O separatismo paulista ou virei estrangeiro no meu próprio país

Ricardo Alvarez – Estimulados pelos resultados da votação no Reino Unido um grupo de paulistas da gema resolveu quebrar a casca e fazer omelete de um ovo só. É hora do SPexit.

O Reino Unido, todos sabemos, não mais faz mais parte da União Europeia. Decidiram seguir carreira solo e reforçar sua identidade própria ao invés de alimentar alemães bebuns e franceses pedantes.

Agora os direitos autorais de grandes criações britânicas como a cultura punk, whisky 15 anos e Beatlemania devem gerar royaltes. Outras criações importantes como o volante na direita, passear nos cemitérios e o pepino nos drinques serão símbolos do orgulho nacional.

A ilha se separou sem nunca ter estado junto. O canal da Mancha não mudará de nome, por motivos óbvios e a Rainha da Inglaterra terá, finalmente, poder.

Todas estas mudanças alvissareiras estimularam as principais cabeças pensantes do separatismo tupiniquim. Paulistas legítimos ficaram excitados com a demonstração de solidariedade consigo mesmo dos britânicos e resolveram seguir o exemplo.

Sua crença na própria superioridade e um certo desprezo com a inferioridade alheia, deixou de ser um desejo histórico reprimido para se transformar em protagonismo político.

Propuseram a realização de uma consulta popular no Estado de São Paulo para saber se desejamos continuar colados na periferia, popularmente conhecida como Brasil ou se, enfim, nos separamos para criar um novo país livre de cearenses e potiguares.

Caso a paulistada optasse pela secessão, novos e bons ventos soprariam nestas terras.

Com grandes chances o presidencialismo seria substituído pelo parlamentarismo, desejo antigo de  moderados e conservadores. Tiririca seria um forte candidato à primeiro ministro por sua popularidade e votação para o parlamento.

A indústria bélica e as forças armadas teriam prioridade nos investimentos para monitorar as fronteiras e evitar as invasões dos vizinhos bárbaros. Enéas seria o patrono da bomba atômica bandeirante. Uma parceria com Israel não está descartada: eles nos ensinam como levantar muros e nós como eliminar pobres na periferia.

No campo estariam as maiores vantagens, sem dúvida. Como de cada 10 hectares plantados hoje, 7 germinam cana de açúcar, nossos carros seriam alimentados com produto nativo mas nossas barrigas seriam enchidas com importados. Isto apenas se o escargot e a Soufflé au Roquefort não substituírem os humilíssimos arroz e feijão. Aí seria outra história.

Nossos maiores parceiros comerciais seriam os EUA e a Europa, finalmente. Nada de Mercosul (Argentina e Messi dão arrepios), Venezuela, Uruguai, Peru e assemelhados. Gente feia e faminta. Talvez o “Vai prá Cuba” poderia ser trocado por “Vai pra Minas”, tem mais chances de acontecer.

Irresistível seria Luciano Huck ou Fábio Jr. como ministeriáveis da Cultura. Pena que Lobão e Jair Bolsonaro por serem cariocas e por conseguinte estrangeiros, não poderiam comandar pastas. É como o Obama convidar o Putin para chefe do Pentágono.

As vantagens são muitas, sem dúvida.

Chique seria embarcar em Cumbica no saguão de voos internacionais para fazer uma simples ponte aérea para o Rio de Janeiro, mas em contrapartida sobraria tarifa de importação para consumir pão de queijo, castanha do Pará, picanha e água.

Há, no entanto, muita dúvida com relação ao futebol. O campeonato brasileiro seria substituído pelo paulista, o Audax seria um Grêmio, o Bragantino um Chapecoense e o Botafogo um Botafogo. A CBF seria trocada pela CPF, mas nada a ver com a Receita Federal.

Outra dúvida chamou a atenção. Um grupo especial de notáveis da transição questionou denominar o país e a capital com o mesmo nome. A capital do Japão não é Japão e de Portugal, não é Portugal, retrucou um dos destacados membros. Alguém soprou no canto da mesa “Tucanistão”. Ficaram de pensar.

No sentido de contribuir com o debate pensaram na cidade de Matão como capital e, nesta linha, foi indicado o nome do Coronel Telhada como patrono da nova nação.

Alguns iluminados propuseram mudar a lei para evitar constrangimentos: agredir gays com lâmpadas florescentes não é mais crime, espancar marronzinhos no trânsito também é um direito inalienável de quem estaciona em local proibido.

Para além dos percalços, há certezas. Nossos gloriosos filhos poderiam estudar no exterior gastando bem menos e com o prestigio de um diploma de fora, seja da Federal Fluminense ou da Estadual de Londrina.

Nada mais chique do que ter uma empregada doméstica estrangeira, seja ela baiana ou pernambucana. Resta saber se elas viriam, pois com toda certeza aqui elas não teriam esta imposição absurda e sem sentido de registro em carteira e direitos trabalhistas.

Nas manifestações de rua a camiseta canarinho seria proibida. Clodovil faz falta nesta hora.

Nossa moeda seria o “Casagrande” e os centavos as “Senzalas”. Quanto custa este liquidificador na Casas São Paulo (antes Casas Bahia)?  C$ 123,39 (cento e vinte e três casasgrandes e trinta e nove senzalas).

Não tenho dúvidas que podemos provar nossa superioridade intelectual. As universidades públicas (USP, UNESP e UNICAMP) seriam privatizadas e eliminaríamos de uma vez por todas esta aberração inaceitável: pobres sustentarem filhinhos de papai. Só os ricos sentariam em seus bancos e ponto final nesta anomalia.

Enfim, os paulistas poderão mostrar ao mundo o que eles já sabem de longa data: nós somos os maiores por que somos mais esforçados, trabalhamos mais e vamos à praia somente nos feriados prolongados.

Mãos à obra, vamos ao plebiscito, então…

Uma alma de boa cepa lembrou: a urna eletrônica não é paulista.

Xi, começou mal.

3 Responses to “O separatismo paulista ou virei estrangeiro no meu próprio país”

  1. Marcelo, Responder

    Excelente texto!

  2. Joel, Responder

    Excelente texto!! são momentos de reflexão!!

  3. CA, Responder

    Sempre algum infeliz tenta pregar a noção do preconceito com nordestinos e o sentimento de superioridade ao separatismo, coisa que DEFINITIVAMENTE não há no caso de SP. Texto fraco, superficial e regado por intolerância.

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