Racismo “científico” (origens das teses racistas na modernidade)

Luiz Flávio Gomes – O tamanho do cérebro define as raças “inferiores”. É nessa estupidez “médica” (como veremos detalhadamente mais abaixo) que residem as origens do “racismo científico” (do princípio do século XIX). Se até hoje vemos manifestações racistas em todas as classes sociais no Brasil é porque existem idiótes herdeiros dessa tese absurda que nunca ficou (nem nunca seria) comprovada: que os europeus e os norte-americanos brancos (“os superiores”) teriam o cérebro maior que o das outras raças, “as inferiores”.

E se as redes sociais estão servindo de instrumento para os impulsos racistas (como os que ocorreram contra Taís Araújo) é porque, como disse o filósofo Umberto Eco, “elas deram voz [inclusive] aos imbecis”, que antes já eram preconceituosos, mas não tinham um alto-falante digital para gritar para o mundo suas crenças descabeladas e infundadas.

A razão central do racismo descansa numa utilidade econômica. No século XIX a Europa (Inglaterra, acima de tudo) se converteu no centro do capitalismo industrial nascente. No campo das ciências (e da tecnologia) os progressos eram tangíveis. James Hargreaves, Richard Arkwrigth e James Watt já tinham inventado suas máquinas de tear quando a Inglaterra deliberou (em virtude das suas vantagens econômicas e competitivas) ser a “dona do mundo”. Nesse mesmo período inúmeras ideias racistas já perturbavam as almas dos europeus. Incontáveis filósofos, cientistas e escritores desenvolveram ou apoiaram iniciativas ou pensamentos que procuravam legitimar a exploração em massa dos trabalhadores em geral e dos negros em particular, cujo status os tornavam vulneráveis à tortura, mutilação, encarceramento injusto e até mesmo ao extermínio (nos encontramos aqui com a doutrina do homo sacer, de Agamben[1], ou seja, pessoas que podem ser aniquiladas impunemente).

Todas essas teorias racistas tiveram desdobramentos ao longo do século XIX (quando milhões foram assassinados nos neocolonialismos promovidos por países europeus, especialmente na África e na Índia) assim como no século XX (culminando com o racismo nazista de Hitler e o holocausto de milhões de discriminados). As práticas racistas em pleno século XXI são herdeiras desses pensamentos torpes e infames, do princípio do século XIX. Vejamos.

Em 1820 destacou-se o médico Robert Knox, de Edimburgo (1791-1862), que foi um dos mais importantes cientistas raciais na Inglaterra[2]. Seus estudos preconceituosos de esqueletos, cadáveres e, sobretudo, de crânios, constituem as bases de um novo tipo de racismo (todos que não são europeus “superiores” possuem os crâneos menores, logo, menos cérebro, em consequência, menos inteligência – daí alguns acreditarem que poderiam ser “tutelados”, ou seja, escravizados, torturados, mutilados e exterminados).

Robert Knox comprava cadáveres, particularmente de alguns assassinos profissionais. Ele acabou se envolvendo num monstruoso escândalo de compra de esqueletos de uma dupla de assassinos, que se tornou “serial killer”. Essa dupla abastecia sua demanda. Em meados dos anos 1820 esses assassinos foram descobertos e presos; um aceitou fazer negociação com a Justiça (delação premiada), contando tudo que sabia. O que nada disse foi condenado e enforcado. Suas últimas palavras foram: “E o doutor? Nada vai acontecer com ele?”. O que fez acordo acabou morrendo na miséria. Robert Knox caiu em desgraça, nunca mais exerceu a medicina, trabalhou como jornalista e ficou na obscuridade por muito tempo.[3]

No seu livro The races of man (As raças humanas, de 1840) podem ser constatadas as seguintes afirmações[4]:

“…Que a raça decida de tudo nos negócios humanos é simplesmente um fato, o fato mais notável, mais geral que a filosofia jamais anunciou. A raça é tudo: a Literatura, a Ciência, a Arte […] a civilização dela depende…”

“… As raças negras podem ser civilizadas? Eu devo dizer que não…”

“…Agora, esteja a Terra superpopulosa ou não, uma coisa é certa, os fortes sempre irão se apoderar das terras e das propriedades dos fracos. Estou convicto de que esta conduta não é, em absoluto, incompatível com a mais elevada moral e mesmo com o sentimento cristão…”

“…A raça saxônica jamais as tolerará, jamais se miscigenarão e jamais viverão em paz. É uma guerra de extermínio…” (As citações são de Robert Knox, The Races of Men Philadelphia, PA: Lea & Blanchard, 1850).

