Pra quem sabe ler, um pingo é letra

Wallace de Moraes – Existe uma luta permanente entre princípios autoritários (fascistas) X libertários, que nos demandam uma análise mais profunda das instituições e dos valores que os sustentam

O fascismo é uma forma de governo que foi aplicada principalmente na Itália, na Espanha e na Alemanha no século XX. Nesse último país ficou conhecido como nazismo, em função da abreviatura do nome do partido político de Hitler. As ditaduras militares na América Latina possuem muitas características comuns com aquele regime, embora a literatura não as tenha denominado dessa maneira. Aliás, poderíamos resgatar centenas de exemplos de governos autoritários ao longo da História que massacraram seus opositores e defenderam/impuseram valores conservadores. Portanto, é importante que se diga que o fascismo/nazismo foi a conjunção simultânea em determinados lugares de fatores como: militarismo (hierarquia, disciplina, autoridade e obediência), nacionalismo (xenofobia), perseguição e extermínio de minorias com forte componente racial, heterossexual e ideológico (anti-comunismo), negação da ciência e da cultura libertadora, com base em dogmas metafísicos (igrejismo), e falsas informações que reconstruíam a História com dados que lhes favoreceram (fake news e fake history). Parte ou a conjunção de duas ou mais das características supracitadas podem ser encontradas também em outros momentos históricos, como o nosso.

Depois de quase destruir a Europa na década de 1940, o fascismo foi aparentemente derrotado militar e moralmente em 1945. Dizemos aparentemente, pois muitos de seus aspectos permaneceram nas sociedades ocidentais. Eles retornam com força de tempos em tempos, denotando que existe uma luta permanente entre princípios autoritários (fascistas) X libertários, que nos demandam uma análise mais profunda das instituições e dos valores que os sustentam. Quando afirmamos isso, queremos destacar que é necessário reconhecer que muitas de suas premissas são praticadas por diferentes grupos sociais/políticos, mesmo quando dissimulam estar enterradas. Com efeito, cabe resgatar alguns de seus postulados centrais. Comecemos com o militarismo.

Do militarismo

O primeiro aspecto a se destacar é que o fascismo e o nazismo nasceram do militarismo como filhos legítimos, sendo retroalimentados por ele constantemente. É exatamente no meio castrense que se ensina a ferrenha disciplina e o respeito às hierarquias, naturalizando-as e defendendo-as a todo custo. Vejamos.

1) Os militares, sobretudo em tempos de guerra, necessitam combater os inimigos e são ensinados a não ter o menor apreço pela vida deles. Muito ao contrário, eles devem ser perseguidos, combatidos, até a morte. Por mais que do outro lado do front estejam pessoas que nunca foram vistas pelos de cá, não importa, deve-se combatê-las e liquidá-las pela pátria, pela ordem, por Deus, pela tradição. É assim que a máquina de guerra é justificada ideologicamente.

2) Também é nos meios militares que se ensina o apego, um verdadeiro amor, ao armamento. O fuzil, ensinam, “é o seu eterno companheiro, você nunca pode abandoná-lo”.

3) Uma ordem dada deve ser obedecida, nunca contestada, nunca debatida. Por isso, nos ensinos militares normalmente não há reflexão autônoma, há ordens e repetição de conteúdo. A liberdade criadora, científica e crítica não é bem-vinda.

4) Os superiores devem ser reverenciados todas as vezes que se passar por eles, seja através da continência, seja através da posição de sentido, e jamais se pode ignorá-lo ou deixá-lo passar desapercebido. Daí a saudação do “Hail Hitler”.

5) Outro aspecto típico do militarismo é o amor à pátria, ao nacionalismo, à bandeira. Esta é tão importante que se deve prestar continência para ela.

Ao mesmo tempo, os revolucionários (comunistas, socialistas, rebeldes, muitas vezes equiparados a terroristas)[1] e aqueles que fogem da heteronormatividade sempre foram os principais alvos dos meios militares, seja através da perseguição direta, vistos como inimigos ou possíveis ameaçadores da ordem e da tradição autoritária, seja através da discriminação. É importante lembrar que o meio militar é extremamente machista, sendo valorizado aquele que demostra força e virilidade masculina.

