Resenha de Valsa brasileira: do boom ao caos econômico

Alexandre Marinho Pimenta – “Como a eco­nomia de um país con­ti­nental evo­luiu, em apenas sete anos, da eu­foria de um ce­nário de cres­ci­mento bem acima da média das úl­timas dé­cadas, com vi­go­rosa ge­ração de em­pregos for­mais e al­guma re­dução das de­si­gual­dades, para uma das mai­ores crises de sua his­tória?”

Esta é a per­ti­nente per­gunta que abre e mo­bi­liza mais uma in­ter­venção de Laura Car­valho no de­bate pú­blico, por meio do livro Valsa bra­si­leira: do boom ao caos econô­mico, lan­çado em maio de 2018.

Eco­no­mista de des­taque cada vez maior no ce­nário na­ci­onal, pro­fes­sora da USP e co­lu­nista da Folha de S. Paulo, Car­valho des­ponta também como emer­gente fi­gura po­lí­tica de es­querda. Atu­al­mente co­or­de­na­dora da equipe econô­mica da pré-can­di­da­tura de Gui­lherme Boulos (PSOL), a jovem au­tora pre­tende com o livro não apenas re­a­lizar uma aná­lise econô­mica de nossa tra­gédia ao al­cance do grande pú­blico, mas também es­boçar um pro­tó­tipo de pro­grama de go­verno – como se per­cebe in­di­re­ta­mente du­rante todo o livro e de ma­neira mais ex­plí­cita no ca­pí­tulo 4 – Acer­tando os passos.

Pre­missas

A di­mensão prag­má­tica não só é con­si­de­rada pela pre­tensão po­lí­tica do livro, mas é ele­vada como eixo ana­lí­tico pri­vi­le­giado. O que ca­rac­te­riza sua aná­lise do pe­ríodo pe­tista e pós-pe­tista é focar na po­lí­tica econô­mica na­ci­onal como fator ex­pli­ca­tivo fun­da­mental. Ou seja, trata-se, por um lado, de um livro que não compra as teses ex­pli­ca­tivas a partir de um pri­mado do ce­nário ex­terno e seu ciclo das com­mo­di­ties; ou da crise como fruto do ex­ces­sivo uso do Es­tado e aban­dono con­tínuo das bases econô­micas dos anos 1990; nem mesmo do pri­mado da opo­sição po­lí­tica das elites para gerar a re­cessão.

Opõe-se, assim, a eco­no­mistas e de­mais ci­en­tistas so­ciais das mais va­ri­adas ma­trizes. O pa­no­rama que pre­tende montar se faz através da con­junção entre con­textos, mais ou menos fa­vo­rá­veis, e de­ci­sões e li­nhas da po­lí­tica econô­mica, com as quais con­corda ou cri­tica. Isso, in­clu­sive, lan­çando mão de uma li­te­ra­tura não econô­mica no sen­tido es­trito, um dos as­pectos mais in­te­res­santes do livro.
Por outro lado, se tra­tando de au­tora não-mar­xista, o livro ca­rece de uma aná­lise da di­nâ­mica de mo­vi­mento, acu­mu­lação e re­pro­dução do ca­pital no país no pe­ríodo ana­li­sado. Dessa forma, estão au­sentes as classes, suas fra­ções e seus an­ta­go­nismos no ter­reno das re­la­ções de pro­dução. Assim como falta uma di­a­lé­tica mais re­fi­nada, que ul­tra­passe a aná­lise de “erros” e “acertos” das es­co­lhas po­lí­ticas e con­siga apre­ender as con­tra­di­ções sis­tê­micas do ca­pi­ta­lismo e sua ten­dência à crise.

