François Chesnais “uma nova fase prolongada de acumulação de capital, não é possível”

Henri Wilno – Diante da catástrofe do incêndio na Amazônia, vimos apresentando uma série de artigos sobre a depredação capitalista do meio ambiente: uma coleção de textos de análise marxista e de esquerda de intelectuais de vários países, como as contidas nesta entrevista de Chesnais de abril de 2017. Mesmo diante de algumas visões programáticas com as quais temos diferenças, há um inegável diagnóstico comum: o capitalismo nos leva à catástrofe.

Para François Chesnais[1], o capitalismo, imerso em suas contradições internas e também imerso na crise ecológica que gera, entra em conflito hoje com “limites intransponíveis”.

Henri Wilno – O debate entre economistas marxistas sobre as causas da atual crise não está encerrado. Como você se posiciona nesse debate? Como se articulam os diferentes fatores da crise?

François Chesnais – O início da crise está data-se entre o final de julho e início de agosto de 2007. Nos últimos nove anos, minha posição evoluiu, é claro. Em um texto do outono de 2007 para o Congresso Internacional Marx, publicado no número 1 da revista conjunta A l’Encontre-Carré rouge, eu disse de imediato que a crise havia começado de uma maneira muito clássica no sistema de crédito dos EUA, que foi uma crise de superprodução e superacumulação baseada no endividamento massivo de empresas e famílias, facilitada por meios de engenharia financeira sem precedentes e cujo terreno era o mercado mundial. A crise de setembro de 2008 em Wall Street esteve prestes a levar consigo o sistema financeiro global e provocou uma recessão mundial impedida de sobrevoar pela China.

De uma perspectiva global, houve uma reestruturação e não uma destruição do capital produtivo. Não é o caso do capital fictício, ou seja, dos títulos que dão direito a participar na repartição de benefícios no caso de ações e obrigações privadas e, no de títulos do Tesouro, a serem cobrados por meio do serviço da dívida pública com o rendimento centralizado pelo imposto. Para seus titulares, esses títulos, que devem ser negociáveis o tempo todo em mercados especializados, representam um “capital” do qual esperam um retorno regular na forma de juros e dividendos (uma “capitalização”). Do ponto de vista do movimento do capital que produz valor e mais-valor, eles não são, na melhor das hipóteses, mais do que a “memória” de um investimento já realizado, daí o termo capital fictício.

A partir dessas formas primárias, a “engenharia financeira” gerou formas derivadas (em inglês, derivatives). Em meus textos, sublinhei a atualidade do “ciclo curto” do dinheiro de capital (A-A’, isto é, receber mais dinheiro do que o inicialmente aportado), no qual os investidores esperam, sem sair do mercado financeiro, fluxos de rendimento regulares “como as pereiras trazem peras” [segundo uma expressão irônica de Marx].

Na questão da taxa de lucro, em relação à qual não tenho nada a contribuir, aderi à posição clássica, que a vincula à composição orgânica do capital, mas tenho insistido na necessidade do capital industrial realizar o ciclo completo, A-M-P-M’-A’ (para obter A’  havendo adiantado A é necessário que tenha havido uma compra de força de trabalho, produção e comercialização) e, portanto, estar interessado pela demanda. Nos últimos meses em que estava escrevendo o “Finance Capital Today”, um texto em inglês de Ernest Mandel de 1986 caiu em minhas mãos, que nunca foi citado ou quase nunca, sobre as consequências do que ele chamava de “robotismo”, que então estava começando.

Mandel argumenta neste artigo que “a extensão da automação para além de um certo limite leva inevitavelmente, primeiro a uma redução no volume total do valor produzido e, em seguida, a uma redução no volume de mais-valor realizado“. [2]

Via ali um “limite intransponível”, portador de uma “tendência do capitalismo ao colapso final”. A robotização bloqueia a possibilidade de baixar a composição orgânica, ou seja, a relação entre a parte constante (o valor dos meios de produção) e a parte variável (o valor da força de trabalho, a soma dos salários), de modo que o jogo efetivo dos fatores que “neutralizam a baixa tendência da taxa de lucro” se torna esporádico e o que era um limite relativo se torna um limite absoluto.

