Sociedade

‘Nossa sociedade está esgotada de tudo’

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MARTA SZPACENKOPF – Pensador húngaro, que mora em São Paulo, esteve ao Rio para lançamento de livro na Escola de Artes Visuais do Parque Lage

“Precisamos repensar a própria questão do tempo. Existe uma política do tempo, de uma imediatez tamanha, que achatou a dimensão de tempo, quase eliminado-a”, pondera o filósofo húngaro Peter Pál Pelbart

“Nasci em Budapeste e vim para o Brasil com 3 anos. Sou filósofo, ensaísta e tradutor. Me formei em Filosofia pela Universidade de Sorbonne e coordeno a Companhia Teatral Ueinzz, formada por pacientes psiquiátricos. Me inspirei em autores como Nietzsche e Deleuze para apresentar os traços do niilismo contemporâneo.”

Conte algo que não sei.

Precisamos repensar a própria questão do tempo. Existe uma política do tempo, de uma imediatez tamanha, que achatou a dimensão de tempo, quase eliminado-a. Mas, como é que se vive um tempo, inclusive coletivamente, que não seja o da produtividade? No fundo, essa aceleração visa fazer render e produzir cada vez mais, otimizar as horas, ter uma finalidade. E se ousássemos pensar numa existência que não estivesse subordinada a uma finalidade como o progresso, a competência ou o dinheiro? Será que aguentaríamos?

A busca por uma finalidade está relacionada ao aumento de casos de depressão e ansiedade?

Sim. A exigência de ser uma empresa e ter que aprimorar suas competências para ter mais, e poder se oferecer ao mercado com mais chances exige muito. Exige, talvez, mais do que antigamente, quando alguém tinha que seguir certa tradição. Agora nem tem uma tradição para seguir, mas existe esse aprimoramento infinito e, no fundo, infindável. Nunca está bom, nunca é o suficiente. Ou seja, essa exigência tem um custo: ela cobra psiquicamente, e tem muita gente que não aguenta.

A sociedade está esgotada?

Nossa sociedade está esgotada de tudo: da velocidade, da representação, da saturação de informações, dos modos de controle e de monitoramento da vida. As pessoas estão cansadas de um modo de existência que não foi escolhido por ninguém, mas imposto a todos. Assim, cada um se sente exigido, coagido e cobrado a se otimizar e se aperfeiçoar, o que é um mecanismo de extração de vida e também de monitoramento.

E isso é totalmente negativo?

O esgotamento tem algo de positivo: em certos pontos, nos permite largar alguma coisa, em vez de querer restaurar, colar os cacos e conservar o velho. Precisamos largar algo que de fato caducou, e detectar novos movimentos e experimentações, que às vezes passam pela arte, política, clínica e filosofia. Em todos esses domínios, algo vai se experimentando, e eu diria que são tentativas de forjar outras maneiras de viver junto, de pensar.

No contexto de sociedade em crise, como as pessoas podem ser libertadas?

O que eu consigo enxergar não é uma resposta para isso, mas sim várias tentativas de experimentar uma nova relação consigo, com o entorno, com os poderes e com o próprio corpo. Não sei se é propriamente se libertar, porque não haveria um estado de liberdade absoluta. Acho que estamos num momento em que essas utopias mais paralisam do que realmente nos ajudam a pensar em saídas.

Estamos caminhando para uma nova sociedade?

Se o niilismo, a bio-política e o esgotamento servem para alguma coisa, obviamente é para fazer pensar as pequenas pistas que poderiam indicar outros modos de existência. Eu digo modos de existência e não sociedade porque acho esse termo muito global e pretensioso. O que percebo é que movimentos estão se articulando de forma mais interessante e vital. Essa cartografia tem que ser feita o tempo todo. Teríamos que retrabalhar a nossa percepção, inclusive para remover todos os clichês que estão grudados na gente e que nos dizem, por exemplo, o que é amor, felicidade, vida boa e beleza. Esse clichês produzem uma percepção e um ideário que precisam ser postos em cheque.

http://oglobo.globo.com/sociedade/conte-algo-que-nao-sei/peter-pal-pelbart-nossa-sociedade-esta-esgotada-de-tudo-21231724

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