Os ricos também amam

José Martins – Lenin costumava dizer, não sem certa angústia, que faltava à maioria dos revolucionários comunistas a mesma clareza dos capitalistas quanto a seus objetivos e os meios para alcançá-los.

Para ele, isso acontecia porque lhes faltava a prática de pensar o que ele denominava “análise concreta da situação concreta”.

No último Fórum de Davos, realizado na semana passada, reunindo a nata dos economistas e ideólogos em geral dos capitalistas de todo o mundo, reapareceu com força a atualidade daquela afirmação do grande revolucionário.

Veja-se, por exemplo, a inacreditável mudança de pele do Fundo Monetário Internacional (FMI), instituição imperialista notabilizada nos últimos setenta anos do pós-guerra pela sua defesa de famigeradas políticas de austeridade fiscal e de indiscriminados cortes de gastos públicos com saúde, educação, e outras formas de proteção compensatória do Estado para a maioria da população de miseráveis espalhados pelo mundo.

Agora, o FMI aproveitou a reunião em Davos para apresentar seu relatório de perspectivas da economia mundial e anunciar ao mundo que está pensando diferente. Muito diferente.

“Em todas as economias, um imperativo chave – e cada vez mais pertinente num período de crescente descontentamento – consiste em ampliar a inclusão e garantir que as redes de proteção social estejam de fato protegendo os mais vulneráveis, e que as estruturas de Governo reforcem a coesão social”, salienta o FMI em seu relatório, ao mencionar quais deveriam ser as prioridades da política econômica dos capitalistas de todo mundo na atual situação concreta da economia mundial.

Combate imediato às desigualdades com investimentos que protejam os mais pobres. Aparentemente, a mesma bandeira da esquerda democrática no período do pós-guerra. Mas a coisa vai muito além das aparências e do colaboracionismo daqueles antigos amigos do povo.

De fato, o FMI admite agora que “o agravamento do mal-estar social em muitos países – devido em alguns casos à deterioração da confiança nas instituições tradicionais e a falta de representação nas estruturas de governo— poderia abalar a atividade econômica, complicar as iniciativas de reforma e prejudicar as iniciativas, o que faria o crescimento diminuir para aquém do projetado”.

Restauração do Estado de bem estar social dilacerado nas últimas décadas pela globalização e aprofundamento dos choques cíclicos? Muito mais do que isto. O súbito amor dos capitalistas pelos “mais vulneráveis” tem razões muito mais práticas do que declara a vã economia vulgar em recentes livros, relatórios e discursos.

Principalmente nos últimos meses, em que desataram inúmeras rebeliões e protestos sociais em países e regiões mais diversas do planeta, até o famigerado FMI defende um aumento do gasto social, a “inclusão e a coesão social” como forma de limitar o impacto da luta de classes sobre a economia e os Estados nacionais.

“É importante reconhecer que o gasto social seja bem orientado, que os mais vulneráveis sejam protegidos, e que os Governos assegurem que o crescimento e a recuperação sejam compartilhados por todos”, declarou a economista-chefe do FMI, Gita Gopinath, em Davos, uma clara revisão dos postulados defendidos nas últimas décadas pelo organismo.

Mais importante ainda. Durante a apresentação daquele relatório do FMI no Fórum de Davos, a nova presidenta do FMI, Kristalina Georgieva, citava o gênio russo Lev Tolstói, em Anna Karenina, para dizer que “toda variedade, todo encanto e toda beleza são feitos de luzes e sombras”.

Georgieva é uma economista inteligente. Coisa rara. Tem clareza da situação. Referia-se claramente ao lusco-fusco, ao crepúsculo que a economia global enfrentará nos próximos trimestres. E essas suas palavras aplicam-se corretamente às políticas do organismo que ela agora preside.

A política tradicional do FMI nunca foi criticada pelos capitalistas desde sua inauguração – no bojo do Tratado de Bretton Woods (1945) – por sua imposição goela abaixo da austeridade fiscal e das receitas de cortes de gastos públicos e sociais na periferia dominada do sistema imperial.

Muito pelo contrário. O FMI sempre teve as mãos totalmente livres para agir como um dos principais instrumentos políticos da exploração e saque imperialista sobre as economias dominadas da periferia do sistema.

Mas essa repentina bandeira de redução das desigualdades econômicas (não confundir com redução da exploração) e do súbito amor dos capitalistas pelos pobres também não é um mero discurso para ludibriar as massas, como sempre foi no caso dos antigos populistas do pós-guerra na América Latina e alhures.

Ao contrário, agora é para valer. O que propõem agora os novos amigos do povo é uma providência prática imediata, necessária, cirúrgica, em uma situação concreta de aproximação do mais potente choque econômico global dos últimos cem anos.

Diminuir as desigualdades como expediente para aumentar a exploração. Garantir a reprodução material da população no estouro da crise e evitar a revolução dos que não tem nada a perder a não ser seus grilhões.

Todo o amor dos ricos pelos pobres resume-se, portanto, ao abafamento da luta de classes e das rebeliões populares, principalmente no interior das principais potências mundiais.

Mas é exatamente aqui, no nó górdio de relacionamento entre essas potências mundiais, que aparece um rígido limite às políticas econômicas de manutenção da governabilidade das diferentes burguesias nacionais.

O capital é internacional, mas as burguesias sempre serão nacionais. Não existe possibilidade de governabilidade global.

A própria política econômica enunciada agora em Davos de redução das desigualdades para enfrentar os conflitos de ingovernabilidade nacionais já leva, antes mesmo de explodir o novo choque global, à incontrolável escalada de tensões protecionistas e potenciais choques armados entre as grandes potências.

Presencia-se, nos últimos anos, fortes posicionamentos políticos nacionais das principais burguesias nacionais (principalmente da maior potência econômica e militar do planeta) que desmancha perigosamente a globalização econômica e a ordem geopolítica do pós-guerra.

Os velhos fantasmas das grandes guerras do inicio do século passado ressurgem agora com toda força na cabeça e nas tarefas imediatas dos capitalistas de todo o mundo.

“O início desta década traz lembranças inevitáveis dos anos vinte do século XX: elevada desigualdade, rápido desenvolvimento tecnológico e grandes retornos no âmbito financeiro”, recordava Kristalina Georgieva na mesma intervenção em Davos.

“Para que a analogia pare por aí, é absolutamente decisivo agirmos unidos e de forma coordenada”, acrescentou. “Estejam preparados para agir se o crescimento se desacelerar de novo”, alertou a inteligente nova diretora do FMI aos principais dirigentes das grandes economias e demais capitalistas de todo o mundo.

Os ricos também amam

Responda