Eleições presidenciais nos EUA: um olhar do Oriente Médio

Sharmine Narwani – O que é melhor para os EUA – segundo a mídia de lá – pode ser outro tormento para o Oriente Médio.

Apesar de a era de hegemonia global dos EUA estar chegando ao fim, o Oriente Médio – mais que muitas outras partes do mundo – ainda padece sob os derradeiros golpes sujos do Império em agonia [Exatamente isso também se pode dizer da América Latina, hoje sob ataque de Guerra Híbrida dos EUA (NTs)].

Não surpreende portanto que a temporada de eleições presidenciais nos EUA seja sendo observada tão atentamente cá em todas as esquinas do Oriente Médio.

Aqui, o debate sobre o possível vencedor tem menos a ver com projetos econômicos, políticos e sociais, e mais com qual dos candidatos é ameaça menor de novas guerras contra nós, nessa parte do mundo.

Nas conversas, parece haver consenso em torno da ideia de que Hillary Clinton seria mal ainda maior para a região, embora, é claro – como nos EUA –, as percepções mudem dramaticamente quando se fala com as elites regionais e supostas ‘liberais’ [também vale para o Brasil 2016, sob ataque golpista de elites regionais também supostas ‘liberais’ (NTs)].

E exatamente como seus contrapartes norte-americanos, também os cidadãos do Oriente Médio [e, idem, também os latino-americanos (NTs)] se deixam encurralar pela mídia-empresa em discussões sobre o ‘racismo’ de Donald Trump, a ‘viabilidade’ de Bernie Sanders e o ‘belicismo’ de Clinton. As empresas de mídia, afinal de contas, nunca antes foram mais absolutamente uniformes em seus discursos – e todos os cidadãos do mundo, universalmente, ouvem/leem pautas idênticas [vale localmente também para o nosso nefando Grupo GAFE (Globo, Abril, Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo), mantido semivivo com doses gigantescas de ‘material de agências internacionais’ (NTs)]

Mas as eleições presidenciais de 2016 nos EUA significam muito mais que ‘pesquisas’ como as que se viam décadas atrás. Do Levante ao Golfo Persa e ao Norte da África, as fronteiras jamais antes foram tão penetradas, o terrorismo tão generalizado, a segurança e os recursos naturais tão severamente ameaçados.

O Oriente Médio é uma interminável ruína. E no coração de cada um e de todos esses sorvedouros mortais lá estão os EUA, impondo-se sem serem chamados, a ‘expertise’ militar dos EUA e aquele ‘fazer-o-benzismo’ humanitário dos EUA a agravar os nossos padecimentos. Mas são poucos os problemas no Oriente Médio que não tenham sido causados ou exacerbados pela mão destrutiva da política externa dos EUA.

Derradeiro playground

O Oriente Médio é o derradeiro playground onde os EUA ainda podem agir impunemente. [Parece que, agora, a América Latina foi ‘selecionada’ para esse ‘posto’, empurrada para lá por golpistas muito estranhamente… eleitos! É novidade. No golpe de 64, os entreguistas estavam no Exército e o pensamento entreguista deles tinha alguma legitimidade, porque construído por eles mesmos, brotado da inteligência do general Golbery, não da estupidez histriônica pervertida de Janaínas Paschoais, Elianes Cantanhedes, Leilanes Neubarths e tais (NTs).] Parte da razão de assim ser é que a maioria dos doze estados que compõem a região ainda são governados por ditadores e monarcas apoiados pelos EUA. Ali, eles operam como procuradores dos interesses dos EUA, que são tratados como superiores aos interesses dos próprios cidadãos de cada um desses infelizes países. Os EUA jogam duro nessa região, porque desejam manter esse status quo notavelmente favorável – que já perderam em, praticamente, todo o resto do mundo.

Já com a Guerra Fria nos estertores finais – quando se extinguiam os últimos líderes no Oriente Médio que seguiam o Bloco Soviético, e eram substituídos por servos obedientes dos EUA –, surgiu a Revolução Iraniana, em 1979, a sacudir novamente a região, relançando uma nova aspiração de independência que livrasse o Irã do ‘anglo imperialista’.