Antes de aden­trar nesse ponto, e para qua­li­ficá-lo de forma não dog­má­tica, vol­temos à ar­gu­men­tação de Car­valho. De acordo com suas pre­missas, a au­tora de­fende uma pe­ri­o­di­zação dos go­vernos do PT e pos­te­rior crise ba­seada no mo­delo de po­lí­tica econô­mica apli­cado em cada mo­mento. Pra­ti­ca­mente o pri­meiro man­dato de Lula se re­sumiu em um prag­má­tico con­ti­nuísmo do mo­delo de tripé ma­cro­e­conô­mico de FHC, mas em ce­nário ex­terno já fa­vo­rável. Diz Car­valho (2018, p. 13): “a re­o­ri­en­tação da po­lí­tica econô­mica foi pro­mo­vida de forma amena e gra­dual. Entre 2003 e 2005, du­rante o pri­meiro go­verno Lula, a prin­cipal no­vi­dade se deu no âm­bito das po­lí­ticas de trans­fe­rência de renda, ex­pan­didas e uni­ver­sa­li­zadas com a cri­ação do pro­grama Bolsa Fa­mília”.

Aos poucos foram se con­so­li­dando as bases para, em se­guida, acon­tecer o que ela chama de “Mi­la­grinho”, prin­ci­pal­mente no Lula II. Este, di­fe­ren­te­mente do Mi­lagre Econô­mico da di­ta­dura mi­litar, não apenas foi menor, mas pos­suiu outra ca­rac­te­rís­tica sin­gular, tendo em vista sua di­nâ­mica de cres­ci­mento com “al­guma” re­dis­tri­buição de renda. Mais es­pe­ci­fi­ca­mente di­mi­nuição da de­si­gual­dade sa­la­rial, na cha­mada base da pi­râ­mide so­cial. Tendo como pi­lares fun­da­men­tais a for­ma­li­zação do mer­cado de tra­balho, o cres­ci­mento da po­lí­tica so­cial e do sa­lário mí­nimo, e o maior acesso ao cré­dito, Car­valho afirma, no en­tanto, que foi o in­ves­ti­mento pú­blico, so­bre­tudo aquele des­ti­nado à in­fra­es­tru­tura fí­sica e so­cial, “o prin­cipal motor de cres­ci­mento de nosso mer­cado in­terno” (2018, p. 24). Isso por conta de suas ca­rac­te­rís­ticas pró­prias (efeito mul­ti­pli­cador e in­dutor para in­ves­ti­mentos pri­vados) como também, no pe­ríodo em questão (2006-2010), por ter se en­con­trado com taxa de cres­ci­mento real maior que o con­sumo das fa­mí­lias, mais co­mu­mente apon­tado como o dito motor.

Li­mites

E aqui po­demos en­con­trar não um, mas dois eu­fe­mismos da au­tora em sua tese prin­cipal sobre o Mi­la­grinho: cres­ci­mento + al­guma dis­tri­buição de renda + vi­go­rosa ge­ração de em­pregos for­mais. A “al­guma” dis­tri­buição, além de fugaz e já em pro­cesso de re­versão, por ter a ca­rac­te­rís­tica acima des­crita, ri­go­ro­sa­mente, não se con­verteu em re­dução da de­si­gual­dade de fato. Ao co­mentar os fa­mosos es­tudos de Me­deiros e co­legas, e também de Morgan, a pró­pria Car­valho (2018, p. 38) fala: “em ou­tras pa­la­vras, ainda que os sa­lá­rios te­nham fi­cado menos con­cen­trados nos anos 2000 graças ao cres­ci­mento ace­le­rado dos ren­di­mentos de tra­ba­lha­dores da base da pi­râ­mide […] a renda do ca­pital cresceu ainda mais e se man­teve al­ta­mente con­cen­trada na mão dos mais ricos”. O outro eu­fe­mismo é a cha­mada vi­go­rosa ge­ração de em­pregos, ra­pi­da­mente re­ver­tida em se­guida. O as­pecto da pre­ca­ri­zação das re­la­ções de tra­balho sob o manto do “formal” some por com­pleto aqui. O “pleno em­prego lu­lista”, como sa­bemos, deu-se com a am­pli­ação da ro­ta­ti­vi­dade, da ter­cei­ri­zação e da pro­li­fe­ração de em­pregos de até 2 sa­lá­rios mí­nimos (MATTOS, 2015). A au­tora, no­va­mente, alerta-nos que a tal “al­guma” dis­tri­buição se deu con­co­mi­tante ao “cres­ci­mento de se­tores muito in­ten­sivos em mão de obra menos qua­li­fi­cada” (CAR­VALHO, 2018, p. 38).

