O enquadramento político de Deus

MAGALI DO NASCIMENTO CUNHA – Há muitas imagens de Deus e elas respondem aos jeitos de ser e às visões de mundo das pessoas que lhe rendem devoção

Deus se meteu em política no Brasil. Escolheu um salvador para os brasileiros: o ex-capitão tornado presidente da República em 2018 Jair Bolsonaro. Foi esta a notícia que tivemos nesta semana por duas fontes: uma, oficial, pelo próprio presidente, que postou no Twitter a entrevista do apóstolo congolês líder de uma igreja evangélica na França, Steve Kunda, veiculada em abril pela Rede Super, TV da Igreja Batista da Lagoinha, onde a ministra de Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, atua como pastora. Na gravação, o apóstolo diz que fala “da parte de Deus”, por isso, “…aceitando ou não, você seja de esquerda ou de direita, o senhor Jair Bolsonaro é o Ciro [rei persa que tirou os judeus do exílio babilônico] do Brasil. Deus o escolheu para um novo tempo, para uma nova temporada no Brasil”.

A outra fonte que coloca Deus na política é o bispo fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo. No mesmo dia em que o ex-capitão reavivou a entrevista do apóstolo Kunda, o bispo Macedo, em oração publicada, afirma a autoridade de quem elegeu o presidente e que isto garante-lhe o favor de Deus: “… te peço, meu Pai, por esta nação: nós elegemos Bolsonaro, então seja justo com ele, meu Pai”. O líder religioso declara ainda, falando com Deus, que, neste contexto, não cabe oposição ao eleito e os divergentes devem ser retirados do cenário: “Remova aqueles que querem impedi-lo de fazer um excelente governo. Ele pegou esse País, meu pai, caído, quebrado, assaltado, roubado, espoliado, desgraçado, para mudar a história dele, meu pai.

Governantes e grupos que fazem política apontando Deus como apoiador ou responsável por eles são coisa antiga. Há muitas histórias em muitos lugares. Independentemente das motivações que agora, no Brasil, se utilizam de Deus, a questão a ser refletida é que nunca houve e nem haverá uma única fala sobre Deus. No âmbito cristão, nem o livro sagrado, a Bíblia, traz uma única fala sobre Deus, o que gera muitas interpretações sobre quem é Deus, como fala, por intermédio de quem fala e o que fala. Por isso, no contexto da fé evangélica, há muitas igrejas, muitas doutrinas, muitas práticas. Mesmo no Catolicismo, que tem um governo central e uma orientação única, há tantas falas sobre Deus e suas preferências.

Em resumo, é preciso reconhecer que há muitas imagens de Deus e que elas respondem aos jeitos de ser e às visões de mundo das pessoas que lhe rendem devoção! Há deus para todos os grupos, deus para todos os gostos.

A fala sobre Deus e em nome dele pode vir de um congolês que vive na França e visita o Brasil, como pode emergir de uma mulher dalit destinada a limpar latrinas na Índia ou pode surgir de um guarani que está prestes a praticar suicídio em busca da Terra sem Males. Como são falas diferentes!

A fala sobre Deus e em nome dele pode ser o grito de uma mãe que perdeu o filho por tiros que partiram de um helicóptero da polícia no Rio e pode ser também de um pastor da Finlândia que participa da colheita de maçãs com sua comunidade. Há múltiplas vozes sobre Deus e em nome dele!

Quando uma pessoa ou grupo advoga para si a voz de Deus e afirma que o que Deus fala é o que ela ou ele pronuncia, e que toda fala diferente, diversa, deve ser retirada, sem alternativa, “aceite-se ou não”, aí temos o enquadramento de Deus, com extremismo revestido de fanatismo: a fala absoluta sobre Deus, sem diálogo, sem mediação, sem contextualização.

Como, então, julgar? Com quem Deus está? Quem fala em nome de Deus? Onde Deus está neste mundo, no Brasil? No Cristianismo, há uma orientação, uma chave para discernir. Quem se apresenta como cristão é seguidor do Cristo, é aquele que está no caminho de Jesus de Nazaré. Seguir o Cristo, caminhar nos seus passos, é viver a partir do amor incondicional, sem preço ou expectativa de retribuição, com misericórdia, com solidariedade, com despojamento e simplicidade, com justiça acima de preceitos injustos, sem discriminação de pessoas, com mansidão, com pacificação, com reconciliação, com paciência, com partilha de bens para que todos tenham o suficiente para sobreviver, com respeito e tolerância.

De acordo com os preceitos cristãos, estes são os frutos de uma vida cristã coerente. O contrário disto é qualquer coisa menos ser cristão. Jesus mesmo orientou seus seguidores: “Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores. Por seus frutos os conhecereis. Porventura, colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? Assim, toda árvore boa produz bons frutos, e toda árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa dar maus frutos, nem a árvore má dar frutos bons. Toda árvore que não dá bom fruto corta-se e lança-se no fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis” (Mateus 7.15-29).

Qualquer fala sobre Deus que remeta a frutos na forma de sacrifício de pessoas e do meio ambiente, morte, pobreza, discriminação, segregação, privilégios, ganhos por mérito, violência, disputas e divisão, intolerância, é falsa profecia, é falso cristianismo. É o enquadramento de Deus em desejos e projetos de pessoas e grupos. E se esta fala advoga o absoluto e a eliminação da discordância e do diferente, há mais maldade: é extremismo revestido de fanatismo que deve ser, urgentemente, superado, em nome da paz e da conciliação.

Quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, veja e ouça!

O enquadramento político de Deus

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