Sociedade

‘Se liberarem as armas, haverá mais suicídios’, diz Andrew Solomon

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Marcelo Zorzanelli – Na famosa definição de Albert Camus, o suicídio é o “único problema filosófico verdadeiramente sério”. O escritor americano Andrew Solomon trata o suicídio com gravidade, porém não parece se importar muito com a questão filosófica.

Os nove artigos de “Um Crime da Solidão: Reflexões sobre o Suicídio” se dedicam a construir o argumento de que o suicídio é antes de mais nada um problema de saúde perfeitamente evitável.

Segundo Solomon, as mortes de celebridades como o comediante Robin Williams, a estilista Kate Spade e o chef Anthony Bourdain provam que o suicídio é resultado do mau funcionamento da mente —e não de fatores como falta de sucesso na vida, por exemplo— agravado pelo estigma que condena o doente à solidão e apressa o fim.

“Se você criar um diálogo em que fique claro que o suicídio é geralmente o ponto final da depressão, que é a solução permanente para um problema temporário, que a depressão é tratável, muitas vidas seriam salvas”, diz Solomon em entrevista por telefone à Folha.

Esta parece ser a principal bandeira de Solomon, que trata sua depressão há décadas. “Eu acho muito importante que as pessoas abram o jogo com as outras. Uma das principais características da depressão grave é o isolamento”, diz.

Andrew Solomon, professor de psicologia da Universidade Columbia

Andrew Solomon, professor de psicologia da Universidade Columbia

“Dou a quem tem depressão o mesmo conselho que [o ativista gay] Harvey Milk deu a homossexuais nos anos 1970: diga para o maior número de pessoas quem você é.”

Solomon parece levar conselhos muito a sério. Em 2001, publicou o calhamaço “O Demônio do Meio Dia:  Uma Anatomia da Depressão”, cujas quase 800 páginas reúnem jornalismo, memórias, estatísticas, estudos e reflexões sobre a doença.

Em seu último livro, “Longe da Árvore: Pais, Filhos e a Busca da Identidade”, Solomon parte da dolorosa experiência de não ter sua homossexualidade aceita pelos pais para contar como pessoas lidam com filhos cuja essência contraria suas expectativas.

“Eu quero que a coisa que quase destruiu minha vida se transforme em algo que ajude nem que seja uma única pessoa”, disse sobre o drama que viveu com a depressão.

Se a intenção é não esconder nada, o artigo em que ele narra em minúcias o suicídio assistido de sua mãe é a maior prova de que a missão foi cumprida.

“O que aconteceu me deu uma grande noção da fragilidade da vida, da incerteza quanto a continuar. Acredito que as pessoas deveriam ter o direito de escolher não sofrer as fases finais e humilhantes do tratamento de doenças como o câncer.”

A experiência moldou sua vida de maneiras que ele próprio ainda tenta entender. “Se minha mãe não houvesse morrido daquele jeito, será que eu teria desenvolvido depressão quando e como a tive?”, pergunta. “Foi uma coisa devastadora e linda ao mesmo tempo.”

Um dos temas que perpassam o livro, naturalmente, é a dor de quem fica para trás. O artigo de abertura conta a história de Terry, um amigo de faculdade, um personagem maior que a vida. Dândi glitter nas festas de Yale transformado em intelectual respeitado na meia-idade, o amigo tinha tudo: amigos fiéis, dava aulas sobre história da arte em Roma e era casado com um italiano que o amava. Mas, sem aviso, se foi.

“Todo suicídio deixa para trás um mar de culpa”, disse Solomon antes de fazer uma grande pausa.
“Vejo que ele foi deixando alguns sinais, mas sinais muito pequenos. Eu não percebi, também porque estava ocupado com minha própria vida em outro continente. Devemos considerar com mais frequência que outras pessoas possam ser sensíveis e vulneráveis como nós mesmos.”

Os artigos nunca haviam sido publicados em um único livro: saíram originalmente em revistas e jornais americanos entre 2000 e 2018. A ideia do volume foi do amigo e editor Luiz Schwarcz, que notou que a busca pelo catálogo do autor vinha crescendo no país.

Solomon diz receber muitas cartas de brasileiros e não demonstra espanto ao saber que somos o quinto país mais deprimido do mundo.

“A desigualdade é intolerável. Eu acho que depressão e suicídio representam vulnerabilidades genéticas que são ativadas pelo ambiente em que se vive. O tamanho do estresse na vida de pessoas que vivem na pobreza é muito maior”, disse.

Conto a ele que nosso próximo presidente prometeu facilitar o acesso a armas de fogo. Solomon diz que metade dos suicídios nos EUA é causado por armas e, dado ainda mais chocante, que 2/3 das mortes por armas de fogo são suicídios. “Se vocês liberarem as armas, haverá mais suicídios”, diz.

Solomon é defensor de medidas que dificultem o suicídio. “Muita gente diz ‘Ah, mas se não tivessem armas fariam de outra maneira’. Não é bem assim. O quão rápido e fácil é executá-lo tem efeito direto. O suicídio é, na maioria das vezes, impulsivo.”

A prosa clássica de Solomon, com acentos aristocráticos, se desenrola num ritmo lento mas consistente de sofisticação e clareza. Ele fala da mesma forma: a princípio parece fleuma e afetação, mas se percebe que tem interesse real no interlocutor. Como nos textos, a compaixão parece ser a bússola para navegar assuntos tão difíceis.

Quando comentei que também sofro de depressão e que tenho encontrado conforto em seus livros por anos, disse: “Muito obrigado. E sinto muito que você tenha precisado da minha ajuda”.

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/11/se-liberarem-as-armas-havera-mais-suicidios-diz-andrew-solomon.shtml

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