Vítima da ditadura chilena conta como foi abusada pelo pai e viu a mãe ser levada por torturadores

AP – Seu comandante gritou: “Dominem a menina!” e “O Cão” Pienovi obedeceu. Vittoria, sua filha de nove anos, chorava e se debatia porque dois militares da Marinha haviam acabado de levar sua mãe embora. Pienovi sabia que “dominar” significava “estuprar” sua própria filha.

Na vida de Vittoria, a repressão não estava nas ruas, mas atrás das portas de sua casa. Seu pai a estuprou e permitiu que sua mãe, Matilde, fosse torturada e abusada sexualmente por oficiais da Marinha 11 dias após o golpe no Chile.

As desgraças familiares começaram quando o chefe de Pienovi o chamou em seu escritório para informá-lo de que sua mulher estava em uma lista de comunistas e outros esquerdistas. “Se você não é capaz de manter a ordem, é traição. Então, ou vão todos ao Lebú por traição nesta noite ou faremos o que precisa ser feito”, disse o oficial, segundo relato feito a Vittoria por seu pai. O Lebú foi um dos vários navios utilizados pela Marinha do Chile para torturar e manter os opositores presos por longos períodos.

Embora não fosse militante, Matilde trabalhava com a esquerda. Como católica, ela reunia comida para os mais necessitados e organizava missas em seu apartamento e permitia que um padre ligado aos trabalhadores presidisse a celebração feita para rezar pelo país.

Pienovi aceitou entregar sua mulher no dia 22 de setembro, data que coincidiu com o aniversário de sua filha. Por volta das 23h, alguém bateu na porta do seu apartamento em Viña del Mar e Vittoria achou que lhe traziam um presente. Quando ela abriu, viu dois soldados da Marinha que estavam armados. Um deles colocou uma submetralhadora no peito da menina e outro entre as pernas.

Os dois gritaram, perguntando por sua mãe, e a menina viu quando o pai foi atrás dela e a entregou. Vittoria gritou. Ela esperneava. O barulho chamou a atenção do chefe de Pienovi, que invadiu o quarto e deu a ordem que marcaria Vittoria para o resto de sua vida.

“O comandante disse “domine a menina!”, e dominar é violar.”

Vittoria fala daquela noite com lágrimas nos olhos. Ela diz que se lembra de suas roupas manchadas de sangue. Seu pai lhe deu três sedativos antes do abuso.

Sua mãe teve um “tratamento especial”, diz ela. Como era a mulher de um membro da instituição, “apenas” três oficiais a estupraram. De acordo com vários testemunhos, existem militantes da Juventude Comunista que foram abusadas sexualmente até por cães dos militares.

Vittoria e Matilde se encontraram novamente dois dias depois. “Sinto que a minha mãe morreu no dia em que ela foi presa”, disse. “A mulher que nos devolveram era uma mulher quebrada, completamente destruída, devastada. E eu também, eu também.”

Depois de 45 anos do golpe liderado por Augusto Pinochet no Chile, ainda há quem tenha uma história para contar. Alguns já o fizeram, como militares acusados de violações dos direitos humanos e opositores da ditadura que foram torturados. Mas alguns preferem o silêncio.

No Chile, há outros que permanecem praticamente escondidos, que têm medo de dizer o que aconteceu com eles, como as crianças do regime repressivo que foram abusadas em suas próprias casas.

Para Vittoria, o que aconteceu na ditadura não ocorreu no passado. Este não é seu nome verdadeiro, ela escolheu o pseudônimo quando se tornou adulta para poder narrar suas experiências sem medo de ser reconhecida. Em seu livro de poemas “A filha do torturador” (2010) ela detalha sua história, mas diz que, após a publicação, recebeu ameaças. Atualmente, além de escrever, visita grupos em redes sociais para conversar sobre o assunto e concordou em dar esta entrevista porque diz que gostaria de conhecer outros filhos de repressores que poderiam compartilhar o que sofreram.

