Alucinações circulatórias da moeda e do capital fechando o ciclo

José Martins – Marx lembrava com satisfação, na Introdução à Crítica da Economia Política, a inspiradíssima frase de lorde Gladstone – o mais poderoso político e primeiro-ministro inglês da imperialista era vitoriana: “… nem mesmo o amor levou tanta gente à loucura como as cogitações sobre a essência da moeda…”

Acontece que, na última semana, mais de cento e cinquenta anos depois da morte do poderoso lorde britânico, sua frase reapareceu com cintilante atualidade nas cogitações dos economistas do sistema sobre estranhos movimentos ocorridos na variação dos “preços do dinheiro” (juros) na maior economia do planeta.

O foco do mercado saiu momentaneamente da política monetária e da popular taxa básica de juros do Federal Reserve Bank (Fed, banco central dos EUA). Ou mesmo das oscilações das principais moedas globais, do preço do ouro, etc.

Nesta semana aconteceram coisas mais preocupantes para a ordem e o progresso capitalista em todo o mundo. De repente, todas as atenções dos homens do mercado deslocaram-se para as curvas de juros (yelds) dos títulos de dívida dos governos nas principais economias do mundo; dos EUA, principalmente.

Da moeda para a quase-moeda. Ora, trata-se aqui justamente de um território da acumulação do capital como um todo (produção e circulação) em que a essência da moeda está mais longe do entendimento dos capitalistas e seus limitados economistas que em todas suas outras formas de aparecimento.

Muito mais distante ainda do entendimento das pessoas comuns em todo o mundo, que não têm a menor ideia nem do que sejam essas quase-moedas dos governos e outras misteriosas formas do valor.

Mesmo assim assistiram atônitos, no decorrer desta nesta semana, nos noticiários de televisão do horário nobre, os apresentadores informarem em tom grave de voz e testas franzidas de preocupação que estava ocorrendo uma inversão na curva de rendimentos dos títulos de 10 anos e de 2 anos do tesouro dos EUA !!!

Infelizmente, para o grande público da cidade global os movimentos materiais envelopados em categorias da economia política são muito mais difíceis de serem didaticamente esclarecidos que as encenações da política e de outras formas religiosas da civilização.

De todo modo, o mundo não para. Às vezes até acelera. Como nesta semana, quando aconteceu uma sucessão de fatos incríveis no processo de circulação do dinheiro-capital para a definição da data e da profundidade da explosão da próxima crise de superprodução do capital global.

Observemos inicialmente a superficialidade dos fenômenos. Por volta das 14 horas de quinta feira (15) o rendimento da nota de 10 anos do Tesouro, que se move inversamente ao seu preço de venda, atingiu uma baixa de três anos na marca de 1,467%, abaixo do rendimento dos títulos a 2 anos de 1,475%, seu nível mais baixo desde outubro de 2017.

Ocorria então aquela incomum e perigosa inversão da curva de rendimentos de um título de longo prazo (10 anos) e de um de curto prazo ( 2 anos). Isto representa no fechado mundo da economia um paradoxo no fluxo natural do capital produtor de juros e, claro, uma grande preocupação no mercado.

Não é nem um pouco natural que os capitalistas passem a ser mais bem remunerados por emprestar ao governo dos EUA pelo prazo de 2 anos do que pelo prazo de 10 anos.

Essa inversão da curva de rendimentos não foi um fato isolado. Ocorreu simultaneamente a outra sinalização também muito importante para a definição do próximo choque periódico e crise do capital.

Além das peripécias dos títulos de 10 e de 2 anos, pela primeira vez na história os títulos de 30 anos do Tesouro dos EUA estavam pagando um rendimento abaixo de 2,0%, cravando 1,961%, após cair para até 1,941%. Veja no gráfico abaixo a evolução de longo prazo deste rendimento dos títulos de 30 anos.

Em 1989, os títulos de 30 anos do tesouro dos EUA pagava 10%. Na semana passada estava pagando menos de 2%. Essa queda histórica nos rendimentos dos títulos de longo prazo dos EUA é observada com muita preocupação pelos capitalistas. Por duas razões principais.

