Marx, revolução por ela mesma

Luís Fazenda – Marx não teve a noção da capacidade da burguesia para resistir e até para avançar. Nós já temos a fita do tempo e a medida das transformações que conhecemos como necessárias.

Bem podia Marx dizer que não lhe deviam a ele a descoberta da luta de classes. Não é segredo que vários pensadores já tinham feito referência a esse fenómeno objetivo. Mas até hoje Marx é o porta-estandarte da luta de classes que atravessa o capitalismo e também rasgou caricaturas de socialismo. Pela razão complexa e simples de apontar a sociedade sem classes como saída para o conflito da época que habitamos. Pela razão culta de explicar que o capitalismo desenvolveu os meios de produção ao nível de socializar a produção. Confiscada a propriedade dos meios de produção pelos produtores, não restariam mais classes, mas uma “associação de produtores”. Essa transição de relações de produção é a revolução, ela mesma.

Sabemos que a lineariedade do processo histórico não foi uma mera substituição de conceitos, as revoluções travaram-se em contextos de conflagração geral e as sociedades pós-capitalistas enfrentaram problemas trágicos de regresso das classes, sob outras formas, conduzindo a interrogações teóricas sobre a premissa de Karl Marx. Sabemos que o reformismo faliu como modo de evitar a revolução. Quanto valem os reformistas? Sabemos que as ditaduras faliram como garantias do socialismo. Quanto valem os saudosistas?

A democracia radical responde às duas dificuldades. A radicalização da democracia permite a transição revolucionária e um processo constituinte popular vela pela soberania democrática até à sociedade sem classes. Não se pressupõe que o vazio se siga às classes e ao estado, mas outras formas de organização social e política vão preencher esse espaço. Não há pois nenhum determinismo nem fim da história por decreto na abordagem marxista nem sequer nas correções de via que os marxistas atuais preconizam.

Marx entreviu a possibilidade de interpenetrar revoluções democráticas, nacionais, com revoluções socialistas. Não desdenhou nenhum movimento que se opusesse às forças mais reacionárias, encorajou alianças dos trabalhadores com vários setores do povo prejudicados na sua liberdade e propriedade. Marx não foi sectário e os marxistas não devem sê-lo, sob pena de serem derrotados por antecipação. Isso não o conteve de dizer no Manifesto Comunista, e em muitos outros textos, que comunistas eram os que tinham uma visão de conjunto da luta de classes e do objetivo final de uma sociedade sem classes.

A centralidade da luta do trabalho contra o capital deriva da compreensão da luta de classes atual e há dois séculos. O Trabalho tem tudo menos uma agenda sindicalista como é habitualmente conotado por vários tipos de pedantes, mais ou menos pós-modernos. Marx, em muitos escritos, usa amiúde a expressão de luta política de classes, exatamente para distinguir daqueles que não queriam tomar o poder à burguesia, refletindo nessa luta todas as reivindicações de classe, políticas, económicas, sociais e culturais. A centralidade do Trabalho significa que os trabalhadores e as trabalhadoras são o veículo da transformação pela socialização dos bens estratégicos da economia, pelo pleno emprego, pela descarbonização do ambiente, pela igualdade de género e etnia, pelo desarmamento, pelo controlo público do espaço sideral e cyber.

A apropriação crítica de todas as novas causas que a podridão do capitalismo torna insanas para a humanidade e para o ecossistema é, aliás, a forma de tornar mais visível na consciência social quem toma o lado de quê. Múltiplos movimentos políticos e sociais, o feminismo, o ambientalismo, o sindicalismo, etc, concorrem para esse fim e a fertilidade da sua autonomia como sujeitos políticos dão capilaridade à causa do proletariado moderno. Contribuem para as suas raízes de alternativa.

Muitos, deve dizer-se profusões de intelectuais e políticos, tentaram extrair do marxismo original a perspetiva da revolução. Podiam receber e afiançar a teoria da mais-valia e causa da exploração da força de trabalho, podiam atender a uma compreensão do materialismo histórico e perceber que a história é a história dos modos de produção e da luta de classes, podiam subestimar a filosofia da dialética da matéria, afinal isso é mais com a ciência, podiam repicar a ciclicidade das crises capitalistas e a interligação entre a burguesia e o belicismo, sim podiam isso tudo, mas, ah, a revolução, isso estava a mais. Que era intransigência, que o gradualismo tinha por si a força sindical e cooperativa e não o partidarismo radical…

As conquistas parciais subentendem que se reclamam conquistas completas. A revolução não morre por causa de reformas, adia-se e muito por causa dos reformistas. Um marxista tem a obrigação de mostrar aos trabalhadores e trabalhadoras que cada reforma aproxima uma sociedade sem exploradores, por mais modesta que seja essa reforma. Daí muitos desses intelectuais acharem que se deve salientar o contributo de Marx, o método sociológico que estreou é uma “ferramenta” válida mas dentro de uma perspetiva crítica, que outra haveria de ser?, é contributo a par de outras filosofias, curiosamente nenhuma delas revolucionária, todas mais ou menos, a pretexto de pragmatismo (leia-se submissão à relação de forças), acabam na colaboração de classe com o Capital. Temos aí a história da social-democracia como a mais milagrosa vacina para o reformismo.

Não se trata de dogmatismo, como por vezes é alegado. A perspetiva do marxismo hoje só pode ser criativa. As indagações, experimentais ou não, de Hawking, agora falecido, permitiram restabelecer a asserção tão sublinhada da unidade da matéria, e tão cara a Marx, e que há muitas décadas tinha sido declarada obsoleta devido à existência, dizia-se, de zonas de não-matéria. Afinal, talvez a luta de contrários tenha o mapa pós-hegeliano que Marx vislumbrou. A ciência pode ser provisória mas tem a substância cumulativa de que a humanidade tira partido. Foi Marx que disse que não era marxista no sentido de não pessoalizar ideias e muito menos torná-las intemporais por dogma.

Voltando ao princípio que é mesmo Princípio, a luta de classes é a máquina do progresso e até da sobrevivência. Marx não teve a noção da capacidade da burguesia para resistir e até para avançar. Nós já temos a fita do tempo e a medida das transformações que conhecemos como necessárias. As revoluções não são conspirações, também devemos essa denúncia a Marx quando expunha a inconsequência de Blanqui nas conjuras de minorias armadas. A revolução é um assunto público dos povos. A luta de classes cria o seu tempo. Suprimir a oligarquia financeira é a bandeira que podemos desfraldar para essa impenitência da história.

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Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controvérsia e escreve semanalmente.

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