Mas o “mo­mento glo­rioso”, in­clu­sive se to­mado o ponto de vista fiscal e in­fla­ci­o­nário, não de­mo­raria a apre­sentar fendas mais graves. A de­te­ri­o­ração da ba­lança co­mer­cial fora um dos frutos in­de­se­já­veis do Mi­la­grinho, por exemplo. O di­na­mismo do mer­cado in­terno não foi acom­pa­nhado nem im­pul­si­onou uma di­ver­si­fi­cação da es­tru­tura pro­du­tiva. Con­co­mi­tan­te­mente, o grande cres­ci­mento do setor de ser­viços con­tinha um po­ten­cial in­fla­ci­o­nário es­pe­cí­fico e pro­ble­má­tico. Sem contar a já re­fe­rida (não) dis­tri­buição de renda, ali­vi­ando as classes do­mi­nantes. A in­sus­ten­ta­bi­li­dade do mo­delo co­meçou a se evi­den­ciar mais no pe­ríodo pós-Ma­ro­linha, quando o ce­nário ex­terno inicia uma re­versão , e cuja eu­fó­rica re­cu­pe­ração es­condia ques­tões mais pro­fundas que a pró­xima ro­dada do PT no poder, então com Dilma, de­veria en­frentar.

E, para Car­valho (2018, p. 46), aí co­meça o grande “erro”, o passo ao lado e não adi­ante, do PT: a su­pe­ração desses li­mites (des­critos acima) exigia en­carar de frente os con­flitos mais acir­rados, de modo a con­ferir maior so­lidez aos pi­lares do mo­delo [do Mi­la­grinho]. In­fe­liz­mente, o ca­minho es­co­lhido a partir de 2011, em­bora tenha par­tido do en­fren­ta­mento de al­guns desses con­flitos, acabou le­vando também à subs­ti­tuição de al­guns eixos im­por­tantes da po­lí­tica econô­mica do Mi­la­grinho por um con­junto de me­didas ine­fi­cazes.

A in­tenção de en­fren­ta­mento, caso se junte com as es­co­lhas e me­didas efe­ti­va­mente to­madas, im­pos­si­bi­lita, se­gundo a au­tora, dizer que se viveu, no Dilma I, qual­quer tipo de de­sen­vol­vi­men­tismo. In­clu­sive, na in­tro­dução, quando fala pro­vi­so­ri­a­mente de certo tipo de de­sen­vol­vi­men­tismo apli­cado por Dilma I, a au­tora pede “des­culpas” a Raúl Pre­bisch e a Celso Fur­tado por usar o termo de forma exa­ge­rada. Isso a apro­xima de sua co­lega de USP, Leda Pau­lani (2017, p. 98): su­ma­ri­a­mente pode-se dizer que o re­sul­tado efe­tivo disso que veio a ser cha­mado, pró­pria ou im­pro­pri­a­mente, de ‘nova ma­triz ma­cro­e­conô­mica’, foi a troca de in­ves­ti­mento pú­blico por uma aposta na re­to­mada do in­ves­ti­mento pri­vado que acabou não ocor­rendo. Daí a di­fi­cul­dade de se de­no­minar tal po­lí­tica de de­sen­vol­vi­men­tista, seja neo, novo, ou so­cial o pre­fixo que se an­te­ponha ao termo.