Muito mais recentemente, em um texto esclarecedor de 2012, Robert Kurz fala de “produção real insuficiente de mais-valia” no fundo da “terceira revolução industrial (microeletrônica)”. A fraqueza do investimento produtivo faz com que o capital fictício viva cada vez mais em uma esfera fechada. As “pereiras dão menos peras”, exceto no caso dos títulos do Tesouro, onde o trabalho dos operadores consiste em realizar lucros, minúsculos na maioria das transações, passando de uma participação de mercado para outra. O resultado é a instabilidade financeira endêmica e a formação de bolhas, que é outra característica do período.

Henri Wilno – Podemos dizer que o único horizonte do capitalismo é a perpetuação dessa crise?

Eu acredito que sim, especialmente quando haverá um entrelaçamento com os efeitos econômicos, sociais e políticos das mudanças climáticas. Dois mecanismos poderosos, descritos como “procíclicos”, tornaram-se estruturais e favorecem essa situação em que a saída da crise, ou seja, uma nova fase prolongada de acumulação de capital, não é mais possível. O primeiro mecanismo é claramente identificado, a saber, a defesa incondicional das reivindicações dos detentores de títulos da dívida pública, o que implica impor austeridade orçamentária e o ataque aos direitos sociais. O segundo é um mecanismo cuja função começa a ser reconhecida, a saber, os efeitos da robotização, cuja desaceleração é impossível devido à competição capitalista, à tendência de diminuir os ganhos de capital e à dificuldade de satisfazer os acionistas. Basta ver o que está começando no setor bancário, sem dúvida “a siderurgia do amanhã”.

Por outro lado, a crise econômica, quando prolongada, será combinada com os efeitos econômicos, sociais e políticos das mudanças climáticas; as relações que o capitalismo estabeleceu com a “natureza” levaram a outro limite, cuja caracterização está em discussão. Marx não podia prever a destruição pela produção capitalista de equilíbrios ecossistêmicos, particularmente da biosfera. Ele mal previu o esgotamento dos solos devido à industrialização da produção agrícola. Alguns marxistas, começando com O’Connor, tentaram preencher o vazio. Eles começaram definindo a destruição de recursos não renováveis ​​em suas múltiplas formas e, posteriormente, as mudanças climáticas como um “limite externo”.

Defendo a tese da internalização do limite, a necessidade de abandonar agora a oposição entre “contradição interna” e “contradição externa” por causa da impossibilidade do capitalismo modificar suas relações com o meio ambiente. Com efeito, a interminável valorização do dinheiro convertido em capital em um movimento de produção e venda de mercadorias, também interminável, impede que ele reduza suas emissões de gases de efeito estufa, controlando a taxa de exploração de recursos não renováveis. O mecanismo que leva à “sociedade de consumo” e seu insensato desperdício é o seguinte: para que a auto-reprodução do capital seja eficaz, é necessário que o ciclo de recuperação se feche com “sucesso”, ou seja, que as mercadorias fabricadas, a força de trabalho comprada no “mercado de trabalho” e usada a critério das empresas nos centros de produção, se vendam.

Para que os acionistas estejam satisfeitos, é necessário trazer ao mercado uma vasta quantidade de mercadorias que cristalizam o trabalho abstrato contido no valor. Para o capital, é absolutamente indiferente que esses bens realmente representem “coisas úteis” ou que simplesmente o pareçam. Para o capital, a única “utilidade” que conta é a que possibilita obter benefícios e continuar o processo de valotização sem fim, de modo que as empresas se tornem mestres na arte de convencer, por meio da publicidade, aqueles que tem realmente ou de forma fictícia (crédito) o poder de compra de que as mercadorias que lhes oferecem são “úteis”.

Henri Wilno – Com relação à crise ecológica, o termo “antropoceno” é frequentemente usado para designar a tendência e assinalar responsabilidades. Você rejeita. Você pode especificar o que está por trás deste debate?

O que está em jogo é a necessidade de dar uma base sólida ao ecossocialismo. Não esqueça que o artigo publicado no Inprecor é uma tradução da conclusão do Finance Capital Today. Para mim, tratava-se de fornecer a um público de língua inglesa um ponto de referência. O nome de Jason Moore lhes é familiar. O termo “antropoceno” foi inventado por alguns cientistas para designar a atual era geológica, caracterizada pelo fato de que a “humanidade” se converte em uma força geológica efetiva que altera o conjunto de fatores climáticos, geológicos e atmosféricos.

