O livro didático em crise na era da escola digital

Ricardo Alvarez – A escola básica vive o desafio cotidiano em dar respostas às exigências da contemporaneidade marcada por mudanças constantes, pela volatilidade da conjuntura, o uso de novas tecnologias e a conexão a um mundo on-line. Não são poucos e nem irrelevantes estes desafios. Neste contexto a discussão do uso do livro didático em sala de aula ganha relevância.

“Tudo ao mesmo tempo agora”, dizia o título de um álbum dos Titãs lançado no início dos anos 90 e que sintetizava, com sabedoria, a velocidade de reprodução das relações sociais.

A instantaneidade e a hipervalorização do momento carregam a simbologia de uma sociedade que se transforma com rapidez acelerada e vertiginosa. Para o bem e para o mal somos tomados pela sobreposição de imagens, cores e fatos em ritmo acelerado e em intensidade assustadora.

Os estudantes que não possuem perfis nas redes sociais são tomados como alienígenas e os que não expõe seus desejos em público como ilhas de estranhamento. Selfies em profusão e a vida privada, num clique, se torna pública.

Ao entrar na escola o estudante se depara com uma lógica que viaja em outra temporalidade, primeiro por que o processo de aprendizado não anda na mesma velocidade do mundo das aparências e segundo por que a leitura e a absorção e compreensão dos fenômenos tem uma maturação num ritmo bem mais vagaroso.

O choque entre as duas temporalidades se evidencia na dificuldade em absorver estas novas tecnologias e, ao mesmo tempo, processar o conhecimento. Não há receita pronta de como fazê-lo.

O livro didático há muito tempo utilizado como essencial nos conteúdos desenvolvidos em sala de aula vai, aos poucos, perdendo a capacidade de cumprir seu papel.

Primeiro porque ele se distancia abissalmente desta condição de um mundo on line – o estudante quer saber da Guerra na Síria, mas o livro chegou até a Ruanda -, segundo pela linguagem, distante da realidade dos alunos e portanto, pouco atrativo aos seus interesses.

A falta de interdisciplinaridade ou de desenvolvimento de temas transversais em função da lógica rígida das disciplinas, herdadas do positivismo, também se mostram pouco atrativas e produtivas se se quer mostrar um mundo interligado e conectado.

Outra questão é a posição passional do estudante diante do conhecimento. O livro estrutura conteúdos que se mostram definitivos, que não comportam questionamento e nem tampouco pesquisa. A produção do saber a partir do acúmulo que os estudantes carregam pouco espaço tem diante do livro didático.

À rigor, o livro didático não é o começo e nem o fim do problema, ele é parte de uma estrutura educacional presa aos moldes do passado e que não se modificou substancialmente, à revelia do que acontece no mundo para além dos muros das escolas.

A superação desta contradição se dará pelo acúmulo de conflitos cotidianos gerados pela divergência de interesses e uma nova síntese será gerada. Que seja a de interesse da maioria do povo brasileiro.

Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controvérsia e escreve semanalmente.

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