A primeira, porque a inversão dessa parte-chave da curva de juros tem sido historicamente um indicador que se repetiu e que antecipou a aproximação de todos (absolutamente todos) os choques cíclicos do pós- guerra, chamados de “recessão” pelos economistas vulgares.

A segunda preocupação é com o fato de que crescentes pressões cíclicas sobre o processo de produção e acumulação mundial levaram os capitalistas a tanto medo do seu futuro, no curto-prazo, que o estoque mundial dos títulos dos governos negociados a taxas negativas de rendimentos elevou-se exponencialmente em todo o mundo para um novo recorde dos últimos setenta anos.

O normal do mercado é que os capitalistas emprestem seu dinheiro ao governo com a promessa de ser pago de volta, acrescidos com juros, na data do vencimento. Juros positivos, portanto. Mas agora, à medida que os capitalistas se tornam cada vez mais desesperadas por um “porto seguro” para sua propriedade privada ameaçada pela próxima crise são os governos de grandes economias que são remunerados ao tomar dinheiro emprestado. Com juros negativos!

Essa história de juros negativos é muito menos normal do que aquela inversão da curva de rendimentos entre títulos de longo e de curto prazo observada acima.

Mesmo alguns bancos privados europeus já oferecem empréstimos aos seus fregueses com juros negativos. Você toma emprestado 10 euros agora e paga 9 euros daqui 10 anos. Dá para acreditar? Mesmo assim, pouca gente aparece para aproveitar essa “generosidade”.

Assim, se aprofunda velozmente e se amplia neste final de ciclo econômico a clássica armadilha da liquidez , na qual as taxas de juros cada vez mais baixas tornam-se, ao mesmo tempo, as maiores do mundo. O sistema de crédito desaparece.

Esse bizarro fenômeno ocorre na medida em que as pressões deflacionárias nos preços e lucros mundiais das mercadorias-capital dão o sinal de alerta aos capitalistas sobre uma nova e iminente interrupção da acumulação em todas as esferas da circulação capitalista.

A armadilha da liquidez, o desaparecimento do crédito e, finalmente, o derretimento da moeda, é resultado de um processo deflacionário de preços que se alastra por todo o mercado mundial.

Cerca de US$ 15 trilhões de títulos do governo em todo o mundo, ou 25% do mercado, já são negociados a taxas negativas, segundo o Deutsche Bank. Este número quase triplicou desde outubro do ano passado.

Acontece, neste exato momento, um processo inédito de armadilha da liquidez e deflação global no período pós-guerra. Nota-se no gráfico acima o importante fato que esse processo de entrada do capital produtor de juros no território dos rendimentos negativos inicia-se mundialmente no mês de agosto de 2014. Timidamente, até o início de 2016, acelerando-se nos anos seguintes. Finalmente, como já observado acima, o volume deste entesouramento é triplicado desde outubro do ano passado.

Deve ser devidamente registrado o seguinte: o fato de este fenômeno ser inédito nos últimos setenta e cinco anos ter ocorrido apenas recentemente, a partir de 2014, é muito importante para a análise da forma e magnitude específicas da iminente crise global.

Os bancos centrais globais têm afrouxado sua política monetária em níveis sem precedentes nos últimos setenta anos, com a dívida pública se expandindo descontroladamente na Europa e no Japão com taxas de juros zero ou negativas. Uma superprodução de moeda e de crédito para segurar os preços de produção das mercadorias-capital.

O montante da dívida global com rendimentos negativos continua a crescer e, à medida que os bancos centrais tentam reagir e se proteger da grande crise global que se aproxima eles contribuem para um declínio ainda maior nos rendimentos dos títulos.

Na Alemanha e sua poderosa economia industrial os títulos do governo de 30 anos foram negativos pela primeira vez na semana passada.

Agora, com a mais do que provável entrada dos títulos públicos estadunidenses nesta contabilidade da massa de títulos negociados com taxas de juros negativas, pode-se imaginar que essa bastarda massa de capital passaria a representar instantaneamente não mais apenas 25%, mas de 50 a 70% do total deste títulos públicos em todo o mundo.

Além desta gigantesca e inédita migração de massas de capital com taxas de juros negativas para os títulos públicos de longo prazo das principais economias vislumbra-se também a extensão e a violência da destruição de capital que deve ocorrer no período de crise que se aproxima. Uma massa de capital de aproximadamente US$ 30 trilhões a ponto de ser instantaneamente incinerada.