No final da guerra do Iraque contra o Irã, que forçou os iranianos a recolher todas as suas aspirações durante oito destrutivos anos, Teerã começou a forjar relacionamentos regionais que formaram a base de um novo Eixo da Resistência contra as ambições hegemonistas ocidentais e norte-americanas.

Os EUA expandiram sua ação militar no Oriente Médio principalmente para tentar arrancar do próprio lombo esse espinho ‘xiita’ que o ameaçava – mas não apenas falhou, e não numa, mas em várias tentativas de consecutivos governos norte-americanos; ainda pior que isso: para tentar alcançar seus objetivos, os EUA deliberadamente libertaram todos os demônios do sectarismo, até então bem contidos.

Bom-dia, fundamentalismo wahhabi sunita. Bom-dia Al-Qaeda. Bom-dia, ISIS [Bom-dia Kataguiris. Bom-dia, Malafaia. Bom-dia, Bolsonaro (NTs)].

Mas por que insistir nessa história ainda recente? Por uma importante principal razão. Ainda que, agora, os EUA comecem a combater contra o monstruoso Frankenstein que eles mesmos criaram com suas invasões, no Afeganistão, no Iraque, na Líbia e, agora, com a intervenção ilegal na Síria… Washington mantém as armas miradas também contra o Irã, a Síria, o Hezbollah e outras entidades que também combatem o mesmo terrorismo.

Quando Trump expôs suas ideias de política externa, no início dessa semana, ele disse, da atual política dos EUA, que é “errática, sem rumo e sem leme” – “política que, no primeiro momento, já traçava o caminho da própria destruição”.

É exatamente o que mais se ouve nos últimos anos – desde o início dos ‘levantes’ árabes – com acadêmicos e jornalistas coçando a cabeça sem entender os objetivos dos EUA no Oriente Médio.

Nada mais errado. A política dos EUA nada tem de errática ou sem rumo: tudo ali é muito pensado e atentamente deliberado. Pense: Washington visa a conter o eixo da resistência liderado pelo Irã, jogando contra ele extremistas influenciados pelo wahhabismo, em partes da região definidas como de profundidade estratégica do Irã. Ao mesmo tempo, finge que quereria conter a proliferação dos mesmos extremistas e, taticamente, ‘faz as pazes’ com o Irã. Só assim se explica o repentino acordo nuclear P5+1 assinado no auge de todo esse conflito.

É o que eu chamo de “dissonância estratégica” dos EUA – jogar com os dois lados, para construir conflito prolongado, num esforço para, no longo prazo, levar os dois lados à mútua extinção.

O único problema é que essa é jogada absolutamente incontrolável, de resultados imprevisíveis – e daí o caos, a destruição e o terrorismo que hoje já extravazou daquela reunião e chegou à Europa e além da Europa.

Mr. America versus Ms. Washington

É claro que essa dissonância estratégica mais uma vez empurrou os norte-americanos para “consequência não prevista nem desejada”. É claro também que será necessária uma pesada marreta para alterar a tendência destrutiva da política exterior dos EUA.

O mais interessante na eleição de 2016 nos EUA, é que os eleitores deram-se as mãos para proteger candidatos muito improváveis como Bernie Sanders e Donald Trump; isso, parece, porque decidiram cercar e paralisar o establishment.

Os dois candidatos com mais chances expuseram visão mordaz dos políticos que estão no poder em Washington e dos ‘grupos de interesses’ que os empurram adiante – tanto de dentro como de fora do país.

E Hillary Clinton – a candidata ‘escolhida’ doestablishment que tinha eleição ‘garantida’ até há bem poucos meses – teve de disputar corpo a corpo cada voto, contra Sanders, novato, pode-se dizer, do Partido Democrata.

E os golpes mais fáceis contra Clinton vieram da arena da política exterior, na qual a autopromovida rainha-de-guerra de Washington tem longo histórico de apoiar o plano errado – no Iraque, na Líbia e na Síria.

No Oriente Médio, o militarismo doentio de Hillary Clinton faz esquecer qualquer boa vontade que, sem ele, se poderia ainda ter por candidato/a do Partido Democrata. No Egito, os cidadãos nas ruas jogaram tomates, sapatos e garrafas de água no comboio em que Hillary viajava, quando de sua aparição por lá depois de o aliado de muitos anos dos EUA, presidente Hosni Mubarak, ter sido derrubado.