Em um trabalho que visa “multiplicar os pontos de vista”, Christophe Bonneuil e Jean-Baptiste Fressoz propuseram uma “leitura ecomarxista do antropoceno”, que consiste em “reler a história do capitalismo sob o prisma, não apenas dos efeitos sociais negativos de sua globalização, como no marxismo padrão (cf. a noção de ‘sistema-mundo’ de Immanuel Wallerstein e ‘troca desigual’), mas também de seus metabolismos materiais insustentáveis ​​(consistindo em vazamentos recorrentes para a ocupação de novos espaços até depois virgens, implantando nelas relações extrativistas e capitalistas) e seus impactos ecológicos ”.[3] Bonneuil e Fressoz, como Jason Moore, estabelecem um elo entre a mudança das relações do ser humano com a natureza, teorizada por Francis Bacon e René Descartes, e a das relações entre os seres humanos com a criação da escravidão e depois a construção da dominação imperialista.

Moore é menos ecumênico que os autores franceses e toca na ferida. A palavra “capitaloceno” serve para afirmar que vivemos “a era do capital” e não a “era do ser humano”. “A idade do capital” não tem para ele apenas um significado econômico, mas designa uma maneira de organizar a natureza, tornando-a um elemento externo ao ser humano e também um elemento “cheap”, no duplo sentido que pode ter esta palavra em inglês: barato, mas também a derivada do verbo “cheapen”, que significa rebaixar, diminuir e degradar.[4] Isso se aplica aos trabalhadores, quando a intensidade da exploração do trabalho culmina nas minas e nas plantações.

Henri Wilno – Você atualiza o debate sobre os limites do capitalismo e isso destaca a importância do que está em jogo no período atual. Agora, ao contrário dos anos trinta, sem dúvida, estamos testemunhando um aumento nas forças reacionárias de toda pelagem, mas não no movimento dos trabalhadores, enquanto o movimento altermundista*, na melhor das hipóteses, está estagnado e os ambientalistas são capazes de oferecer feroz resistência local, mas não mais que isso … Nesse contexto, quais podem ser as perspectivas e pontos de apoio dos marxistas revolucionários?

Devemos ter cuidado com a analogia dos anos trinta, cada vez mais marcada pela perspectiva de uma nova guerra mundial. Mas, no demais, estás certo. Tudo está nas mãos dos ” de baixo”. O peso do desemprego impede as lutas dos trabalhadores. A tarefa do momento é transformar a indignação em raiva em todas as áreas em que as desigualdades a despertam, semear seus germes e apoiá-la quando ela explodir. É essencial direcioná-la contra o capital e a propriedade privada. As lutas ecológicas extraem força de sua convicção e da delimitação exata do inimigo. Ao contrário, o movimento altermundista estagna porque eliminou o componente anticapitalista que já teve em algum momento.

Publicado originalmente na revista L’Anticapitaliste”, nº 86 (abril de 2017):

Tradução:”viento sur”

Tradução para o português de José Roberto Silva desde http://izquierdaweb.com/dossier-cambio-climatico-crisis-capitalista-francois-chesnais-una-nueva-fase-prolongada-de-acumulacion-de-capital-no-es-posible/

* Altermundialismo é um movimento social cujos proponentes defendem interação e cooperação globais, mas opondo-se ao que descrevem como efeitos negativos da globalização econômica.

[1] Membro do grupo de trabalho de Economia do Nouveau Parti Anticapitaliste (NPA) e do conselho científico Attac, François Chesnais escreveu, por exemplo, Les Dettes illegitimes (Editions Raisons d’agir) e dirigiu La Finance mondialisée (Editions La Découverte 2004 ) [2] Ernest Mandel, Introdução, em Karl Marx, Capital, Livro III (Penguin, 1981), p. 78 [3]  Attac, Les Possibles, nº 3, primavera de 2014, onde resume as posições defendidas em seu livro L’événement anthropocène – La Terre, listo et et nous, Le Seuil, 2013. [4] Jason Moore, Capitalism in the Web of Life, Ecology and the Accumulation of Capital, Verso, 2015.

Crise do Capital: François Chesnais “uma nova fase prolongada de acumulação de capital, não é possível”

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