Ao invés de in­ventar pre­fixos ou ad­je­ti­va­ções vá­rias, Car­valho de­no­mina o mo­delo que segue o Mi­la­grinho de Agenda FIESP (vale lem­brar, as­si­nada em vá­rios mo­mentos pela CUT e ou­tras cen­trais sin­di­cais). Essa Agenda, que bus­cava elevar a com­pe­ti­ti­vi­dade da in­dús­tria na­ci­onal, ba­seou-se na des­va­lo­ri­zação do real, em fortes de­so­ne­ra­ções tri­bu­tá­rias para os in­dus­triais, na re­dução brusca da taxa de juros, no uso in­ten­sivo do BNDES e no con­trole de ta­rifas e preços (como a de energia elé­trica). A aposta no in­ves­ti­mento pú­blico an­te­rior, se­gundo a au­tora, é tro­cada pelo pri­vado; o mer­cado in­terno pelo ex­terno.

Em vez de re­forçar os “pi­lares” do Mi­la­grinho, através uma po­lí­tica in­dus­trial mais clara, e um tra­ta­mento cor­reto da in­flação de ser­viços e da de­si­gual­dade per­sis­tente, a “nova ma­triz econô­mica” se tornou em uma aven­tura de­sas­trosa em con­se­cu­tivos ca­pí­tulos. Apesar do con­junto cada vez mais amplo e ili­mi­tado de be­nesses es­ta­tais (os de­sem­bolsos do BNDES a taxas de juros ne­ga­tivas che­garam a R$500 bi­lhões, en­quanto o total de de­so­ne­ra­ções tri­bu­tá­rias no pe­ríodo chegou a mon­tante equi­va­lente), uma am­pli­ação do in­ves­ti­mento pri­vado es­pe­rado não che­gava: com am­pli­ação dos es­to­ques e o grande en­di­vi­da­mento das em­presas, em sua mai­oria também já fi­nan­cei­ri­zadas, a in­ter­venção es­tatal servia efe­ti­va­mente para a ma­nu­tenção ime­diata das mar­gens de lucro.

No fim, o en­fren­ta­mento se re­velou um en­godo: em vá­rios as­pectos o novo mo­delo de po­lí­tica econô­mica foi apenas uma gi­gan­tesca trans­fe­rência de renda para os mais ricos via, di­reta e in­di­re­ta­mente, di­nheiro pú­blico. Sendo, assim, mais fácil com­pará-la a es­tra­té­gias pro­mo­vidas por Re­agan ou Trump, como faz a au­tora. Dessa forma, Car­valho di­verge da fa­mosa tese de Singer (2018) sobre o “cu­tucar das onças” — na qual foi o amplo en­fren­ta­mento de Dilma que cons­truiu sua opo­sição bur­guesa uni­tária e an­ti­de­sen­vol­vi­men­tista e sua pos­te­rior ex­pulsão do Pla­nalto. Isso porque, “a in­ter­pre­tação de Singer pa­rece partir do pres­su­posto de que as po­lí­ticas im­ple­men­tadas iam na di­reção cor­reta e te­riam sido bem su­ce­didas em co­locar a eco­nomia nos eixos caso ti­vessem sido man­tidas. O boi­cote a essas po­lí­ticas é que seria res­pon­sável pelo seu fra­casso” (CAR­VALHO, 2018, p. 64). A opo­sição à “nova ma­triz econô­mica” não veio por ser su­pos­ta­mente pro­gres­sista, de algum modo “de­sen­vol­vi­men­tista”, mas pela ine­fi­cácia e in­sus­ten­ta­bi­li­dade econô­mica a médio e longo prazo.

De­pois, em plena re­cessão e crise po­lí­tica, quando os pró­prios be­ne­fi­ciá­rios do úl­timo pe­ríodo se tor­naram em seus al­gozes, Dilma fi­na­liza sua pas­sagem pelo Pla­nalto com um pa­cote de aus­te­ri­dade ra­dical (“es­te­li­o­nato elei­toral”). Eli­mi­nando assim, o que res­tava das bases do Mi­la­grinho. Esse mesmo pa­cote seria ado­tado pelo seu subs­ti­tuto, Temer, “o passo atrás” em nossa de­mo­cracia, como ela diz. E não apenas, em nossa eco­nomia também, que só deve se re­cu­perar lá por 2020-2021 — não in­cluindo aqui a re­cu­pe­ração das con­di­ções de vida dos tra­ba­lha­dores. Não é pre­ciso muito es­forço para ver o quanto essa frente aus­tera pós-2014 não cum­priu suas “pro­messas” (ti­rando a in­flação), nem de re­tomar cres­ci­mento, ou con­trolar quadro fiscal, muito menos de es­tancar a san­gria e por fim à crise po­lí­tica. Por fim, Car­valho não vê no atual ce­nário de fundo do poço ne­nhum pilar que con­siga ser res­pon­sável por um novo ciclo de cres­ci­mento.