Em outras palavras, é bastante elevada a probabilidade da próxima reversão do período atual de expansão do ciclo para o próximo período de crise desembocar diretamente em uma crise geral ou catastrófica, como descrita por Rosa de Luxemburgo.

Uma crise catastrófica da economia mundial também seria inédita no período pós guerra dos últimos 75 anos. O mundo viraria de ponta-cabeça. Tudo se tornaria possível.

No mês passado, o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi botou mais lenha na fogueira. Sinalizou, do mesmo modo que o Fed vem sinalizando nas duas últimas semanas, que o BCE reduzirá ainda mais as taxas de juros antes do final do ano, já que “um grau significativo de estímulo monetário continua sendo necessário para garantir condições financeiras favoráveis ​​e apoiar a expansão da zona do euro”.

Ao tentar salvar as condições financeiras do sistema ameaçadas pela derrocada econômica na produção de valor e de mais-valia os capitalistas destroem antes o seu sistema monetário e de crédito público.

É por isso que todas as crises periódicas de superprodução de capital são abertas por uma crise financeira, antes mesmo de alcançar a esfera produtiva e comercial. Este roteiro da realização da crise mistifica ainda mais as suas causas. Para os economistas em geral a crise econômica será sempre apenas mais uma crise meramente financeira ou de crédito.

Na maneira mais sofisticada desta mistificação, no caso dos marxistas keynesianos, será sempre uma crise de sobre-acumulação, não de superprodução de capital. Tudo é um problema circulatório. Relembrando mais uma vez Rosa de Luxemburgo, estes “epígonos de Marx” estacionaram no livro 2 de O Capital (o Processo de Circulação do Capital) e esqueceram de ler a sequência no Livro 3 (Processo de Conjunto da Produção e Circulação do Capital).

Na raiz destas dificuldades teóricas (com danosas consequências práticas) encontra-se a confusão que todos esses economistas vulgares fazem da relação orgânica entre dinheiro-capital, de um lado, e, de outro lado, capital-dinheiro. O primeiro é capital produtor de juro, o segundo é capital produtor de lucro. Daí todos esses revisionismos teóricos dos marxistas do século 21 como “financeirização do capital” e outras asneiras.

Acontece que na dinâmica econômica, estritamente delimitada pelo ciclo periódico de superprodução e crise do capital, a lei da gravidade (ou do valor) da economia sempre se impõe sobre a desmesurada superprodução de juros ocorrida no período de expansão. Como deflação dos preços mundiais e abrupta redução da autonomia relativa da esfera financeira, além da sagrada autonomia igualmente relativa da política econômica dos governos.

Em um ciclo econômico completo, a grande massa da superprodução de capital criada no período expansivo consiste deste dinheiro-capital ou (capital-fictício) que, nas fases finais de encerramento do ciclo, como agora, perde progressivamente sua autonomia relativa frente à produção de valor e de mais-valia e se desvaloriza abruptamente.

Antecipa-se assim, na forma de uma crise de crédito e de uma gigantesca queima de capital, que ora se avizinha, a paralização da produção e a depressão econômica propriamente dita.

A maior parte deste entesouramento de mais de US$ 15 trilhões detectado pelo Deutsche Bank é de dinheiro-capital, capital produtor de juros, que migra em quase sua totalidade de uma infinidade de ativos financeiros do mercado de capitais, sistema bancário, etc., para o “porto seguro” dos títulos públicos.

Neste mês de agosto de 2019, este corrosivo processo de superprodução do conjunto do capital se aproxima de seu desenlace na medida exata em que os rendimentos ainda positivos dos títulos públicos dos EUA também se aproximam, como vimos acima, das taxas negativas que já toma conta das principais economias mundiais.

Anuncia-se inédita e planetária queima de capital. É exatamente nesta tão esperada revelação que reside a grande importância dos fatos ocorridos nesta semana com os enlouquecedores e essenciais movimentos da moeda na maior potência econômica do planeta e no resto do mundo.

Alucinações circulatórias da moeda e do capital fechando o ciclo

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