A informal rede de creches para crianças que vivem na periferia

Ian Walker – Lindassi Pereira passa longos dias como a principal atuante da rede informal de creches em São Paulo. Como “mãe crecheira”, ela cuida de crianças e bebês que não conseguiram vagas em creches do deficiente sistema público.

“É como se eu fosse mãe deles mesmo”, diz Pereira, uma mulher de 44 anos natural de Embu das Artes, município da Região Metropolitana da capital paulista. “Eu auxilio no desenvolvimento da criança de todas as formas com base no que eles precisam.”

Pereira tem formação em educação infantil, mas não conseguiu um emprego formal ainda. Então, todos os dias ela cuida de cinco ou seis crianças, preparando refeições, trocando roupas, brincando, lendo e os colocando para dormir.

Ela não é reconhecida como membro da creche da comunidade, já que seu trabalho não possui licença ou regulação. O governo brasileiro ignora a prática. Pereira pode trabalhar, mas não recebe qualquer assistência empregatícia ou supervisão.

Não se sabe quantas mães de comunidade como Pereira existem no país, mas elas preenchem uma lacuna considerável deixada pela falta de creches públicas.

Desigualdade na educação

No Brasil, o acesso à educação é quase universal para crianças com idade entre 4 e 17 anos. Mas a situação muda quando se trata de bebês e crianças mais novas. Apenas um terço delas ficam em creches, bem menos do que o Plano Nacional de Educação planejava atingir até 2024 (uma taxa de 50%).

A creche pública é gratuita, mas as listas de espera são longas e a provisão limitada: estima-se que 1,8 milhões de crianças e bebês são excluídos da creche por falta de lugar ou por demandar muito tempo de transporte.

Isso é um problema em dois níveis diferentes. Primeiro, impacta na possibilidade de os pais trabalharem. Mas há também cada vez mais pesquisas indicando a importância de uma boa educação primária no desenvolvimento, aprendizado e bem-estar do indivíduo.

No Brasil, são as crianças mais pobres as que não tem acesso a isso: 33,9% das crianças mais pobres são afetadas pela falta de vagas nas creches públicas, comparado a 6,9% das crianças ricas.

“A desigualdade escolar no Brasil começa no berço e tende a ser para a vida toda”, diz Daniel Cara, coordenador-geral da Campanha Nacional para o Direito à educação. “As famílias mais pobres têm menos acesso às creches e, se têm, é de qualidade pior.”

Thaiane Pereira, coordenadora de projetos da ONG Todos Pela Educação diz que parte do problema se deve a um mau planejamento. “O financiamento para creches é diverso, pode ser construído por fundos federais, municipais e até estaduais, então não é uma questão de financiamento, mas de falta de planejamento e de oferecer creche para os que mais precisam”, diz ela.

Já Claudia Costin, diretora do Centro para Excelência nas Políticas de Educação da Fundação Getúlio Vargas, aponta que as exigências legais encarecem a criação de creches. “Todos que trabalham com bebês e crianças pequenas, até mesmo auxiliares, precisam ser professores certificados”, diz. “Isso torna o modelo muito caro e sem escalas, especialmente para áreas rurais e municípios mais pobres”.

Um sistema de cuidado sem regulação

As creches privadas são uma solução em áreas sem creches públicas. Mas a maioria está fora do alcance para famílias com dificuldade de sustento, custando entre $ 700 e R$ 3 mil por mês, um valor alto considerando que o salário mínimo é de R$ 998. Creches também não acomodam os horários longos e irregulares dos trabalhadores que ganham menos.

Sem creches, os pais são forçados a não trabalhar até que seus filhos estejam prontos para a escola. Só que para muitas famílias, especialmente mães solteiras, abrir mão da renda mensal não é uma opção. Como resultado, as mães comunitárias viraram a corda salva-vidas. Elas geralmente cobram entre R$ 100 e R$ 350 por criança ao mês.

“No meu subúrbio, há só duas creches mas há muitas e muitas crianças”, diz Pereira. “Se não há alguém na família para tomar conta deles, então as creches não ajudam porque são poucas e a fila de espera é muito, muito grande”.

Algumas mães crecheiras cuidam de 10 a 15 crianças em suas próprias casas

Luana Andrade deixa sua filha de 3 anos com Pereira porque ela trabalha em horários que não batem com a creche. “A creche seria ótima se tivesse horários flexíveis para buscarmos, mas infelizmente não é assim”, diz ela. “Nós precisamos nos adaptar. Pereira é uma pessoa ótima, eu só posso agradecer a ela e sua família por me ajudar.”