Uma crí­tica dentro da ordem

Como a eco­no­mista propõe tirar o país do bu­raco po­lí­tico, econô­mico e so­cial? As pro­postas são va­ri­adas, e en­volvem uma re­forma tri­bu­tária, maior in­ves­ti­mento pú­blico em in­fra­es­tru­tura, além de es­tí­mulo à tec­no­logia, dentre ou­tras. Tudo in­du­zido pela po­lí­tica econô­mica. No en­tanto, com bases so­ciais e po­lí­ticas ques­ti­o­ná­veis. Afinal, um pro­jeto po­lí­tico re­quer or­ga­ni­zação e força po­lí­tica, so­bre­tudo se afronta in­te­resses das classes do­mi­nantes: con­ven­ci­mento e com­pro­vação de efi­cácia econô­mica e su­postas con­ver­gên­cias entre ca­pital-tra­balho, para agradar, elei­to­ral­mente, gregos e troi­anos, nem de longe são su­fi­ci­entes.

Nas tais su­postas con­ver­gên­cias, en­con­tramos uma das mais gri­tantes con­tra­di­ções per­for­má­ticas da au­tora. Em sua crí­tica in­di­reta aos es­pa­da­chins do “novo-de­sen­vol­vi­men­tismo”, Car­valho (2018, p. 48), ao ana­lisar o Dilma I, en­xerga um pouco (sendo bem ge­ne­roso) de an­ta­go­nismo na am­pli­ação da ex­plo­ração como meio para re­cu­pe­ração ca­pi­ta­lista: para de­sen­volver se­tores novos com bom de­sem­penho ex­por­tador, a des­va­lo­ri­zação do real teria de ser muito maior e du­ra­doura. E mesmo assim, a mag­ni­tude da des­va­lo­ri­zação ne­ces­sária para que o país con­se­guisse com­petir com países asiá­ticos na ex­por­tação de bens ma­nu­fa­tu­rados, por exemplo, talvez exi­gisse uma re­dução de sa­lá­rios in­com­pa­tível com o re­gime de­mo­crá­tico.

Re­gime de­mo­crá­tico pode ser lido como ex­plo­ração do tra­balho com mí­nima apa­rência ci­vi­li­zada. Mas, em outro mo­mento, vê-se que as dicas de Car­valho (2018, p. 36-38) ao ca­pital não di­ferem tanto do puro ar­rocho ao tra­balho como ala­vanca econô­mica: uma forma mais de­se­jável de com­pa­ti­bi­lizar cres­ci­mento de sa­lá­rios e es­ta­bi­li­dade de preços é ali­viar o con­flito dis­tri­bu­tivo entre tra­ba­lha­dores e ca­pi­ta­listas por meio de um cres­ci­mento maior da pro­du­ti­vi­dade do tra­balho. Em ou­tras pa­la­vras, deixar crescer os sa­lá­rios pode não elevar o custo com a mão de obra se menos tra­ba­lha­dores ou menos horas de tra­balho forem ne­ces­sá­rios para pro­duzir uma mesma uni­dade do pro­duto. […] Além disso, o alívio do con­flito dis­tri­bu­tivo e das pres­sões in­fla­ci­o­ná­rias pode se dar por meio de me­lho­rias nos ser­viços pú­blicos. […] Nem toda in­clusão pre­cisa se dar via renda.

Cer­ta­mente, Marx daria ou­tros nomes (e ad­je­tivos) às re­co­men­da­ções de Car­valho. Assim como po­deria co­mentar sobre as con­tra­di­ções ge­radas neste pro­cesso de “in­clusão” e “alívio” um tanto flo­reado pela au­tora.