Falar em “raça saxônica” (sobretudo na sua suposta pureza), como a raça escolhida para o desfrute do Jardim Edênico da prosperidade, é, no mínimo, muito complicado, porque “ninguém sabe quem foram os saxões: no início do século V, três tribos germânicas invadiram e colonizaram o sul e o leste da Grã-Bretanha; há séculos os ingleses tentam encontrar provas de uma origem ‘nobre’, ‘heroica’ ‘uma raça superior’ ou um ‘berço nobre’ para os seus antepassados. O fato é que a ilha hoje chamada de Inglaterra foi invadida por todos os lados e por vários povos ao longo dos séculos. O principal povo invasor foram os romanos, que não só invadiram, mas colonizaram e se fixaram lá por mais de 400 anos. No século XXI, é no mínimo ridículo querer falar sobre raça pura na Inglaterra ou em todo o Reino Unido e no século XIX era igualmente ridículo”[5].

O racismo “científico” logo migrou para os Estados Unidos, onde o médico Samuel George Morton (1799-1851), com base nos seus estudos de anatomia e, particularmente, craniologia, afirmava “que os crânios das raças tinham vários tamanhos e que quanto maior o tamanho, maior o cérebro, quanto maior o cérebro maior a inteligência e a capacidade de evolução, sobrevivência, liderança etc. Só que eles achavam os crânios europeus e americanos sempre maiores que os crânios africanos, tasmanianos, malaios, mongóis e índios americanos”[6]. Se os negros pertencem às “raças inferiores” eles, então, poderiam ser escravizados, torturados, mutilados, encarcerados arbitrariamente e exterminados.

A Guerra Civil dos Estados Unidos (Guerra de Secessão – 1861 a 1865), que deixou mais de 700 mil mortos (620 mil soldados e 75 mil civis)[7], desencadeada a partir da negativa do sul escravagista (13 Estados Confederados) de acabar com a escravidão (que constituía a base da economia dos senhores latifundiários, particularmente a algodoeira), tem como pano de fundo o racismo “científico” (“as raças negras são inferiores”, porque “teriam crânios menores”). Após a vitória do Partido Republicano antiescravagista (Abraham Lincoln) os estados do sul se insurgiram fortemente.

A Guerra Civil americana pode ser definida como uma guerra entre duas visões opostas: uma nacionalista e conservadora (formada pelos protestantes brancos anglo-saxões) e outra fundada na igualdade entre todos os humanos (visão mais progressista e humanista), que acabou sendo retratada nas Emendas 14 e 15, que concediam plena cidadania e igual proteção diante da lei para os antigos escravos. Outra mudança fundamental foi que os Estados (que antes tinham total autonomia) passaram a se sujeitar à Carta de Direitos federal (o que significou profundas restrições na independência das elites locais).[8] Poucas décadas após o florescimento do “racismo científico” outras teses e teorias racistas surgiram (como veremos na próxima postagem).

Racismo cientfico origens das teses racistas na modernidade

[1] AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer. Tradução de Antonio Gimeno Cuspinera. Torino: Giulio Einaudi editore, 2013, p. 11 (“O humano moderno é um animal em cuja política está suspensa sua vida de ser vivente” Foucault).

[2] Cf. http://orescator.blogspot.com.br/2012/12/eugeniaoracismo-cientifico.html

[3] Cf. http://orescator.blogspot.com.br/2012/12/eugeniaoracismo-cientifico.html

[4] Todas as transcrições que seguem foram extraídas de http://orescator.blogspot.com.br/2012/12/eugeniaoracismo-cientifico.html

[5] Cf. http://orescator.blogspot.com.br/2012/12/eugeniaoracismo-cientifico.html

[6] Cf. http://orescator.blogspot.com.br/2012/12/eugeniaoracismo-cientifico.html

[7] WHITE, Matthew. El libro negro de la humanidade. Tradução Rosa María Salleras Puig e Silvia Furió. Buenos Aires: Crítica, 2012, p. 420 e ss.

[8] WHITE, Matthew. El libro negro de la humanidade. Tradução Rosa María Salleras Puig e Silvia Furió. Buenos Aires: Crítica, 2012, p. 422.

https://professorlfg.jusbrasil.com.br/artigos/254945905/racismo-cientifico-origens-das-teses-racistas-na-modernidade

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