Segundo Hobsbawm (1998), 57% dos primeiros fascistas italianos eram ex-soldados. O nazismo, não por acaso, foi amplificado por um ex-cabo do exército, Adolf Hitler, combatente da Primeira Guerra Mundial, que se tornou a figura mais conhecida dessa ideologia. Não por acaso, o franquismo, na Espanha, e as ditaduras militares, na América Latina, foram dirigidos por generais. De acordo com Santander (2018), os ideais nazistas tiveram boa penetração nas Forças Armadas no continente latino-americano.

A constatação fundamental a se destacar da relação do militarismo e do fascismo foi o alistamento de quase toda a população masculina para a Guerra na Alemanha, Itália e Espanha, amplificando exponencialmente o ensino de seus valores.

Portanto, o militarismo se constitui como base dos regimes fascistas, sustentando seus outros pilares. Mas é igualmente importante destacar que mesmo nas chamadas democracias ocidentais, o militarismo nunca foi liquidado. Ele sempre está presente, constituindo-se como a essência do Estado. Os quartéis são as principais escolas e propagandistas do militarismo. Quando governantes fascistas assumem o poder, logo propõem a militarização das escolas civis, justamente por saber que o ensino militar se consubstancia na essência e autopropaganda de seu regime.

Quando militares (governantes penais) se organizam e têm como objetivo tomar a governança política, eles possuem um apoio social significante para fazer tal empreitada. Na maioria dos países, existe o serviço militar obrigatório pelo qual passam grandes contingentes, principalmente homens oriundos das classes populares. É nesse nicho que se produz o machismo mais intolerante. É por aqui que se deve compreender porque homens (militares e civis que trabalham com armas), ex-soldados (reservistas), seus familiares e amigos compõem a principal base social dos regimes militaristas.

É imprescindível entender que militares nos subúrbios populares exercem um papel de liderança, representando um caso de pessoa bem-sucedida, que expressa autoridade, sucesso e estabilidade econômica. Também representam o poder das armas que pode ajudar uma pessoa em caso de conflito com outra. Nesse sentido, ter um policial no círculo de amizade pode garantir uma certa segurança em uma sociedade extremamente autoritária e violenta. É dessa maneira que uma candidatura militarista naturalmente sai com força para a competição eleitoral. Basta alguém para organizar seus governantes e conseguir apresentar-se como defensor ferrenho de seus signos. Para isso, é necessário que ele seja autoritário, representando aquilo que seus seguidores aprendem.

É importante fazer uma última ressalva. A História nos mostra que é possível existir movimentos de militares revolucionários e, inclusive, socialistas, mas é igualmente necessário ressaltar que esta não é a regra e acontece a despeito dos valores pregados pelo militarismo, sendo muito mais expressão de algumas poucas lideranças do que a consolidação daquilo que se ensina nos quartéis.

A base social do militarismo é consideravelmente amplificada quando associada com setores religiosos. Vejamos o significado daquilo que estamos denominando por igrejismo.

Do igrejismo

O apoio religioso, dogmático, fanático constitui-se em outro pilar fundamental dos regimes fascistas/nazistas. As Igrejas estão pautadas em crenças metafísicas, baseadas em escritos de milhares de anos atrás, que dependem fundamentalmente de interpretação. Assim, é possível até fazer uma leitura de determinados trechos como revolucionários; não obstante, o comum é uma leitura que alimenta o conservadorismo, a discriminação, a hierarquia, a obediência, pois a ampla maioria dos membros do alto escalão das igrejas (governantes religiosos) estão envoltos com a manutenção da ordem e, principalmente, dos valores tradicionais. Essa suposta tradição, criada e/ou reforçada tanto na Idade Média, quanto na Época Moderna, está comprometida com uma sociedade machista, heterossexual e desigual. Nesse sentido, a disciplina, a autoridade, a hierarquia e a obediência são pilares fundamentais daquilo que chamaremos por igrejismo. Optamos por utilizar esse conceito em vez de cristianismo, pois este representaria, a nosso ver, uma vida calcada nos valores defendidos e realizados ainda em vida por Jesus Cristo, cujas ideias de amor ao próximo e de repartir o pão seriam seus dois principais pilares. No igrejismo, realizado pela leitura de padres e pastores,[2]tem predominado o preconceito, a discriminação, o ódio ao diferente, a intolerância. Também chamamos esse fenômeno por governança social religiosa.