Hillary respondia pelo Departamento de Estado dos EUA quando “mãos estrangeiras” começaram a pôr fogo nos levantes árabes, em todos os casos contra os interesses das massas árabes.

O apoio de Hillary à mal concebida e mal planejada invasão dos EUA contra o Iraque, que levou a Al-Qaeda a estabelecer-se naquele país, é assunto que ninguém esquece cá no Oriente Médio – como, tampouco, nos EUA. E a obcecada recusa da candidata a reconhecer as consequências desastrosas da intervenção militar dos EUA na Líbia aí está, como prova de que Hillary nada aprendeu dos erros no Iraque.

Goste-se ou não do homem, a risada doentia, viciosa, da Clinton ao ser informada do assassinato violento do coronel Muanmar Gaddafi da Líbia (“Nós viemos, nós vimos, ele morreu“), está impressa para sempre na memória coletiva de todos nós.

Adiante, também ficamos sabendo que a decisão do presidente dos EUA Barack Obama de intervir militarmente na Líbia foi decisão de Hillary Clinton. Nada jamais lavará o sangue líbio das mãos dessa mulher.

E, agora, a mesma Clinton quer escalar na Síria, escavando ali uma “zona segura” – que foi por onde começou a sua loucura líbia.

Se Clinton sofre de problema de baixa apreciação nos EUA, no Oriente Médio ela é absolutamente odiada – exceto pelos suspeitos de sempre: ditadores e monarcas assassinos e outros super ricos, das velhas elites que ou contribuem para manter a Clinton Foundation ou tentam desesperadamente manter as atuais confortáveis posições em região dominada pelos EUA.

E há Trump

O altamente controverso empresário bilionário Donald Trump tem sido execrado cá nessa região, por seus comentários preconceituosos contra muçulmanos, mas há um massa silenciosa de pensadores distantes da mídia no Oriente Médio – de nacionalistas árabes a intelectuais progressistas – que timidamente começam a examinar melhor o ‘caso’ Trump.

“Trump pode virar o sistema de pés para cima” – diz um importante nacionalista árabe com base no Líbano.”Não deve satisfações a ninguém, não será afogado nas armadilhas do estado profundo” – diz escritor influente.

“Quem mais até hoje falou em pôr freios na OTAN, sair de alianças prejudiciais, aproximar-se de Putin e outros, para combater contra o terrorismo (não a favor!), dar prioridade à diplomacia, não à opção militar? Clinton é que não é!” – diz, irado, um estudante universitário iraniano.

Aí está.

Diferente de Clinton, sabe-se pouco de Trump. Não tem atividade na política exterior dos EUA, exceto, claro, pela repetição incansável de que sempre se opôs à invasão dos EUA ao Iraque e de que bem que avisou que seria um “desastre.”

Mas se você está interessado em arriscar a sorte – para NÃO VOTAR em alguma Hillary Clinton –, sugiro que você leia as entrelinhas das promessas de campanha de Trump e que dê mais atenção às declarações não convencionais, fora da ‘pauta’, que às platitudesconvencionais para arregimentar eleitores, tipo “Apoio incondicionalmente o estado de Israel.”

E Trump tem suas tiradas.

Sobre a Arábia Saudita, aliada chave dos EUA, e suposto marco zero para o extremismo militante rampante na região – e país que o ex-secretário da Defesa Robert Gates diz que estava preparado para”combater os iranianos até o último norte-americano”– Trump avisa que pode pôr fim às compras de petróleo saudita, a menos que Riad ponha coturnos em solo para lutar contra o ISIS. É o mesmo que disse Gates – como se leu num telegrama diplomático de 2010 revelado por Wikileaks –, para quem “é hora de os sauditas entrarem no jogo”.

“Se a Arábia Saudita não tivesse a proteção dos norte-americanos, acho que já nem existiria” – sugere Trump, com bastante razão.

