Erik Olin Wright: como ser anticapitalista no século XXI?

Erik Olin Wright – Abaixo, um trecho de Como ser anticapitalista no século XXI?, do sociólogo estadunidense Erik Olin Wright (1947-2019), a ser publicado em breve pela Boitempo Editorial. A obra é escrita em linguagem acessível e foca na visão do autor sobre problemas práticos da militância anticapitalista. Wright foi um intelectual alinhado ao socialismo e Como ser anticapitalista no século XXI? foi sua última obra.

Na primeira parte do livro, de onde foi extraído o trecho, Wright elabora um diagnóstico crítico e didático do capitalismo. Abaixo, ele explica o que é, na sua visão, o capitalismo e esboça algumas questões sobre a oposição a esse sistema. Tradução de Fernando Pureza.

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Para muita gente, a noção de anticapitalismo parece ridícula. Afinal, olhem para as fantásticas inovações tecnológicas em bens e serviços produzidos pelas empresas capitalistas nos últimos anos: smartphones; filmes em streaming; carros privados sem motoristas; redes sociais; a cura para uma série de doenças; telões gigantes em alta definição para passar jogos de futebol e videogames conectando milhares de jogadores ao redor do mundo; cada produto concebível está agora disponível na internet e será rapidamente entregue em sua casa; aumentos impressionantes na produtividade do trabalho por meio de tecnologias de automação; e a lista segue. E ainda que se afirme que a renda é desigualmente distribuída nas economias capitalistas, é também verdade que a variedade de bens de consumo disponíveis para a maioria das pessoas, inclusive para os mais pobres, aumentou enormemente em praticamente todo o mundo. A título de comparação, vejam os Estados Unidos durante meio século, entre 1968 e 2018: o percentual de americanos com ar condicionado, carros, máquinas de lavar, lava-louças, televisões e encanamento residencial aumentou significativamente nesses últimos cinquenta anos. A expectativa de vida é cada vez mais longa para a maioria das pessoas, e a mortalidade infantil vem caindo. É uma lista sem fim de mudanças. E agora, neste século XXI, estamos observando a melhoria do padrão de vida até mesmo em algumas das regiões mais pobres do mundo: vejam as melhorias no padrão de vida material de chineses desde que a China aderiu ao livre comércio. E mais: vejam o que aconteceu com a Rússia e com a China quando elas tentaram se opor ao capitalismo! E mesmo que ignoremos a opressão política e a brutalidade desses regimes, eles também foram fracassos econômicos. Sendo assim, se você deseja melhorar a vida das pessoas, como é que você vai ser anticapitalista?

Bem, essa é uma história, a história oficial, por assim dizer.

Mas aqui vai outra: a marca registrada do capitalismo é a miséria que ele gera em meio à abundância. Essa não é a única coisa errada no capitalismo, mas é uma característica comum das economias capitalistas e que inclusive é o seu maior fracasso. Em particular, a miséria que atinge as crianças, que claramente não têm qualquer responsabilidade por seu sofrimento, é algo moralmente repreensível em sociedades ricas nas quais essas formas de pobreza poderiam facilmente ser eliminadas. Sim, nós temos crescimento econômico, inovação tecnológica, aumento na produtividade e uma difusão verticalizada de bens de consumo, mas somado a tudo isso, junto do crescimento econômico capitalista, juntamente vem a destituição de muitos cuja forma de vida foi destruída pelo avanço do capitalismo, com a precarização dos que estão nas partes mais baixas do mercado de trabalho capitalista, promovendo trabalhos alienantes e tediosos para a maioria. O capitalismo, de fato, gerou aumentos massivos na produtividade e uma riqueza extravagante para alguns, mas a maioria ainda tem que lutar pela sua subsistência. Ele é uma máquina de aperfeiçoamento das desigualdades, bem como uma máquina de crescimento econômico. E mais: está ficando cada vez mais claro que o capitalismo, movido pela busca incessante por lucro, está destruindo o meio ambiente. E, ainda assim, a questão central não é se as condições materiais não melhoraram no longo prazo nas economias capitalistas, mas se para a maioria não seria melhor uma forma de economia alternativa. É verdade que as economias estatistas, centralizadas e autoritárias, formuladas pela Rússia e pela China podem ser consideradas, em certa medida, fracassos. Mas essas não são as únicas possibilidades.

Essas duas histórias estão amparadas na realidade do capitalismo. Não é uma ilusão dizer que o capitalismo transformou as condições materiais de vida no mundo todo e aumentou enormemente a produtividade humana; muitos se beneficiaram disso. Mas, da mesma forma, não é uma ilusão dizer que o capitalismo gera grandes prejuízos às pessoas e que perpetua formas de sofrimento humano passíveis de serem eliminadas. Onde o verdadeiro desacordo entre essas duas histórias aparece – e um desacordo fundamental – é sobre se é possível ter a produtividade, a inovação e o dinamismo que vemos no capitalismo sem ter os seus males. Margaret Thatcher anunciou, no início dos anos 1980, que “não havia alternativa”; duas décadas depois, o Fórum Social Mundial declarava, “um outro mundo é possível”. E esse é o debate fundamental.

O argumento central neste livro é o seguinte: primeiro, um outro mundo é, de fato, possível. Segundo, que ele pode melhorar as condições para o desenvolvimento humano da maioria das pessoas. Terceiro, que os elementos desse novo mundo já estão sendo criados no nosso mundo atual. E, finalmente, que há formas de caminharmos até esse novo mundo. O anticapitalismo é possível não apenas como postura moral perante os males e as injustiças do mundo em que vivemos, mas como uma postura prática em direção à construção de uma alternativa em prol do desenvolvimento da humanidade.