O igrejismo, para solidificar sua perspectiva de poder, com base em uma visão própria de mundo, necessariamente, precisa negar a ciência, a razão, e apresentar uma interpretação da vida de Cristo com base em meias-verdades e falsas interpretações, que coadunem com seus objetivos políticos. Esse caminho cumpriu um papel fundamental na consolidação de uma perspectiva fascista, sendo tratada como arma de guerra, uma guerra religiosa, que normalmente também é política e econômica.

Em diversos momentos históricos, as igrejas ocidentais se opuseram com veemência contra toda perspectiva de comunismo, socialismo, anarquismo, enfim, de igualdade social. Essas oposições se justificavam por vários motivos, dentre eles porque essas escolas de pensamento contestavam valores tradicionais, hierarquias, autoridades, desigualdades e até as propriedades e a riqueza das aglomerações religiosas, abrindo margem para a desautorização do monopólio do saber dos governantes da religião. Para combater o avanço das ideias contestatórias do establishment, as igrejas apoiaram regimes autoritários para que esmagassem, sem qualquer piedade, movimentos insurgentes/insubmissos. Assim, em grande maioria, elas apoiaram os regimes fascistas/nazistas e diversas outras ditaduras militares-plutocráticas desavergonhadas pelo mundo, justamente porque mais abertamente combatiam o “perigo vermelho”.

Os fieis das igrejas, de modo geral, são treinados, como soldados, a obedecer, a respeitar a ordem, a idolatrar um messias, a se subordinar diante de seus líderes, pastores, que se apresentam como portadores da verdade, da fé e da vontade de Deus. Assim, se transformam em rebanho de ovelhas fáceis de serem guiados para objetivos políticos de seus chefes (governantes).

Assim, o igrejismo se consolidou como um poder governante importante para explicar a tensão social pela consolidação de regimes fascistas e proto-fascistas. É claro que sempre há exceções, mas queremos dizer de modo geral que o igrejismo, diferente do cristianismo puro (desprovido de interesses capitalistas e preocupado com justiça social), se constitui normalmente como prática político-religiosa em favor da justificativa do poder conservador, tradicional, contrário a toda forma de contestação da autoridade.

Na Alemanha nazista, por exemplo, existiam várias igrejas protestantes e católicas. Hitler fora católico militante, mas nos panfletos que legitimavam o extermínio dos judeus, eram utilizadas as consignas de Martinho Lutero, fundador do protestantismo. Hitler fez um acordo com elas para apoio recíproco. Assim, o igrejismo não se opôs aos campos de concentração para gays, comunistas e judeus. Através dessa aliança, Hitler chegou ao poder legitimado pela maioria cristã que recebia dos padres e pastores a orientação de apoiar o ditador.

Além do mais, todas as atrocidades realizadas por Hitler e seus militares eram amparadas nas palavras de Deus. Foi ordenado que em todos os uniformes dos militares alemães estivesse a frase: “Deus está convosco”, carregando esse lema, seus militares e milicianos executaram milhões de pessoas em campos de concentrações, nas ruas e residências. Por incrível que possa parecer, Deus para Hitler estava acima de todos.

Vejamos agora outro pilar dos regimes fascistas. Trata-se da propagação de falsas notícias e de um revisionismo historiográfico conservador agressivo, para consolidar sua intepretação de mundo e destruir as bases dos grupos opositores.