Pereira diz que os pais vêm até elas pelo boca a boca e porque ela se orgulha de cuidar bem das crianças que são a ela confiadas. “Como todos os outros profissionais, eu acredito que você tem aqueles mais relaxados, alguns que só se importam com o dinheiro, mas eu tenho amor às crianças”, diz ela.

Daniel dos Santos, economista da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto que se especializa em políticas para crianças, diz que criar boas creches depende de fatores múltiplos, como turmas menores, quartos com brinquedos disponíveis, espaços para diferentes atividades e professores que saibam como dividir bem o tempo das crianças entre estímulo, brincadeira e descanso.

“As creches devem ser lugares em que os profissionais são treinados em tudo, desde preparação de comida até o desenvolvimento educacional”, diz Thaiane Pereira. “A creche não pode nem deve ser entendida como um lugar para ‘deixar’ a criança enquanto os adultos da família trabalham.”

E, em alguns casos, as mães comunitárias não alcançam o padrão de profissionais treinados, segundo especialistas. O cuidado irregular de crianças, quando mal feito, consiste em grupos grandes de crianças assistindo à televisão ou olhando o teto sem estímulo positivo, diz Pereira.

Hora de agir

Na Colômbia, o governo lidou com o problema das listas de espera das creches criando um sistema de mães comunitárias treinadas e certificadas. No Brasil, esse sistema ainda não surgiu.

O presidente Jair Bolsonaro propôs aumentar o orçamento para a educação primária às custas da educação superior dizendo que “quanto antes nossas crianças aprenderem a gostar de estudar, maior será seu sucesso”. Seu partido propôs uma política de distribuição de vales em que o governo repassaria dinheiro às famílias pobres para que paguem creches privadas. Não houve menção sobre trabalhar com mães crecheiras.

O presidente Jair Bolsonaro propôs soluções para a desigualdade de creches sem incluir as mães comunitárias na proposta

Ainda assim, há sinais de mudança. A empreendedora Elisa Mansur, de 27 anos, definiu como sua missão lidar com esses problemas. Sua startup Mopi, uma rede de creches comunitárias, foi a vencedora da competição de projetos da Conferência da Juventude do Banco Mundial.

“Eu vi que havia esse sistema informal onde as mulheres cobram para cuidar de uma, duas, três, quatro, 10 ou 15 crianças em suas próprias casas”, diz ela. “Então eu disse que essas mulheres estão fazendo uma diferença, mas o governo não olha para elas e para o trabalho que estão fazendo e não dá a elas qualquer tipo de apoio, elas continuam completamente ignoradas às margens da sociedade.”

A Mopi, então, profissionaliza o trabalho das mães crecheiras, que Mansur chama de “guerreiras”. Há um processo de seleção, um treinamento de quatro dias, um modelo de atividades de ensino, espaço para organização, segurança, rotina diária, saúde e higiene e um sistema de avaliação com base no parecer das famílias.

Pereira apoia a iniciativa, dizendo que qualquer ajuda no setor é bem-vinda. “Só de saber que há pessoas fazendo algo para ajudar já me deixa motivada”, diz ela.

A maioria dos especialistas concordam que as famílias pobres precisam de um acesso melhor à creche de qualidade. “Nós precisamos formalizar o sistema de mães comunitárias”, diz Claudia Costin, que também é ex-diretora para educação do Banco Mundial. “Eu acredito que ajudaria ao mesmo tempo aumentar as vagas nas creches, incluindo a contratação de professoras extras, e priorizar a população abaixo da linha de pobreza na loteria que a maioria das creches públicas têm para dar vagas às famílias”.

Pereira também diz que é preciso fazer mais pesquisas para que as creches possam ser alocadas com base nas áreas com maior necessidade, enquanto Cara diz que as prefeituras precisam construir mais creches nas periferias das grandes cidades e envolver mais as comunidades.

Quanto a Lindassi Pereira, ela gostaria de um maior reconhecimento do papel que tem em criar a próxima geração de brasileiros – e ela sabe que isso sempre vai dar muito trabalho.

https://educacao.uol.com.br/noticias/bbc/2019/06/07/rede-creches-criancas-periferia.htm

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