Noam Chomsky: membros de caravanas de migrantes estão fugindo da miséria e dos horrores criados pelos EUA

NERMEEN SHAIKH – O conselheiro de segurança nacional de Trump, John Bolton deu um grande discurso em Miami sobre as políticas dos EUA na América Latina. Bolton descreveu a Venezuela, Cuba e Nicarágua como uma “tróica de tirania”, dizendo, “esse triângulo do terror que vai desde Havana até Caracas e Manágua é a causa de imensos sofrimentos humanos, de enormes instabilidades regionais e a gêneses de um antro sórdido de comunismo no hemisfério ocidental”. Professor Chomsky, você pode responder isso?

NOAM CHOMSKY: Bom, isso, é claro, imediatamente nos lembra do discurso “machado do mal” de George Bush lá em 2002, que foi o precursor, preparando terreno, para a invasão do Iraque, o pior crime desse século, com conseqüências horrendas para o Iraque, incitando conflitos étnicos que estão destruindo a região – uma grande atrocidade. John Bolton estava por trás disso. E sua nova tróica – eu duvido que os EUA ousarão fazer algo similar, mas é isso que nos lembra.

É interessante ver esse delírio histérico com uma outra propaganda de campanha que Bolton e seus colegas estão conduzindo em relação à caravana de pobres e miseráveis fugindo da opressão severa, violência, terror, pobreza extrema desses países: Honduras principalmente, em segundo lugar a Guatemala, e El Salvador – a Nicarágua, não – três países dominados pelos EUA, particularmente desde os anos 80, quando as guerras ao terror de Reagan devastaram particularmente El Salvador e a Guatemala, secundariamente Honduras. A Nicarágua foi atacada por Reagan, é claro, mas foi o único país que tinha um exército para defender sua população. Nos outros países, o exército eram os terroristas de estado, apoiados pelos EUA.

A fonte de migrantes mais extrema agora é Honduras. Porquê Honduras? Bom, sempre foi oprimida implacavelmente. Mas em 2009, Honduras teve um presidente moderadamente reformista, Mel Zelaya. A elite hondurenha rica e poderosa não podia tolerar isso. Aconteceu um golpe militar que o expulsou do país. Foi ferozmente condenado por todo o hemisfério, com uma notável exceção: os EUA. A administração Obama se recusou a chamar de golpe militar, porque se o tivesse feito, teria sido obrigada por lei a retirar financiamento militar do regime militar, que estava impondo um regime de terror brutal. Honduras se tornou a capital mundial do assassinato. Ocorreu uma eleição fraudulenta sob a junta militar – novamente, condenada ferozmente por todo o hemisfério, pela maioria do mundo, mas não pelos EUA. A administração Obama louvou Honduras por conduzir uma eleição, em direção à democracia e por aí vai. Agora, as pessoas estão fugindo da miséria e dos horrores pelos quais somos responsáveis.

E temos essa incrível charada, que o mundo olha com indignação:  pessoas pobres, miseráveis, famílias, mães, crianças, fugindo do terror e da repressão, pelos quais somos responsáveis, e em reação à isso, estão mandando muitas tropas para a fronteira. As tropas enviadas à fronteira são mais numerosas que as crianças em fuga. E com uma campanha de relações públicas surpreendente, estão assustando grande parte do país fazendo acreditar que estamos à beira de uma invasão de terroristas do Oriente Médio financiada por George Soros, e por aí vai.

Digo, tudo meio que lembra de algo que aconteceu 30 anos atrás. Você pode se lembrar, em 1985, Ronald Reagan botou suas botas de cowboy e foi à televisão, declarou emergência nacional, porque o exército da Nicarágua estava há dois dias de Harlingen, no Texas, prestes a nos destruir. E funcionou.

Digo, esse espetáculo é quase indescritível. Mesmo sem notar os lugares de onde vêem, os países que destruímos, a habilidade de conduzir isso repetidamente diz muito sobre a cultura popular.

Mas a tróica, assim como o “machado do mal”, são os que simplesmente não obedecem ordens dos EUA. A Colômbia, por exemplo, tem o pior histórico de direitos humanos no hemisfério há anos, mas não é parte da tróica da tirania.

Tudo isso lembra coisas muito familiares. Tem sido um elemento de longo prazo no sistema de propaganda dos EUA no lado da direita, majoritariamente, mas não somente, que data de muitos anos e que é como parte patológica da cultura política dominante e que deveria ser entendido, analisado e desmantelado.

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