Guerra psicológica: fake news e fake history

As notícias falsas sempre existiram na história da humanidade. Para se atingir determinados objetivos, pessoas, instituições, governantes se impuseram a partir de mentiras. As falsas notícias se transformaram em arma política para justificar o governo de uns sobre os outros, ou mesmo para levar um povo inteiro à guerra. No mundo da política, meios de comunicação de massa utilizaram-se desse expediente com muita frequência.

No meio militar, a disputa pela informação é tão importante que é chamada de “guerra psicológica”, sendo fundamental para tirar a moral da tropa antagonista e elevar a moral da sua tropa. É importante saber que nessa guerra não existem escrúpulos, freios éticos, para difusão de uma notícia que favoreça seu contingente no front. Os militares são treinados para isso e com essa estratégia consolidaram o nazismo.

Na Alemanha nazista, o ministro das comunicações de Hitler, Goebbels, dizia que “uma mentira dita mil vezes, torna-se verdade”. Era assim que ele ensinava os seus assessores a construírem as notícias. Hoje, chamaríamos de fake news (notícias falsas). A mobilização ideológica aconteceu por meio de uma propaganda onipresente, buscando impedir qualquer oposição intelectual. Segundo Berstein et al. (2007), a polícia cuidou para que tudo que não estivesse de acordo com os interesses do regime fosse proibido.

As bibliotecas foram censuradas. Milhares de livros foram queimados no dia 10 de maio de 1933, através de uma fogueira acesa na cidade universitária para que fanáticos jogassem ao fogo as obras de autores censurados. Goebbels fez um discurso, dizendo que era para apagar os fantasmas do passado.

Os nazistas mandaram rever os livros escolares e expurgaram vários professores, exercendo controle rigoroso sobre as escolas e universidades. Nessa loucura persecutória, grandes artistas e intelectuais tiveram que deixar a Alemanha, enquanto outros foram assassinados. Albert Einstein, um dos físicos mais renomados no mundo de todos os tempos, que desenvolveu a teoria da relatividade geral, teve sua obra completamente contestada pelo governo do cabo do exército só porque ele era judeu, simpatizante da esquerda e se opunha ao regime. Seus livros foram queimados. Para substituir o pensamento de Einstein, os nazistas tentaram criar uma nova ciência que explicasse a criação do universo. Foi a materialização da estupidez.

O nazismo foi uma máquina de produzir mentira. Notícias e um revisionismo histórico foram fundamentais para o crescimento do regime, recriando a história para favorecê-los. Nesse sentido, todos que contaram a história real foram perseguidos e tratados como mentirosos, fazendo uma inversão total e completa dos valores.

Um exemplo clássico foi a criação da raça ariana, composta supostamente por super-homens, que, na verdade, nunca existiu. Com base em um apanhado de invenções e mentiras, muitas pessoas acreditaram na sua existência e passaram a realizar a adoração do herói, valorização do militar e glorificação do combate. Eles chegaram ao ponto de dizer que os “arianos” tiveram uma história mais importante do que os romanos, como se fosse isso possível. Era a luta do obscurantismo, do dogma, da brutalidade, do controle, contra a ciência, a razão e a liberdade intelectual.

Foi com base em falsas notícias que o movimento nazista foi alimentado; o movimento socialista, derrotado; e os campos de concentração, legitimados. As falsas notícias, portanto, foram parte de uma guerra psicológica fundamental para justificar o regime nazista e recontar a História a seu favor, daí o termo fake history (falsa história).

Como já dissemos, as notícias falaciosas sempre existiram, mas se transformaram em política de Estado do nazismo/fascismo. Para tanto, trataram a História e a informação como parte da guerra psicológica do militarismo, aprendido por Hitler nos meios militares. A negação da ciência e as falsas interpretações realizadas pelo igrejismo foram fundamentais nesse combate.

Assim, foi formada a base de apoio ao nazismo na Alemanha, cujo tema central era: atacar todo tipo de ativismo que não fosse o permitido pelo Estado. Ao mesmo tempo, muitos populares ignorantes apoiaram as medidas intolerantes em relação ao diferente, dando margem para a tese de Reich (1988), segundo a qual o nazismo seria o governo do “Zé ninguém”, pois desprovido de justificativa racional e intelectual.