Este capítulo irá construir esse argumento e inicialmente explicará o que quero dizer quando falo em “capitalismo” e, a partir disso, explorar as bases capitalistas para a sua avaliação enquanto um sistema econômico.

O QUE É CAPITALISMO?

Como muitos conceitos utilizados na nossa vida cotidiana e no trabalho acadêmico, há muitas formas diferentes de se definir “capitalismo”. Para muita gente, o capitalismo é o equivalente à economia de mercado – uma economia na qual as pessoas produzem coisas para serem vendidas para outras pessoas por meio de acordos voluntários. Alguns chegam a acrescentar o termo “livre” antes da palavra “mercado”, enfatizando que o capitalismo é uma economia na qual as transações do mercado são pouco reguladas pelo Estado. E tem também quem enfatize que o capitalismo não pode ser caracterizado somente pelos mercados, mas também pela propriedade privada do capital. Sociólogos, em especial os influenciados pela tradição marxista, costumam acrescentar a ideia de que o capitalismo se caracteriza por uma forma particular de estrutura de classes, na qual quem trabalha nessa economia – a classe trabalhadora – não possui os meios de produção. Isso leva ao menos a duas classes básicas nessa economia: a dos capitalistas, que têm a propriedade dos meios de produção; e a dos trabalhadores, que fornecem mão de obra aos seus empregadores.

[…] pretendo usar o termo “capitalismo” para designar tanto a ideia de capitalismo como economia de mercado quanto a ideia de que ele é organizado por meio de uma estrutura de classes específica. Uma forma de pensar essa combinação é que a dimensão do mercado identifica o mecanismo básico da coordenação de atividades de um sistema econômico – no caso, a coordenação por meio de trocas voluntárias descentralizadas, com oferta e procura e preços operando – enquanto a estrutura de classes identifica as relações centrais de poder dentro desse sistema econômico – entre detentores da propriedade do capital e trabalhadores. Para dar um exemplo, é possível ter mercados nos quais os meios de produção são de propriedade do Estado: as empresas são propriedade estatal e é o Estado que aloca os recursos necessários para essas firmas, tanto como investimento direto quanto como empréstimo via bancos estatais. Esse sistema pode ser chamado de economia de mercado estatista (ou, como outros preferem chamar, de “capitalismo de Estado”). Ou as próprias empresas, na economia de mercado, podem ser cooperativas, cuja propriedade e controle estão nas mãos de funcionários ou consumidores. Uma economia de mercado organizada dessa forma pode ser chamada de economia de mercado cooperativada. Em contraste a essas formas de economia de mercado, a característica principal da economia de mercado capitalista, contudo, é a forma pela qual a propriedade privada do capital se vê empoderada tanto dentro das empresas como no sistema econômico como um todo.

MOTIVOS PARA SE OPOR AO CAPITALISMO

O capitalismo gera anticapitalistas. Em algumas épocas e em alguns lugares, a resistência ao capitalismo se cristaliza em ideologias coerentes, com diagnósticos sistemáticos sobre a fonte dos males e a clara percepção do que se deve fazer para eliminá-la. Em outras circunstâncias, o anticapitalismo está simplesmente repleto de motivações que, superficialmente, parecem dizer pouco sobre o capitalismo, por exemplo, quando falamos de crenças religiosas que levaram as pessoas a rejeitar a modernidade e buscar refúgio em comunidades isoladas. Por vezes, o anticapitalismo toma a forma de trabalhadores no chão de fábrica, individualmente resistindo às demandas dos seus patrões. Em outros momentos, é corporificado em organizações de trabalhadores, engajadas em lutas coletivas sobre suas próprias condições de trabalho. Onde quer que o capitalismo exista, ele sempre virá acompanhado de descontentamento e resistência, assumindo as mais diferentes formas.

Diante dessa variedade de luta dentro e sobre o capitalismo, duas formas mais gerais de motivações entram em cena: os interesses de classe e os valores morais. Você pode se opor ao capitalismo porque ele prejudica seus interesses materiais, mas também porque ele ofende certos valores morais que são caros a você.

Há um cartaz do final dos anos 1970 que mostra uma trabalhadora inclinando-se sobre um muro. A legenda diz: “Consciência de classe significa saber de que lado do muro você está; análise de classe é descobrir quem está do mesmo lado que você”. A metáfora do muro denota conflito dentro do capitalismo, já que ele seria baseado em interesses de classe distintos. Estar do lado oposto do muro define amigos e inimigos nos termos desses interesses opostos. Algumas pessoas podem se sentar sobre o muro, mas em última instância terão que tomar uma decisão: “Ou você está conosco, ou está contra nós”. Em certas situações históricas, os interesses que definem os lados do muro são bastante fáceis de decifrar. É óbvio para praticamente todo mundo que nos Estados Unidos, antes da Guerra Civil, os escravos eram prejudicados pela escravidão e que, portanto, eles tinham interesse de classe na abolição, enquanto, por outro lado, os senhores de escravos tinham interesse na sua perpetuação. Pode ser que tenhamos alguns senhores com sentimentos ambivalentes quanto a ter escravos como propriedade – esse é o caso de Thomas Jefferson, por exemplo –, mas essa ambivalência não se dava por conta dos seus interesses de classe; ela ocorria porque havia uma tensão entre esses interesses e certos valores morais que esses senhores tinham.

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