E nesse mo­mento de “ajuste de passos” é que po­demos iden­ti­ficar mais ex­pli­ci­ta­mente a fra­queza cons­ti­tu­tiva não só em seu prog­nós­tico, mas, re­tros­pec­ti­va­mente, em seu di­ag­nós­tico. Ao de­correr de sua ar­gu­men­tação, o ele­mento vo­lun­ta­rista, sub­je­tivo dos agentes es­ta­tais (es­co­lhas, me­didas, ações) se mostra causa pri­vi­le­giada da di­nâ­mica econô­mica. Não se con­si­deram, assim, como pre­ten­dido pela aná­lise mais com­plexa da crise, de forma con­sis­tente, as di­men­sões es­tru­tu­rais e cí­clicas de um ca­pi­ta­lismo pro­fun­da­mente glo­ba­li­zado e su­bor­di­nado que li­mitam em de­masia a po­lí­tica econô­mica, e em vá­rios mo­mentos a (sobre)de­ter­minam.

Ob­vi­a­mente, Car­valho con­si­dera os fenô­menos fun­da­men­tais do ce­nário in­ter­na­ci­onal, por exemplo, mas para voltar o foco de sua crí­tica às po­lí­ticas econô­micas er­rô­neas, tendo como pres­su­posto que os li­mites ex­ternos a estas po­de­riam ser su­pe­rados. E o peso para esse ce­nário também se mostra pe­queno: a eco­nomia chi­nesa, por exemplo, entra apenas uma vez para in­te­grar à sua ex­pli­cação, não obs­tante tenha sido a res­pon­sável pelo su­per­ciclo de com­mo­di­ties; seja a maior par­ceira co­mer­cial do país, tanto na ex­por­tação quanto na im­por­tação; e es­teja am­pli­ando ex­po­nen­ci­al­mente seus in­ves­ti­mentos no país.

A pa­lavra China não é ci­tada. Sua pe­ri­o­di­zação via po­lí­tica econô­mica faz a crise de 2008 pra­ti­ca­mente de­sa­pa­recer como se fosse um evento menor e in­digno de mai­ores con­si­de­ra­ções: “a crise de 2008 di­fi­cil­mente apa­rece como um di­visor de águas” (CAR­VALHO, 2018, p. 63). O que se su­cedeu no ime­diato pós-crise de 2008, po­demos supor, para a au­tora, não se tratou de uma bolha das com­mo­di­ties — uma la­cuna, sem dú­vida, im­por­tante para en­ten­dermos esse pe­ríodo da eco­nomia na­ci­onal. Em con­tra­po­sição, se re­corre a uma de­zena de en­tre­vistas para su­pos­ta­mente se en­con­trar as raízes do caos econô­mico. “Pouco de azar, [porém] erros sig­ni­fi­ca­tivos”, é a pre­o­cu­pante do­sagem (em lin­guagem um tanto ina­pro­priada para fa­tores ob­je­tivos e sub­je­tivos) feita pela au­tora no início do livro para ex­plicar a crise bra­si­leira.

Al­ter­na­tivas

Se, por um lado, o en­foque de Car­valho na po­lí­tica econô­mica nos per­mite avançar contra as teses que ainda in­sistem em en­xergar es­pec­tros de­sen­vol­vi­men­tistas, so­bre­tudo no pe­ríodo Dilma, por outro, pa­rece não con­se­guir se sus­tentar por in­teiro sua in­ves­tida. O re­cente livro do Ins­ti­tuto de Eco­nomia da Uni­camp, Para além da po­lí­tica econô­mica, a nosso ver, possui uma “tese me­to­do­ló­gica” (CAR­NEIRO, 2018, p. 11) mais con­sis­tente e pro­du­tiva para en­tender a valsa bra­si­leira re­cente (in­clu­sive através de uma chave mar­xista ): “en­tender a tra­je­tória his­tó­rica de qual­quer eco­nomia como a sín­tese de as­pectos es­tru­tu­rais, cí­clicos e de po­lí­tica econô­mica”.

