Política

“A piada está no poder”

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Sergio Lirio — O ator e humorista não vê graça no atual momento político e social: “O zeitgeist é da direita. Isso me aflige”

“O zeitgeist é da direita. É hora de sermos pessimistas. O pior vem a cavalo”

Spoiller: quem espera rir de Gregório Duvivier, melhor esquecer esta entrevista e assistir a um vídeo do “Porta dos Fundos”. O ator e humorista não anda nada disposto a fazer piada com a realidade política e social. “O zeitgeist é da direita. Isso me aflige”, afirma a seguir.

CartaCapital: Donald Trump nos Estados Unidos, Marcelo Crivella no Rio de Janeiro. Está difícil para o humor competir com a política?

Gregório Duvivier: É muito difícil fazer piada quando a realidade já é cômica. A impressão é de que os políticos fazem humor no nosso lugar. E de péssima qualidade. É bem mais desafiador fazer piada de algo que por si só é absurdo. Serão tempos difíceis. A piada está no poder.

Temos caricaturas como Trump e Crivella, ou o João Doria em São Paulo. Não se trata de bufões, populares e engraçados. São caricaturas malfeitas. Se alguém se dispusesse a interpretar um personagem como o Trump, não teria credibilidade. É ruim, canastrão. Isso me aflige.

CC: Há alguma relação entre a vitória de Donald Trump e as eleições municipais no Brasil?

GD: No mundo, o zeitgeist é da direita. Às vezes atribuímos a derrota do Marcelo Freixo, por exemplo, só ao antipetismo, mas se trata de algo maior. É uma época  planetária de reacionarismo. E ele existe porque antes aconteceu algum tipo de revolução.

No caso do Brasil, nem percebemos o que se passou nos últimos 20 anos. Tivemos um processo muito revolucionário na pirâmide social. Quem está aqui reage a essas mudanças. Trump é uma reação ao governo do Barack Obama. Não se faz justiça social impunemente.

CC: A eleição de Trump poderia, como vaticinam alguns intelectuais, ligar o alerta contra o populismo de direita?

GD: É o momento de sermos pessimistas, não para wishful thinking. É hora de perceber onde nos metemos. E olhar pra 2018, no nosso caso, com a perspectiva de uma catástrofe real, o Jair Bolsonaro. O pior vem a cavalo.

CC: Dá para entender os “paneleiros” pró-impeachment no Brasil que se dizem chocados com a eleição do Trump nos EUA?

GD: A elite brasileira é muito engraçada. Percebe o absurdo do Trump, mas não o do Crivella. A mídia aqui, às vezes, até parece de esquerda quando trata de assuntos internacionais. Falam de taxação de grandes fortunas, mais impostos para os ricos… mas nos Estados Unidos. Internamente, defendem totalmente o oposto. Seria engraçado se não fosse trágico.

Antipetista

CC: Algum fato de 2016 te deixou animado, te levou a sorrir?

GD: O movimento secundarista. Eles estão na proa dos movimentos de resistência. Daqui a dois anos serão todos eleitores. É bonito. Mas a esquerda precisa parar de falar só com os seus. Precisa entender o outro lado, o que se passa na cabeça do homem branco, heterossexual e opressor.

Há uma grave crise de representação. A esquerda também abandonou os mais pobres, aqueles oprimidos pelo sistema e que não se sentem contemplados pelas propostas progressistas. O pior é fingir que se é de centro. Assim se perde uma eleição. A realpolitik mostrou sua falência nos últimos anos.

CC: O Freixo não conseguiu alcançar a periferia.

GD: Tudo o que disse ficou claro na campanha do Freixo. Certamente, a administração dele iria beneficiar os pobres. Apresentou mil propostas: IPTU progressivo, estatização dos transportes… Os maiores beneficiados por essas políticas não sabiam, porém, o nome do Freixo.

CC: O humor está mais reacionário?

GD: Sim. Tudo, na verdade, ficou mais careta. É uma pena. Vivemos recentemente tempos progressistas, e olha que no Brasil nem entrou em pauta a liberação da maconha, a descriminalização do aborto, temas discutidos em outros países.

CC: Os Estados Unidos elegeram Trump, mas vários estados liberaram o uso recreativo da maconha…

GD: A reação brota justamente contra esse tipo de avanço. Desde a crise financeira de 2008, o mundo vive uma insatisfação crônica contra o sistema, o mercado. Ganha quem tem conseguido canalizá-la.

CC: Uma insatisfação com o establishment.

GD: Exatamente. O curioso é que a esquerda, em tese, deveria conquistar com mais facilidade esse eleitor. Mas quem saiu na frente foi a direita, que sequestrou os significantes e o significado da revolta. Temos os revoltados online. Como a revolta pode ser de direita?

CC: A arte costuma florescer em momentos difíceis. Pode acontecer de novo?

GD: É preciso direcionar tudo isso para algo positivo. Os artistas sempre souberam se virar, sem Estado e contra ele. Talvez esse clima produza uma agitação no humor e nas artes.

CC: Quais suas expectativas em relação ao País?

GD: O golpe só está no começo. Derrubar a presidenta eleita que não cometeu crime de responsabilidade foi o primeiro passo. O pior vem pela frente. O congelamento de gastos com saúde e educação, as reformas trabalhista e da Previdência. Mas o Brasil só vai acordar quando as medidas começarem a afetar o dia a dia.

CC: Os escândalos do governo Temer não acordaram as panelas…

GD: A indignação com a corrupção acabou. Não sei onde foram parar todas aquelas camisas verde-amarelas.

Duvivier

CC: Se o Lula fosse preso, o que aconteceria?

GD: Seria a melhor coisa para ele, dado o absurdo das acusações, a partir das informações disponíveis. Achei um erro a tentativa de sua nomeação para a Casa Civil. Pareceu que ele queria fugir do Sergio Moro, escapar das garras da Justiça. E ele não tem motivo para fugir. Se fosse preso, o efeito seria incendiário.

CC: Tem o efeito político.

GD: A mídia ainda não percebeu que o antipetismo é um monstro alimentado por ela e está fora de controle. Sabe aquele bicho esquisito no quintal? Você dá comida, cuida e, de repente, ele tomou conta da casa. Os meios de comunicação engordaram esse monstro, acharam graça enquanto ele era só antipetista. O Bolsonaro, o Crivella se alimentam da aversão ao PT. O antipetismo tomou as rédeas.

http://www.cartacapital.com.br/revista/933/gregorio-duvivier-a-piada-esta-no-poder

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