Feito esse breve introito teórico para situar o fascismo, vamos analisar agora as características postas em prática pelos nazistas na Alemanha sob comando de Hitler.

Nazismo em ação

Os nazistas praticaram a política da intolerância com o dessemelhante, produzindo o holocausto (assassinatos em massa) de todos os opositores ao sistema do ponto de vista político (comunistas/socialistas), do ponto de vista comportamental (gays e lésbicas) e do ponto de vista racial (judeus e ciganos). Foram aproximadamente 6 milhões de judeus/ciganos assassinados e outras milhares de lideranças de esquerda que não conseguiram fugir da Alemanha a tempo.

O extermínio dos judeus já foi retratado por diversos filmes e livros, mas é importante destacar que os primeiros campos de concentração na Alemanha nazista foram para os comunistas, os principais opositores dos nazistas. Ao mesmo tempo, alguns homossexuais foram submetidos a experimento para uma espécie de “cura gay”, que consequentemente os levavam à morte.

As unidades paramilitares (milícias) na Alemanha, chamadas de Freikorps, e seus grupos nacionalistas, tomaram Berlin justamente para se opor à organização dos conselhos dos trabalhadores, de linha socialista. Assim, a Baviera, que era o lugar da revolução, se transformou no lugar da contrarrevolução. Algo semelhante aconteceu com o Rio de Janeiro, lugar onde os protestos de 2013 foram mais intensos, duradouros e contestatórios com enfrentamentos semanais com a polícia. Nesse estado, a crise econômica foi a mais profunda, fazendo com que o igrejismo e o militarismo juntos formassem um ativismo conservador agressivo e propusessem uma pauta de discussão política absolutamente reacionária. As fake news proliferaram como ratos nos esgotos. Tinham que quebrar o principal lugar da resistência. É bom lembrar que o Rio de Janeiro historicamente cumpriu um papel de vanguarda de oposição à ditadura, tendo a passeata dos 100 mil, em 1968, como ápice.

Os nazistas defenderam e praticaram a pena de morte, independente do respeito às leis, através da polícia política. “Opositor bom, era opositor morto.” O opositor para os seguidores de Hitler eram todos “bandidos”. Os nazistas eram veementemente contra qualquer tipo de direitos humanos. A tortura, a prisão arbitrária e o assassinato foram suas principais marcas. Além disso, os direitos civis também foram violados desde a suspensão do sigilo de correspondência até a apropriação dos pertences dos perseguidos e exterminados, como butins de guerra. Há estudos que mostram como a riqueza roubada dos judeus foi importante para alimentar o regime. Assim, gerações inteiras de pessoas que pensavam diferente ou viviam de forma que a “tradição” não achava correta, ou, simplesmente, por pertencer a outra etnia/raça, foram dizimadas.

Com o decorrer do tempo e a perseguição ganhando espaço cada vez maior na sociedade alemã, muitas pessoas resolveram calar e até apoiar para que pudessem sobreviver. Assim, o nazismo ganhava mais força. E aqui está exatamente o problema para muitos que apoiam determinados regimes autoritários, que ao se instalar ganha proporções inimagináveis e depois pode fazer do apoiador um perseguido.

O tribunal de Hitler condenou mais de 5 mil opositores à morte entre 1934 e 1945. Juízes e promotores atuaram intensamente para desferir sentenças que eram aplicadas em tempo recorde. Uma simples distribuição de panfletos fez com que vários fossem condenados. Dessa maneira, a oposição ao regime foi literalmente exterminada. “Os métodos são de uma brutalidade e de uma selvageria inauditas, que incluem assassinatos, torturas, ‘suicídios’ organizados e deportações para os campos de concentração” (Berstein et al., 2007: 355).

Hitler estava determinado a acabar com o sistema representativo usando seus meios. Ele, inclusive, se negou a se aliar aos partidos e políticos conservadores tradicionais. Ele queria o poder sozinho e buscou passar a ideia de que não era um político.

