Parâmetros de uma sustentabilidade urbana popular

RAYSSA SAIDEL CORTEZ – É urgente o empenho de todos pela transformação coletiva dos nossos espaços urbanos em prol de um desejado ‘envolvimento humano-ambiental’.

No último século, o rápido crescimento dos centros urbanos, que se deu em decorrência do êxodo rural vivenciado pelas populações pobres no Sul Global, gerou muitos problemas ambientais e sociais. Agora, além dos habituais aspectos biofísicos das degradações encontrados na relação conturbada entre meio ambiente e o sistema econômico capitalista, os questionamentos a esse modelo precisam passar por compreender as desigualdades que ele produz e avançar nas propostas de transformações dessa realidade.

Nas nossas cidades, presenciamos milhares de quilômetros de rios poluídos, enquanto vemos centenas de milhares de torneiras secas. Também ouvimos sobre criminalização de comunidades das ocupações por moradia em áreas de proteção ambiental, enquanto assistimos à iniciativa privada e ao poder público promoverem conjuntos residenciais gigantescos nas mesmas áreas.

São contradições que ultrapassam o debate ecológico, mas, como ainda são suas pautas, é preciso um engajamento contrário a essa racionalidade desigual de produção espacial com base na justiça ambiental. Por esse motivo, há algumas décadas, a incompatibilidade de uma convivência equilibrada entre o meio ambiente e a produção capitalista do espaço urbano tem sido assunto de pesquisas científicas, com alguns rebatimentos em políticas públicas e legislações específicas.

Mas, antes do “triste fim da aquarela brasileira”, temos possibilidades de esperança! E o melhor: elas vêm dos aprendizados com a própria terra e seus elementos. Precisamos reaprender a lidar com tempos diferentes dos que nos impôs a lógica capitalista e reverter  a visão do uso do espaço natural como um recurso a explorar infinitamente. Nesse sentido, a agroecologia, vinda dos meios rurais ou praticada em vazios urbanos, tem apontado diversas transformações na luta popular por um desenvolvimento econômico e ecológico que se paute na justiça social.

Em síntese, a agroecologia é uma prática ampla de “usar o bioma a seu favor”. Ela abrange mais do que um sistema de plantio/colheita, abrange a inserção do que se pretende plantar num ciclo ecossistêmico que inclui conhecer a natureza e suas características favoráveis a determinadas culturas. Para melhor aproveitar das condições que a terra fornece para a produção agrícola é necessário integrar diversos saberes, científicos e populares. Além disso, vale lembrar que o pensamento agroecológico visa incluir os reais custos da exploração de elementos naturais no processo produtivo, como calcular efetivamente o valor dos gastos de água nos produtos, mesmo aqueles em que praticamente não se vê a quantidade utilizada.

Por fim, não existe revolução agroecológica sem reforma agrária (e, incluo, urbana), pois a reprodução da propriedade privada e de monocultura, apesar de lucrativa, não dialoga com as diversas capacidades da terra. Um bom exemplo está na na Zona Norte de São Paulo, onde a resistência criativa do assentamento Irmã Alberta tem permitido a colaboração de dezenas de famílias na prática da agroecologia para regeneração ambiental de uma área antes utilizada para silvicultura. Além da subsistência, a produção local também tem se conectado a trabalhos de extensão universitária e coletivos de alimentação.

Nas cidades altamente fragmentadas (que geram espaços vazios) e com solos degradados (que inviabilizam a produção de comida), estabelecer um marco de reaproximação com as questões ambientais precisa passar por integrar conhecimentos e respeitar os próprios direitos da natureza. Também é importante lembrar que a espoliação urbana, que submete os trabalhadores urbanos a extensas horas perdidas em transportes públicos, lhes rouba tempo até para a própria conscientização e soberania alimentar, quanto mais para práticas agrícolas.

É urgente o empenho de todos nós pela transformação coletiva dos nossos espaços urbanos em prol de um desejado “envolvimento humano-ambiental” que vise sustentar todas as formas de vidas, sem manter a prevalência de umas sobre as outras, também nas nossas cidades. Mais uma vez, a união das reformas urbana e agrária é convergência fundamental no Sul Global!

Ao longo da última década, foram experimentadas políticas públicas e programas que vão ao encontro dessas possibilidades de ser uma transição agroecológica ao nosso processo de produção do espaço urbano. Dentre os possíveis exemplos, boas práticas foram alcançadas com a demarcação de territórios indígenas e o reconhecimento das áreas rurais no Plano Diretor do município de São Paulo, bem como o fortalecimento das redes locais entre pequenos produtores agrícolas e o consumo em merendas escolares, por meio do programa “Ligue os Pontos” – iniciativa que, inclusive, foi premiada internacionalmente. Ou seja, temos diversos caminhos para articular ainda mais as perspectivas de uma sustentabilidade urbana popular.

Em 2019, o Brasil viu o maior acidente ambiental-trabalhista de sua história, em Brumadinho. As queimadas na Amazônia, mortes (e/ou perseguições) de ativistas ambientais, derramamento de resíduos de petróleo e o desmonte de uma estrutura reguladora das atividades que podem degradar ainda mais nosso meio ambiente.

Ainda não se pode prever quais serão todas as consequências de uma agenda ecocida como essa, mas a alienação de uma população, no campo ou na cidade, que se sente incapaz de conter a exclusão socioambiental e as próprias mortes, não tende a um futuro promissor. Nos resta conhecer e engajar na ação direta, seja em lutas locais (alô, MST e #brcidades!) ou na contestação ao modelo global (vide a juventude – inclusive brasileira, por meio da organização “Engajamundo” – que foi à ONU denunciar as violências ambientais que temos vivido). Mais do que nunca, é preciso se unir aos agentes transformadores e abraçar a causa do meio ambiente urbano como um direito coletivo fundamental a todas as vidas terrestres.

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