crise que enfrentam. Todos sabemos aonde isso conduziu tragicamente no passado.
Notas
i Cf. NIMTZ, August H. “Trump Redux: A Silver Lining?”. Legal Form, December 6, 2024. Disponível em: https://legalform.blog/2024/12/06/trump-redux-august-nimtz/ (N. T.).
ii Cf. SCHMIDT, Michael S. “As Election Nears, Kelly Warns Trump Would Rule Like a Dictator. The New York Times, October 22, 2024. Disponível em: https://www.nytimes.com/2024/10/22/us/politics/john-kelly-trump-fitness-character.html?smid=ny-tcore-ios-share&referringSource=articleShare (N. T.).
iii Cf. NIMTZ, August H. The Ballot, the Streets – or Both? From Marx and Engels to Lenin and the October Revolution. Chicago:Haymarket Books, 2019: 419 (N. A.).
Fonte: EUA: A esquerda deve disputar o ressentimento? | Outras Palavras – Link da matéria: https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/eua-a-esquerda-deve-disputar-o-ressentimento/


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