Esta mulher de 54 anos ainda se assusta com algo que, para os outros, parece tão inofensivo quanto um barulho alto ou a chegada de um soldado. “Até hoje, vejo um uniforme e fico paralisada”, disse ela à agência Associated Press.

Ela diz que sua família nunca falou sobre o assunto. O tempo passou e, nove anos depois dos abusos, ela reuniu forças para expulsar seu pai de casa. Por duas décadas, nem ela nem sua mãe procuraram a ajuda de um psicólogo ou de um psiquiatra. Ele diz que, em sua mente, era um emaranhado de lembranças vagas até que, em 1998, sua mãe ligou para lhe dizer que Pinochet havia sido preso em Londres.

“Lembrei-me de tudo de uma só vez.”

A prisão foi ordenada por um juiz espanhol que tentou processar o ex-ditador por violações dos direitos humanos, mas o governo britânico o libertou em março de 2000.

A prisão trouxe de volta memórias e Vittoria começou a ficar deprimida. Mais tarde procurou ajuda médica, se casou e teve dois filhos. Após seu divórcio levou sua mãe para viver com ela. Hoje, ela é professora e está em contato com alguns grupos que apoiam pessoas afetadas pela repressão por meio de redes sociais, mas parou de frequentar um grupo chamado “Os filhos de memória, filhos de vítimas da ditadura.”

Por ser a filha de um repressor e não ter sofrido abusos por razões ideológicas ou políticas, seu caso nem sempre se encaixa entre os de outras pessoas afetadas pelo regime.

“Para eles é poderoso, é estranho”, disse ela, referindo-se às pessoas que foram vitimadas por militares como seu pai. “É estranho para mim também, porque sou do outro lado, mas não sou do outro lado. Eu não sou de nenhum lado, sou filha, mas não concordo com o que meu pai fez”.

Seu pai, “O Cão” Pienovi, morreu em 2006. Ele nunca enfrentou qualquer processo judicial por ter feito parte do Ancla2 – uma força de inteligência e contra-inteligência da Marinha – antes do golpe militar. Ele terminou sua carreira com a patente de capitão de corveta.

A ditadura de Pinochet deixou um saldo oficial de 40.018 vítimas, incluindo 3.065 opositores mortos e pouco mais de mil desaparecidos. Até 4 de setembro de 2017, 174 pessoas, a maioria ex-militares, cumpriam sentenças por violação de direitos humanos e outras centenas enfrentavam processos judiciais.

Até agora não há nenhum cálculo para estimar quantos filhos de repressores foram estuprados em suas casas, mas acredita-se que isso não era exceção. Giorgio Agostino, psicólogo social e sociólogo, disse à Associate Press que tem tratado alguns casos e explicou que homens como o pai de Vittoria foram escolhidos para serem repressores por seus traços psicopáticos, o que fazia com que não sentissem empatia e culpa. Segundo o especialista, esses casos permanecem nas sombras porque “há interesses políticos e ideológicos” que impedem que os torturadores possam ser punidos.

Por sua parte, Marcelo Retamal, um psicólogo e especialista em direitos humanos, multiculturalismo e comportamento criminoso, disse que chilenos como Vittoria integram um grupo de sub-vítimas porque foram abusados por seus pais e sofreram estresse pós-traumático.

“Sabemos que existiam milhares de agentes de Pinochet, por isso não é estranho pensar que, pelo menos, algumas centenas deles levaram a violência para suas casas”, disse Retamal.

O aniversário do golpe neste ano será diferente para ativistas e familiares das vítimas. Entre julho e agosto, a Suprema Corte do Chile concedeu liberdade condicional a sete agentes do regime por bom comportamento e por haver cumprido a metade ou dois terços da pena. Eles não consideram, conforme estabelecido pelo Estatuto de Roma, que não prestaram colaboração efetiva para a Justiça e nem se arrependem de seus crimes.

https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2018/09/13/vitima-da-ditadura-chilena-conta-como-foi-abusada-pelo-pai-e-viu-a-mae-ser-levada-para-ser-torturada.htm

Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controvérsia e escreve semanalmente.

Responda