Sobre o apoio de Rússia à Síria e dos EUA aos rebeldes: “Putin não quer saber de ISIS. Os grupos rebeldes (…) nem sabemos direito quem são essa gente. Estamos treinando gente, não sabemos nem quem são (…) entregamos a eles bilhões de dólares para lutarem contra Assad (…) Se você vê a Líbia, se vê o que fizemos lá, é só desastre. Se você olha para Saddam Hussein, com Iraque, vejam o que fizemos lá, só desastre (…)”

No que pareceu crítica ao apoio que os EUA dão a militantes questionáveis na Síria e noutros locais, Trump diz: “Temos de ter ideia clara sobre esses grupos que jamais serão coisa diferente de inimigos nossos. E, acreditem em mim, ajudamos grupos que, não importa o que você faça, sempre serão inimigos nossos. Temos de ser espertos e reconhecer quem são esses grupos, quem é aquela gente, e não ajudá-los.”

Perguntado sobre se o Oriente Médio seria mais seguro, se Saddam e Gaddafi ainda estivessem por lá, e Assad fosse mais forte, Trump declara sem meias palavras: “Nem se discute. Não há comparação. Claro que seria muito mais seguro.”

E mais uma: “Gosto de Putin lá, bombardeando até o inferno aqueles ISIS. Putin tem de se livrar do ISIS porque Putin não quer saber de ISIS chegando até a Rússia.”

Para encurtar a história…

Trump é a incógnita, mas tem dito claramente algumas verdades domésticas, a eleitores que não querem deixar-se domar, num ano eleitoral nada convencional.

Clinton é quintessência da candidata do establishment, nome ‘já eleito’ de quem os eleitores querem gostar, mas que concorre à presidência num mau momento para candidatos de dentro do governo Obama.

Até aqui, Trump superou todas as expectativas, e não há motivos para que não continue assim até o dia da posse na Casa Branca. Se, depois de chegar lá, continuará a surpreender, é o que ninguém sabe. Será cooptado pelo sistema? Ou derrubará, com a arrogância que é sua marca registrada, dogmas profundamente enraizados em Washington? Ninguém sabe.

Se Trump concorrer com Clinton, o mantra da campanha dele tem de ser “Clinton: tanta experiência e nenhum sabedoria” É o único modo de Trump não ser atropelado por Hillary, que joga muito duro e que com certeza atacará incansavelmente com o argumento da inexperiência de Trump.

Quanto ao Oriente Médio, não é hora de escolher “o diabo conhecido”. Sabemos como acaba essa história, como sempre acabou: desestabilização, caos, terrorismo.

Trump com certeza é o mal menor, não importa de que lado se analise o caso. Porque simplesmente nada e ninguém poderia ser pior que Hillary.

Mas há um solitário aspecto pelo qual uma presidência Clinton pode ter um lado bom: se Hillary Clinton for a próxima presidenta dos EUA, com certeza assistiremos a uma deriva decisiva, do mundo, na direção de nova ordem multipolar.

A batalha pela Síria tornou-se linha vermelha intransponível para russos, chineses e iranianos. Todos esses cuidarão de estender braços protetores em torno de estados chaves, e, ao seu tempo, forjarão relações mais íntimas entre eles mesmos – algumas delas, com dimensões militares – e com número muito maior de “potências médias” que ameaçarão, de cima a baixo, de uma vez por todas, as ambições hegemonistas dos EUA.

Imaginem agora as reações de Rússia, China, Irã, Brasil, África do Sul e outros estados vítimas de campanhas de desestabilização patrocinadas pelos EUA, se uma belicista tipo Clinton entrincheira-se na Casa Branca [Para tentar bloquear preventivamente qualquer reação desse tipo a partir do Brasil, o governo legítimo do Brasil está hoje sob tentativa de golpe orientado a partir dos EUA, para pôr na presidência um governo usurpador, constituído de corruptos e traidores, mas que teria a importante utilidade de obedecer asininamente a Washington (NTs)].

Deslizaremos para uma nova ordem mundial, mais depressa do que você soletra ‘Goldman Sachs’ [O quê, como já se sabe, se se lê mais a história que a mídia-empresa, acontecerá com ou sem golpe no Brasil (NTs)].

http://www.orientemidia.org/eleicoes-presidenciais-nos-eua-um-olhar-do-oriente-medio/

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