É importante destacar que foi depois das atrocidades contra a humanidade realizadas por fascistas/nazistas que se fez necessário a criação dos tratados internacionais sobre direitos humanos. Assim, em 1947, eles foram aprovados na ONU para serem colocados em prática em todo o mundo. Agora, absurdamente, os direitos humanos voltam a ser alvo.

Em suma, os principais valores do nazismo foram os seguintes:

1) Militarismo, igrejismo, nacionalismo (idolatria à bandeira, à pátria, às cores do país, às armas), família tradicional, capitalismo, racismo, machismo, homofobia.

2) Estabelecia como inimigo, no sentido militar, pregando um ódio profundo contra os “esquerdistas”, comunistas, gays, judeus, estrangeiros, não aliados, contra os direitos humanos e tudo que buscava igualdade entre todos.

Cenário de crescimento do fascismo/nazismo e o que tem a ver com os nossos dias

Depois da crise de 1929, a Alemanha tinha mais de 3 milhões de desempregados. Em 1933, esse número chegou a 6 milhões.[3] Segundo Hobsbawm (1998):

“As condições ideais para o triunfo da ultradireita alucinada eram um Estado velho, com seus mecanismos dirigentes não mais funcionando; uma massa de cidadãos desencantados, desorientados e descontentes, não mais sabendo a quem ser leais; fortes movimentos socialistas ameaçando ou parecendo ameaçar com a revolução social, mas não de fato em posição de realizá-la”.

O cenário descrito por Hobsbawm para explicar o crescimento do fascismo na Europa se assemelha em muito ao caso brasileiro, marcado por profunda crise econômica, aumento substantivo do desemprego, da miséria, violência e a sensação generalizada de que todos os governantes e os políticos são extremamente corruptos. Tudo isso aconteceu exatamente depois de 2013, ano marcado tanto pelos maiores protestos da história brasileira com contestação das forças de repressão[4] e dos valores tradicionais,[5] quanto pela maior quantidade de greves realizada pelos trabalhadores até então. Fatos que colocaram a ordem em xeque.

É importante destacar que em momentos de grande contestação do establishment as elites tendem a apoiar regimes militaristas, contando com apoio dos igrejistas. Assim, a militarização da sociedade, amplamente defendida pelos empresários (governantes econômicos), constitui-se como melhor cenário para três aspectos: 1) combater o clima grevista, a insurgência e seus signos; 2) melhor explorar os trabalhadores em contexto de retirada total ou parcial de direitos, melhorando seus índices de lucros; 3) restabelecer o apego aos valores tradicionais igrejistas: da família com Deus, autoridade e obediência.

Conclusão

O regime nazista foi o estabelecimento da unidade entre militarismo, igrejismo, grandes empresários e meios de comunicação de massa em torno de Hitler para garantir o combate aos socialistas, “esquerdistas”, que já haviam feito uma revolução na Rússia e que poderiam a qualquer momento também fazer na Alemanha.

O militarismo, o igrejismo e a guerra psicológica constituem-se como as principais instituições garantidoras da ordem, das tradições, dos interesses de todos os governantes. Elas possuem em comum: a devoção à hierarquia, disciplina, obediência, desigualdade, autoridade, defesa intransigente dos valores tradicionais e um profundo preconceito contra o diferente, pois este significa um atentado à ordem, uma não subordinação às regras e aos “bons” costumes. Para os nazistas, a simples existência de um homossexual ou de um comunista/socialista significava um atentado à família tradicional e à propriedade. Para chegar ao poder e/ou manter-se nele, para garantir seus privilégios ou destruir seus inimigos, os militaristas e igrejistas utilizam-se da guerra psicológica por meio de notícias falsas e de um revisionismo/falseamento da História.