O livro, por exemplo, con­segue dar mais atenção aos dois pri­meiros as­pectos en­quanto (sobre)de­ter­mi­nantes deste úl­timo. Afinal, como pensar nas de­ci­sões (de con­sequên­cias opostas!) de Dilma sem os ele­mentos es­tru­tu­rais como a in­serção as­si­mé­trica do Brasil das ca­deias glo­bais de valor em novo con­texto da eco­nomia e in­dús­tria chi­nesa pós-crise?

O ca­pi­ta­lismo, ainda mais o nosso, é muito mais que um pro­grama de go­verno. De­certo Car­valho o sabe. Mas as es­co­lhidas vestes ima­gi­ná­rias de mi­nistra pa­recem pesar mais do que a de ci­en­tista. Tais quais as vestes do Papa Ur­bano VIII pe­saram para que o es­cla­re­cido Maffeo Bar­be­rini se tor­nasse o algoz de Ga­lileu.

Notas:

1) O que, por si só, ques­tiona o des­carte apres­sado do ce­nário ex­terno como um dos ele­mentos de­ter­mi­nantes da con­jun­tura econô­mica do­més­tica pela au­tora. Vol­ta­remos a esse ponto

2) Con­tudo, ela se dis­tancia de Car­valho ao não ver pro­jeto algum no pe­tismo: “o pe­ríodo lu­lista, sem pro­jeto e sem pla­ne­ja­mento, ca­mi­nhou ao sabor da con­jun­tura, sem ame­açar o status quo” (PAU­LANI, 2017, p. 91).

3) Apesar de, no caso de Car­neiro e ou­tros no livro, se man­terem na pro­ble­má­tica da eco­nomia po­lí­tica, como diria Ba­libar, e até abra­çarem o termo de­sen­vol­vi­men­tismo, ao con­trário de Car­valho. Abraço sui ge­neris, no en­tanto. Car­neiro (2018, p. 26), por exemplo, vê de­sen­vol­vi­men­tismo na “re­con­fi­gu­ração de preços re­la­tivos ma­cro­e­conô­micos para in­duzir o in­ves­ti­mento pri­vado, com­bi­nado com ins­tru­mentos e in­cen­tivos se­to­riais de alto im­pacto (Pe­tro­bras), am­pli­ação de in­fra­es­tru­tura e apoio dos bancos”. Por outro lado fala “esses nú­meros [de in­ves­ti­mentos pú­blicos] não se com­param, nem de longe, com os va­lores ob­ser­vados nas dé­cadas de­sen­vol­vi­men­tistas. Ade­mais, há uma di­fe­rença qua­li­ta­tiva es­sen­cial na sua com­po­sição” (2018, p. 42). In­clu­sive boa parte destes in­ves­ti­mentos “pouco efe­tivos para a re­o­ri­en­tação da es­tru­tura pro­du­tiva” (2018, p. 43). Por fim, acaba seu ar­tigo di­zendo: “não há mais, tout court, Es­tado de­sen­vol­vi­men­tista no Brasil e muito menos uma classe em­pre­sa­rial cujos in­te­resses es­tejam atre­lados ao des­tino do país. O fra­casso do ex­pe­ri­mento de­sen­vol­vi­men­tista su­gere uma fi­nan­cei­ri­zação e in­ter­na­ci­o­na­li­zação ele­vada dos seg­mentos pro­du­tivos” (2018, p. 51).

Re­fe­rên­cias

CAR­NEIRO, Ri­cardo. Na­ve­gando a con­tra­vento: Uma re­flexão sobre o ex­pe­ri­mento de­sen­vol­vi­men­tista do go­verno Dilma Rous­seff. In: ______.;

BALTAR, Paulo; SARTI, Fer­nando (Org.). Para além da po­lí­tica econô­mica. São Paulo: Edi­tora Unesp Di­gital, 2018.

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http://www.correiocidadania.com.br/2-uncategorised/13401-resenha-de-valsa-brasileira-do-boom-ao-caos-economico

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