O problema principal não é o Whatsapp, mas o despreparo estratégico

Jeferson Miola – Sem uma estratégia para enfrentar a ciberguerra e sem um plano de segurança cibernética, será impossível deter o avanço da extrema-direita e a ameaça que representa à democracia e ao Estado de Direito.

A urgência em se encontrar respostas rápidas à influência poderosa que a manipulação do WhatsApp [WA] teve na eleição de Bolsonaro tem favorecido raciocínios apressados, alguns tendentes à simplificação do problema.

Uma tendência de análise, em certos aspectos reducionista, chega inclusive a atribuir um peso absoluto do WA na determinação do fenômeno.

É consenso que o WA foi um recurso poderoso e, de certa maneira, surpreendente, empregado pela campanha de extrema-direita que elegeu o ex-capitão à Presidência e governadores e parlamentares que dificilmente seriam eleitos num contexto de lisura e legalidade.

A cumplicidade do TSE com a fraude

Os juízes do TSE, que seguem o script para garantir a continuidade do golpe e do regime de exceção, condescenderam com a fraude gigantesca da campanha do Bolsonaro que manipulou consciências, fabricou mentiras, disseminou o antipetismo e criou alta rejeição a Haddad.

Por outro lado, empresários corruptos financiaram a guerra cibernética [ler aqui], a produção de conteúdos e o impulsionamento ilegal do WA com milhões de reais de caixa 2 – crimes também ignorados pelos juízes de um TSE bolsonarizado.

Funcionamento do WA

É preciso entender o funcionamento do WA para poder entender a lógica complexa em que se insere o uso desvirtuado desta ferramenta tecnológica tão presente no cotidiano.

O WA é um aplicativo que permite a comunicação e o intercâmbio de imagens, vídeos, e documentos entre usuários que tenham compartilhado seus números de telefone [A campanha do Bolsonaro obteve listas telefônicas de modo duvidoso, para não dizer ilegal].

Diferente das mídias sociais [Facebook, Instagram, Twitter, Youtube, Google, Yahoo etc], que usam protocolos de superfície da internet, ou seja, são abertos e seus conteúdos podem ser vistos pelo conjunto de internautas que interagem entre si [likes etc], o WA é privado, ou seja, comunica ponta-a-ponta apenas usuários interligados. A interatividade do WA é baixa.

As mensagens do WA são criptografadas e, portanto, insuscetíveis ao processamento algorítmico que pode ser feito nas mídias sociais para segregar conteúdos para públicos específicos. Foi o caso, por exemplo, do Facebook, cujos usuários tiveram dados pessoais roubados [escândalo Cambridge Analytica-Steve Bannon] e suas preferências de consumo, de sexo, religião, política e cultura mapeadas. O passo seguinte foi o bombardeio deles com mensagens segmentadas segundo suas preferências individuais: anti-Hilary, racistas etc.

Os grupos de conversa do WA podem ter no máximo até 256 pessoas, o que é notavelmente modesto em comparação com o Telegram, aplicativo equivalente que pode ter até 100.000 membros. Não por outro motivo, desde o segundo turno da eleição o bolsonarismo passou a organizar grupos também no Telegram.

Importa ainda mencionar que praticamente 100% do conteúdo traficado no WA tem protocolo de superfície, ou seja, não é necessariamente conteúdo original, mas conteúdo publicado no Facebook, Youtube, internet que é replicado através do WA.

Mais além do poder do WA

Estima-se que Bolsonaro administra ao redor de 2.000 grupos de WA, o que representa cerca de 500 mil contatos. Esta estrutura, embora bastante relevante, não seria suficiente, sozinha, para alavancar a votação de 57,7 milhões votos que ele obteve.

Mas, de outro lado, os quase 18 milhões de seguidores do Bolsonaro nas mídias sociais – afora os outros milhões de seguidores dos filhos dele, de charlatões religiosos, de empresários fascistas e de milicianos digitais – esses sim tiveram força para alavancar tal votação: 1 seguidor nas redes a cada 3 votos na urna.

Ao analisar o crescimento da extrema-direita, pesquisadores europeus concluem que estes políticos, na maioria medíocres e párias políticos, por necessidade de sobrevivência política e cultural foram os primeiros a explorar o subterrâneo das mídias sociais. Porque na imprensa convencional e na arena pública, suas idéias e preconceitos xenofóbicos, racistas, misóginos, lgbtfóbicos tendem, naturalmente, a ser repelidas.

Os milhões de seguidores da rede devotam enorme fidelidade ao Bolsonaro e a suas milícias digitais. Esse é o subproduto de pelo menos 4 anos de um trabalho permanente de doutrinação ideológica com mentiras [kit gay etc] e, também, da associação com o charlatanismo religioso e com o fanatismo penal de procuradores e juízes que promovem a cruzada anti-corrupção.

Os momentos decisivos para a consolidação do bolsonarismo na rede foram durante o caos para derrubar Dilma, na agitação do impeachment e na greve dos caminhoneiros.

Como quase 100% do conteúdo que circula no WA tem origem nas mídias sociais, significa que o WA cumpre menos a função de transmitir conteúdos próprios e mais a função de transmitir e divulgar conteúdos das mídias sociais, onde Bolsonaro tem quase 20 milhões de seguidores [Donald Trump tem quase 60 milhões de seguidores].

Deve-se ter em mente que além de dominar o uso de aplicativos e dispositivos de internet e telemática, o bolsonarismo promove uma convergência semiótica da estratégia cibernética.

Por fim, capítulo à parte e que merece dedicado estudo diz respeito ao padrão comunicacional introduzido pela extrema-direita. Nele, a comunicação argumentativa e racional dá lugar a uma estratégia de comunicação instrumental, limitada, que combina recursos rudimentares [memes, áudios e vídeos breves] com linguagem simplificada, binária, primitiva. O horror é que existem enormes contingentes de “receptores” que se identificam com conteúdos bárbaros.

Atualização estratégica

O bolsonarismo colocou o Brasil no radar da guerra cibernética. Como analisado em Descompasso estratégico [ler aqui], a campanha do Bolsonaro “contou, inclusive, com o aporte de estrategistas, planejadores, conhecimentos e tecnologias militares de geração avançada.

É fundamental realizar-se um investimento estratégico para suplantar o descompasso no enfrentamento à sofisticada guerra híbrida que a extrema-direita empreende no Brasil e em várias partes do mundo com técnicas semelhantes.

Esta guerra mescla recursos da ciberguerra, inteligência artificial, pregação religiosa que flerta com a teocracia, disseminação de notícias falsas, promessas de purificação da sociedade com a eliminação de “inimigos” [estrangeiros, imigrantes, árabes, africanos, pobres, negros, petistas etc], desmoralização do sistema, do Estado de Direito e da política”.

Sem uma estratégia para enfrentar a ciberguerra e sem um plano de segurança cibernética, será impossível deter o avanço da extrema-direita e a ameaça que representa à democracia e ao Estado de Direito.

https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Midia-e-Redes-Sociais/O-problema-principal-nao-e-o-Whatsapp-mas-o-despreparo-estrategico/12/42602

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