Perdidos no labirinto dos robôs

Paul Krugman – Uma das partes menos discutidas do debate da terça-feira (15) entre os pré-candidatos presidenciais democratas nos Estados Unidos foi um diálogo sobre a automação e como lidar com ela. Mas vale a pena dedicar atenção a esse trecho do debate porque ele foi muito interessante –e com isso quero dizer “deprimente”.

Erin Burnett, da CNN, um dos moderadores, fez uma pergunta ruim, e os debatedores em geral –talvez com a surpreendente exceção de Bernie Sanders– deram respostas igualmente ruins. Por isso, permitam-me fazer um apelo aos democratas: não se percam no labirinto dos robôs.

Burnett declarou que um estudo recente apontava que “cerca de um quarto dos empregos dos Estados Unidos podem ser perdidos para a automação nos próximos 10 anos”. O que o estudo de fato afirma é menos alarmante: o trabalho constatou que um quarto do empregos nos Estados Unidos terão “alta exposição à automação ao longo das próximas décadas”.

Mas se você acha que mesmo isso parece ruim, basta se perguntar a seguinte questão: em algum momento da história moderna uma afirmação semelhante não seria válida?

Afinal, no final da década de 1940, os Estados Unidos tinham cerca de sete milhões de pessoas trabalhando em agricultura e outros 12 milhões em linhas de montagem. Máquinas poderiam ser usadas para realizar o trabalho que esses americanos vinham fazendo, e isso veio a acontecer.

Na época, as pessoas imaginavam de onde viriam os novos empregos. Se você acha que preocupações quanto à automação são novidade, tenha em mente que “Player Piano”, um romance de Kurt Vonnegut que previa um futuro distópico no qual máquinas roubaram todos os empregos humanos, foi publicado em… 1952.

Mas a geração posterior foi uma era dourada para os trabalhadores americanos, que registraram avanços dramáticos em sua renda, e muitos deles ingressaram na classe média, que se expandiu rapidamente.

Seria possível afirmar que desta vez é diferente porque o ritmo da mudança tecnológica é muito mais rápido. Mas não é isso que os dados apontam. Pelo contrário. A produtividade dos trabalhadores –que é a maneira pela qual medimos em que medida trabalhadores estão sendo substituídos por máquinas– vem crescendo muito mais devagar do que no passado, nos últimos anos; entre 2007 e 2018, ela cresceu em menos de metade do ritmo registrado nos 11 anos anteriores.

O que pode nos levar a questionar sobre o que Andrew Yang está falando. Yang baseou toda sua campanha na premissa de que a automação está destruindo empregos em massa, e que a resposta é dar a todo mundo um estipêndio –que seria muito inferior ao valor que um emprego decente paga.

Até onde consigo compreender, ele está oferecendo uma solução inadequada para um problema imaginário, o que pode ser considerado impressionante, de alguma maneira.

Também preciso mencionar Joe Biden, que ecoou a fala de Yang sobre uma quarta revolução industrial. Voltarei ao assunto em um minuto.

Elizabeth Warren questionou a premissa de Burnett, afirmando que a principal razão para que estejamos perdendo empregos é a política comercial que encorajou a transferência de postos de trabalho ao exterior.

Essa afirmação foi rebatida de forma contundente pela equipe de verificação de fatos da Associated Press, que declarou que a automação era “a principal culpada” pela perda de empregos industriais entre 2000 e 2010.

Na verdade, Warren estava mais certa do que os supostos verificadores; estimativas razoáveis afirmam que o comércio internacional respondeu por grande proporção da perda de empregos industriais nos 10 anos que antecederam a Grande Recessão.

Warren estava certamente errada ao sugerir, no entanto, que mudar a política comercial faria muito por trazer bons empregos de volta. Ela foi muito mais convincente ao retornar à sua agenda mais ampla de combater a desigualdade e o poder dos ricos.

A melhor resposta, como eu disse, veio de Sanders. Não, não apoio sua proposta de garantia de emprego, que provavelmente não seria funcional. Mas ele estava certo ao dizer que existe muito trabalho a fazer nos Estados Unidos, e certo ao apelar por investimento público em larga escala, o que até mesmo os economistas convencionais vêm defendendo como resposta à fraqueza persistente da economia.

Por quê? Porque a fraqueza persistente –sim, o desemprego é baixo no momento, mas graças apenas a taxas de juros extremamente baixas, e estamos mal preparados para a próxima recessão– não se relaciona à automação; ela deriva de consumo privado inadequado.

O que causa a fixação quanto à automação, portanto? Pode ser inevitável que sujeitos vindos da tecnologia, como Yang, acreditem que aquilo que eles e seus amigos estão fazendo é histórico, não tem precedentes e muda tudo, mesmo que a história peça licença para discordar.

Mas em termos mais amplos, como argumentei no passado, para uma parte significativa da elite política e da mídia, falar de robôs –ou seja, de determinismo tecnológico– não passa de uma tática diversionista.

Ou seja, culpar os robôs pelos nossos problemas é tanto uma maneira fácil de soar atualizado e progressista (o que explica a fala de Biden sobre a quarta revolução industrial) quanto uma desculpa para não apoiar políticas que tratariam das causas reais do crescimento fraco e da desigualdade cada vez maior.

Assim, resmungar quanto aos perigos da automatização, embora possa parecer uma postura dura, na prática não passa de uma fantasia escapista para centristas que não querem encarar as questões verdadeiramente duras. E progressistas como Warren e Sanders, que rejeitam o determinismo tecnológico e encaram as raízes políticas reais de nossos problemas, são, pelo menos quanto a essa questão, os realistas duros presentes ao debate.

Os demais democratas deveriam seguir o exemplo deles. Deveriam se concentrar em questões reais e não se deixarem desviar pela pseudoquestão da automação.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/paulkrugman/2019/10/perdidos-no-labirinto-dos-robos.shtml

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