Tensões raciais, e não econômicas, deram a vitória a Trump

Mehdi Hasan – “ANSIEDADE ECONÔMICA”. Essa foi a expressão usada por políticos e especialistas para explicar o inexplicável – a eleição de Donald J. Trump para a presidência dos EUA, em novembro de 2016. O termo foi empregado tanto pela esquerda quanto pela direita para tentar desvendar por que dois terços da classe trabalhadora branca dos EUA havia votado em um bilionário republicano.

A tese era a seguinte: os eleitores da classe trabalhadora – principalmente os dos swing states (estados sem uma tendência fixa de voto) do “Cinturão da Ferrugem”, no nordeste e meio-oeste dos EUA – haviam se revoltado contra o governo dos democratas por causa da estagnação salarial e da fuga de empregos para o exterior. Então esses eleitores “abandonados” passaram a apoiar um “bilionário-proletário” que atacava o livre comércio e a globalização.

Todos, de Jesse Waters, comentarista da Fox News, ao senador socialista Bernie Sanders, compraram o argumento da “ansiedade econômica”, mas essa ideia não passa de um mito. Como afirmei em abril de 2017, com base em pesquisas de opinião e de boca de urna, a eleição de Trump se deveu muito menos a uma ansiedade ou aflição de ordem econômica do que à “ansiedade cultural” e ao ressentimento racial. Basta olhar as evidências empíricas – ou ouvir Trump xingando atletas negros de filhos da puta e chamando Elizabeth Warren de Pocahontas diante de uma multidão exultante – para entender por que ele agrada tanto.

Entretanto, por mais que seja simples refutá-lo, não é nada fácil acabar com o argumento da ansiedade econômica, pois trata-se de um “argumento-zumbi”. Como observou Paul Krugman, essas ideias “já foram refutadas e deveriam estar mortas, e só continuam se arrastando por aí porque servem um objetivo político”. Ou, nas palavras do escritor Ben Goldacre, esses argumentos “vão continuar se levantando da cova por toda a eternidade, não importando quantas vezes forem abatidos”.

Sejamos claros: o zumbi da ansiedade econômica já foi fuzilado várias vezes pelos especialistas nos últimos 18 meses. Dentre os estudos publicados, quatro se destacam por sua contundência. O primeiro apareceu em maio de 2017, um mês depois do meu primeiro artigo sobre o assunto. A revista The Atlantic e o Public Religion Research Institute (PRRI) publicaram os resultados de uma análise de pesquisas de opinião pós-eleitorais. Será que os trabalhadores brancos e pobres votaram em massa em Trump? Terá sido por causa da economia?

Não. A análise do PRRI, com base em mais de 3 mil eleitores, “indica que os trabalhadores brancos em dificuldades financeiras tinham mais chances de votar em Clinton do que em Trump”, resume Emma Green, da The Atlantic. Entenderam? Hillary Clinton, e não Donald Trump. Por outro lado, deixando de lado preferências partidárias, “foi a ansiedade cultural – o sentimento de ser estrangeiro no próprio país, o apoio a deportação de imigrantes e a hesitação quanto ao investimento em educação – que mais rendeu votos a Trump”, completa Green.

Segundo os dados da pesquisa, os trabalhadores brancos que manifestaram medo de uma “desapropriação cultural” tinham 3,5 mais chances de votar em Trump do que os outros.

Surpresa!

O segundo estudo, publicado em janeiro de 2018 por três cientistas políticos da Universidade de Massachusetts Amherst – Brian F. Schaffner, Matthew MacWilliams e Tatishe Nteta – fazia a seguinte pergunta: “O que fez com que eleitores brancos sem nível superior dessem um apoio muito maior a Donald Trump do que os brancos com nível superior?”. Eis a resposta, baseada em uma pesquisa com 5.500 adultos americanos:

“Descobrimos que as atitudes racistas e machistas estiveram intimamente associadas ao voto nas eleições de 2016, mesmo levando em consideração fatores mais comuns, como partidarismo e ideologia. Esses elementos foram mais relevantes em 2016 do que em 2012, o que indica que a retórica da última campanha, explicitamente orientada às questões de raça e gênero, serviu para excitar essas atitudes na mente de muitos eleitores. Com efeito, a atitude em relação ao racismo e ao machismo respondeu por cerca de dois terços da diferença de voto entre grupos de diferentes níveis de escolaridade.”

Racismo e machismo. Quem poderia ter imaginado?

O zumbi caiu pela terceira vez em abril de 2018, quando Diana Mutz, cientista política da Universidade de Stanford, publicou um estudo na revista Proceedings of National Academy of Sciences, que revelou como morar “em uma área de alta renda mediana aumentava significativamente a probabilidade de voto no Partido Republicano em 2016”, o que é “exatamente o contrário do esperado segundo a tese dos ‘abandonados’”. Mutz não encontrou nenhum indício de que uma piora da “situação financeira pessoal” tenha empurrado massas de trabalhadores para os braços de um magnata do setor imobiliário. O mesmo vale para o declínio da indústria e o aumento do desemprego.

Então qual foi a conclusão dela?

