Com risco de derrota do PSDB em São Paulo, Dória passa a repetir discursos de seu próprio concorrente

VICTOR PICCHI GANDIN – Há uma semana, pesquisa Ibope registrada no TSE sob o número BR-07387/2018 mostrou que a disputa para o governo de São Paulo segue indefinida. João Dória (PSDB) e Paulo Skaf (MDB), com respectivamente 21% e 22% das intenções de voto, seguem empatados dentro da margem de erro, estipulada em 3 pontos percentuais. Apesar disso, a maior subida de Skaf (4 pontos percentuais a mais em relação à pesquisa divulgada no dia 20/08) em contrapartida à menor oscilação de Dória (crescimento de apenas um ponto percentual no mesmo período) acendeu um alerta na campanha do tucano.

A campanha de Dória passou a promover ataques mais frequentes à campanha de Skaf. A maioria deles, utilizado inclusive no último debate para o cargo de governador, promovido pela TV Gazeta, tenta associar o candidato a governador do MDB a Michel Temer, atualmente presidente da República pelo mesmo partido. Uma inserção da coligação de João Dória (“AceleraSP”) tem veiculado na televisão um trecho de uma declaração de Temer dada em convenção do MDB, na qual afirma que “a grande realidade” é que “o Paulo tem que ser eleito governador do Estado de São Paulo”.

Outra inserção, veiculada no dia 17/09/2018, sem menção ao nome de João Dória nem seu número (mas que pode ser identificada pela inscrição lateral “Coligação AceleraSP – PSDB, PSD, PRB, DEM, PP, PTC”) aprofunda os termos do ataque e questiona: “Quem é o candidato do MDB de Michel Temer em São Paulo? O candidato que implantou as taxas nas escolas do Sesi, que antes eram gratuitas e que propôs cobrar mensalidade na USP? Quem é que está sendo investigado por receber milhões da Odebrecht? Por fraudar a licitação de publicidade da Fiesp e por usar a propaganda do Sesi e do Senai para se autopromover?”. Ao final, a peça diz: “Esse é o Skaf de verdade. Não adianta esconder”.

Apesar da briga para retirada de votos de seu concorrente mais próximo, os discursos de Paulo Skaf (MDB) e João Dória (PSDB) sobre o tema da segurança pública não são virtualmente diferentes. Desde a primeira semana de propaganda eleitoral, Skaf vem dando prioridade ao tema da “saidinha” de presos, possibilidade que quer proibir. Tendo consciência de que este tema deve passar pelo Poder Legislativo (e até para evitar críticas à sua propaganda), Skaf afirma que, se “for governador”, irá usar sua “força política para mudar essa lei”.

Em seu programa eleitoral veiculado na televisão no dia 14/09/2018, João Dória repetiu exatamente o mesmo discurso que seu concorrente já vinha adotando. Dória defendeu o fim da saída temporária de presos em feriados com os mesmos argumentos, afirmando que “só se muda a lei em Brasília” e que, ele, “como governador”, terá a “força necessária para endurecer as leis contra o crime”. Enquanto Skaf diz que “preso tem que ficar na cadeia”, Dória conclui seu raciocínio afirmando que “bandido deve cumprir pena na cadeia”.

A consideração da alçada do Poder Legislativo nesta questão também foi reforçada por Dória em inserções de deputados de sua coligação. Antes da apresentação de candidatos a deputado federal, Dória afirma que “só os deputados podem endurecer as leis contra o crime”. Ainda que esta seja uma questão que ambos considerem um tema de importância e concordem entre si, chama a atenção o fato de que o candidato do PSDB passou a replicar exatamente os mesmos argumentos que o candidato do MDB já vinha utilizando em suas propagandas. Isso aconteceu logo após o crescimento de Skaf nas pesquisas.

Outra peça semelhante entre a campanha de Dória e a de Skaf diz respeito a políticas dirigidas às mães. Ambos prepararam programas e inserções voltados a elas. Dória afirma que quem é mãe “pode ficar tranquila”, pois “vai ter alguém que vai cuidar de seu filho desde cedo”. Já Skaf afirma que, “quando uma mulher vai ser mãe, ela precisa de cuidados especiais”, prometendo, em seu governo, “acompanhar tudo, até depois da criança nascer”. Como estas propagandas voltadas às mães estão sendo exibidas simultaneamente, ao contrário da campanha sobre as “saidinhas” iniciada por Skaf, eventual coincidência não pode ser descartada neste segundo caso. Coincidência ou não, é notório que a campanha de Dória passou a atacar Skaf por um lado e por outro aproximar-se de suas ideias, o que faz cair por terra diferenças essenciais entre políticas que possam vir a ser adotadas. O sinal para a intensificação de ataques a Skaf surgiu após ligeiro crescimento deste nas pesquisas, contudo, ambos os candidatos parecem ter ideias muito semelhantes em algumas áreas.

Esta mesma pesquisa mostra ainda que o PSDB, após reinar no governo de São Paulo há mais de duas décadas, neste ano corre o risco de não ocupar nem mesmo uma das duas vagas disponíveis para o Senado. Segundo a coluna Expresso, da revista Época, o partido lançou a candidatura de Mara Gabrilli ao Senado apostando que ela seria a candidata ao Senado mais votada não só no estado de São Paulo, mas em todo o Brasil. Até o momento, esta expectativa está longe de concretizar-se. A candidata aparece na pesquisa atrás de Eduardo Suplicy (PT), Mário Covas Neto (PODE), Major Olímpio (PSL) e empatada com Maurren Maggi (PSB). Muito longe, portanto, de alcançar uma das duas vagas disponíveis em São Paulo, e mais distante ainda de ser a candidata mais votada do país. Tripoli, o outro candidato ao Senado pelo PSDB em São Paulo, aparece com percentual ainda menor: 5% de intenções de voto.

Tais dados, ainda que possam mudar ao longo da campanha, mostram que o PSDB corre o risco de perder sua primeira eleição estadual em São Paulo desde 1994. A derrota ainda não é certa, mas a folga em direção à vitória já não existe mais. Ao contrário da rápida vitória de Alckmin em 2014, desta vez a chance de um segundo turno parece iminente. As opções para uma alternância de poder podem não ser as melhores, contudo, o eleitorado paulista enfim passou a mobilizar-se mais em direção a um candidato de outro partido. Neste cenário, é curioso que Dória, em vez de pontuar diferenças na tentativa de recuperar ou ganhar eleitores, procurou repetir algumas ideias já expressas por seu próprio concorrente.

VICTOR PICCHI GANDIN é formado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista – UNESP e Mestrando em Ciência Política pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar. Autor dos artigos acadêmicos “Coligações eleitorais em Matão: efeitos da alteração do número de cadeiras sobre o comportamento partidário” (com Maria Teresa Miceli Kerbauy) e “Eleições, partidos e coligações: Uma análise da consistência ideológica e das alianças no município de Matão” (com Thais Cavalcanti Martins). Pesquisa sobre coligações, partidos políticos e eleições.

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