Em suma, o militarismo, o igrejismo e as notícias falsas sempre existiram. Em coesa associação, compuseram um “ativismo conservador agressivo”, responsável pela manutenção das tradições, e se transformaram em base central dos regimes fascistas/nazistas. O principal ensinamento que podemos extrair é que eles podem juntar-se novamente em outros momentos históricos e praticar arbitrariedades contra seus opositores e diversos outros segmentos sociais, valendo-se inclusive de eleição e voto.

No Brasil, grupos profissionais ligados a determinados setores de militares, da Igreja e dos oligopólios de comunicação de massa despejam por dia dezenas de mensagens nas redes sociais que apontam para a defesa da pena de morte, da intolerância contra grupos LGBTs, da discriminação econômica e social em particular, de exaltação da ditadura militar, contrário a toda e qualquer reparação de danos, seja para o pobre, seja para o negro ou para a mulher. Mensagens preconceituosas valorizam a hierarquia social, a autoridade, o racismo, o machismo e as desigualdades como legítimas. Do ponto de vista político, depreciam as formas de organização social coletiva como comunismo, anarquismo ou socialismo, sempre na defesa do modelo capitalista de mercado. A guerra psicológica através de fake news e fake history constitui-se como a principal estratégia política. O militarismo, o igrejismo e a xenofobia, portanto, sustentam a base desse pensamento.

Por fim, estamos vivendo um momento extremamente perigoso na sociedade brasileira. As pessoas não estão mais com vergonha de pregar o ódio contra o negro, o pobre, a mulher, o homossexual, o ladrão. O pior de tudo isso é que muitas das pessoas que pregam esse ódio insano apresentam-se como seguidores da bíblia e cristãos. A História das ações de Hitler deve servir de ensinamento para que outros absurdos não venham a ser postos em prática na humanidade. É necessário evitar a morte de milhões de pessoas. Pregue o amor ao próximo e o repartir do pão como saída da crise. O ódio não constrói nada, só destrói, só mata.

Em resumo, mais de 50 milhões de pessoas morreram na Segunda Guerra Mundial em função das loucuras de Hitler, um homem branco, de cabelo liso, caindo sobre a testa, de olhos azuis, que fora militar e deputado com apoio da Igreja, dos militares e dos meios de comunicação. Tomara que essa história não se repita, em nenhum país do mundo.

Referências bibliográficas

BERSTEIN et al., (2007). História do Século XX – 1900-1945 – o fim do mundo europeu. São Paulo: Companhia Editora Nacional.

HOBSBAWM, Eric. (1998) A era dos extremos. São Paulo: Companhia das Letras.

Reich, W. (1988). Psicologia de massas do fascismo. São Paulo: Martins Fontes.

Santander, Silvano (2018) Nazismo en Argentina: La conquista del ejército (Spanish Edition) by kindle.

Szklarz, Eduardo. Nazismo – como ele pôde acontecer. Editora Abril, edição kindle by Amazon.

[1] Após a vitória da Revolução Russa em 1917 e, principalmente, no contexto da Guerra Fria, no mundo ocidental, tudo que era considerado de esquerda e/ou fugia das “tradições”, se transformou em alvos privilegiados dos militares. Desde então, se ensina nos quartéis a combater tudo que diz respeito aos socialistas.

[2] A defesa dessas ideias ganhava força com adesão de diferentes padres e pastores, muitos por convicção, outros porque obedeciam ao alto escalão das Igrejas que fizeram pacto com Hitler. Um pacto para garantir a ordem, pregando repulsa ao diferente, portanto, nada cristão na sua essência.

[3] Enquanto a esquerda oficial se encastelava em seus círculos e falava em teorias e lutas de classe, o partido de Hitler oferecia diversão, sopas, festas e juntas de trabalho para o povo, defendendo e estimulando ardorosamente as “tradições”, o capitalismo e os preconceitos.

[4] Naquele momento parte dos manifestantes exigiu o fim da PM, resistiu e contra-atacou às investidas policiais, resultando em confrontos.

[5] As marchas das vadias e o crescimento das manifestações LGBTs são exemplos desse processo.

https://diplomatique.org.br/pra-quem-sabe-ler-um-pingo-e-letra/

Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controvérsia e escreve semanalmente.

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