“Nas eleições de 2016, a diferença de voto entre os diferentes níveis de escolaridade se deveu mais a uma suposta ameaça ao status de grupo do que ao sentimento de exclusão econômica. Aqueles que achavam que a hierarquia social estava sendo subvertida – com brancos, cristãos e homens sendo mais discriminados do que negros, cristãos e mulheres – tinham uma probabilidade maior de votar em Trump.”

Ainda não está convencido? Continua se aferrando a uma ideia falsa que se recusa a morrer? Pois bem, o mais novo exterminador de zumbis foi publicado semana passada pelo Voter Study Group (VSG), da fundação Democracy Fund, em parceria John Sides, cientista político da Universidade George Washington (tanto a Democracy Fund quanto a First Look Media, grupo ao qual pertence o Intercept, foram fundadas por Pierre Omidyar). O estudo conclui que a “narrativa predominante” da eleição de 2016 – concentrada sobre as “preocupações econômicas dos americanos”, principalmente da “classe trabalhadora branca” – é “falha” e “inapropriada”.

Sides e Robert Griffin, coautor da pesquisa, descobriram que “a ansiedade econômica estava diminuindo, e não aumentando” ao longo da corrida presidencial. “A característica mais distintiva do comportamento eleitoral em 2016 não foi o grande peso da ansiedade econômica, (…) [e sim] as atitudes relativas a raça e etnia”, diz o estudo. Esses dois fatores tiveram “uma influência muito maior sobre o eleitorado”.

Segundo a pesquisa (que usou o conceito muito mais preciso de “aflição econômica”, baseado nas experiências diretas dos eleitores com a instabilidade e as dificuldades financeiras):

“Contrariamente à narrativa habitual, os resultados da pesquisa VOTER mostram que a aflição econômica não é um fato predominante na classe trabalhadora branca. Ela está muito mais presente da vida das pessoas de cor. Em parte por causa disso, os eleitores em pior situação econômica não votaram mais em Trump do que em Clinton. Na verdade, foi o contrário. (…) No geral, as consequências políticas da aflição econômica são negativas para Donald Trump. Particularmente entre os eleitores não partidários, aqueles em situação de aflição econômica tendem a criticar o desempenho do governo Trump. Portanto, a aflição econômica pode ser vista como um termômetro da aprovação presidencial, e não como uma fonte de apoio. Na verdade, genuínas dificuldades econômicas podem erodir o apoio de Trump.”

Preciso continuar? Preciso citar mais estudos? Mais pesquisas de opinião? Por que isso ainda está em debate?

É preciso esclarecer – repetindo o que já escrevi no ano passado – que isso não quer dizer que as angústias econômicas da população sejam irrelevantes, ou que os problemas raciais e culturais sejam as únicas forças por trás do apoio a Trump. Nas palavras dos três pesquisadores da Universidade de Massachussetts Amherst, “seria um equívoco tentar explicar a vitória de Trump em 2016 sob apenas uma ótica. Ainda assim, em uma campanha marcada por uma retórica centrada na raça e no gênero, talvez não seja nenhuma surpresa que a posição do eleitorado sobre essas questões tenha influenciado o resultado das eleições”.

E por que isso ainda é importante em 2018? Em primeiro lugar, como observa Mutz, “a vitória de Trump pode ser vista de forma mais positiva quando atribuída a uma onda de apoio da massa de trabalhadores esquecidos, e não a um grupo de pessoas que se sentem ameaçadas por minorias e estrangeiros”. Além disso, acrescenta ela, “os governantes que acreditam na narrativa dos ‘abandonados’ podem se sentir incentivados a implementar políticas que não farão nada para aplacar os temores dos americanos menos escolarizados”.

Essa é a questão fundamental a ser considerada por aquela parte da esquerda que – ainda que com a melhor das intenções – caiu no conto do vigário da tese dos “abandonados”. Essa esquerda enxerga a vulnerabilidade econômica e financeira como a raiz do Trumpismo, e por isso apoia políticas como o aumento do salário mínimo e a saúde pública universal. Essas medidas econômicas e sociais progressistas, porém, merecem o nosso apoio porque são moral e economicamente corretas, e não para conquistar os eleitores de Trump em 2020. (Spoiler: elas não vão conquistar ninguém, e talvez até contribuam para afastar ainda mais o eleitorado proletário, que vê essas políticas como “esmolas” para os eleitores não brancos.)

Raça e classe são questões importantes, e ambas devem ser centrais em qualquer política de esquerda, a favor dos pobres e contra Trump. Mas isso não muda o fato de que, em 2016, a primeira suplantou a segunda. Como lembra Mutz, a verdade é que a eleição de Trump “foi uma tentativa, por parte de grupos já dominantes, de garantir a continuidade dessa hegemonia”.

Esse é o desafio da esquerda. É claro que a direita quer descolar os eleitores de Trump de qualquer acusação de racismo, xenofobia e misoginia, mas a esquerda precisa dar nomes aos bois. A eleição de Trump foi uma “reação branca”, e é preciso exterminar o zumbi da “ansiedade econômica” de uma vez por todas.

https://theintercept.com/2018/09/21/tensoes-raciais-vitoria-trump/

Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controvérsia e escreve semanalmente.

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