Caindo a máscara

Vladimir Safatle – Com a estabilização dos votos em Jair Bolsonaro e a inanição de outros candidatos conservadores, o Brasil começa a ver a máscara cair. Aos poucos, setores do empresariado nacional, dos pequenos comerciantes, das classes tradicionalmente privilegiadas e das igrejas aparecem para expor sua adesão à brutalidade do protofascismo nacional. De fato, esse fenômeno é recente. Quando empresários da CNI aplaudem alguém como Bolsonaro, eles estão a dizer que não estão mais dispostos a pacto social algum, que confiam agora que ganharão em um confronto aberto com seus empregados e com os grupos que procuram, ao menos, regular os excessos do processo produtivo.

Conflitos trabalhistas poderão ser resolvidos a bala, fazendeiros poderão passar por cima de licenças ambientais com trator, qualquer traço de solidariedade social poderá ser chamado impunemente de vitimismo.

Pouco importa qual é, de fato, o “programa econômico” do candidato ou suas promessas. Liberalismo e protecionismo poderão andar de mãos juntas, já que a questão realmente não passa por aí. Ela passa pelo desejo inconfesso de esconjurar toda e qualquer possibilidade de transformação da sociedade brasileira. Da mesma forma que Bolsonaro parece ter fixação em banheiros masculinos e femininos, seu eleitorado se volta contra qualquer coisa que pareça colocar a sociedade brasileira fora do eixo de suas formas tradicionais de reprodução.

Nada disso seria compreensível sem lembrarmos dos desdobramentos de 2013. As manifestações de 2013 expuseram a possibilidade de abalar os alicerces do poder governamental brasileiro em profundidade.

Prédios públicos foram queimados, carros de imprensa foram virados, o país viu 2.030 greves em apenas um ano e manifestações todos os dias, ao menos até o mês de novembro.

No entanto toda verdadeira possibilidade de transformação traz no seu bojo sempre uma outra possibilidade, a saber, a emergência de um sujeito reativo. Esse sujeito reativo será composto por aqueles que, diante da decomposição virtual da adesão ao poder, aumentam ainda mais sua violência a fim de fazer a roda girar para trás.

Diante da possibilidade de uma mutação no conceito de “força” que dá forma à democracia —esta “força do povo”—, haverá aqueles que procurarão recolocar a força em seus fantasmas mais hierárquicos e soberanos.

Contra uma força que se metamorfosearia em dissolução do centro, em destituição do poder e na abertura a uma sociedade descontrolada, haverá sempre aqueles que procurarão a segurança paranoica de uma força que é adesão a um corpo social unitário, estático e violento.

Soma-se a isso o fato de essa regressão social poder agora ser vendida sob a forma de revolta anti-institucional, do poder que não respeita mais as negociações necessárias à “governabilidade” corrompida.

Não foram poucos aqueles que perceberam que, nos tempos presentes, a extrema direita consegue se colocar como o discurso da ruptura, enquanto os setores progressistas se apresentam como o discurso da preservação (de direitos, de pactos, de garantias).

Em uma sociedade que apresenta a consciência tácita de que suas instituições e sua “democracia” fracassaram, essa mistura de reação e ruptura é extremamente atraente para alguns.

Por isso, há de se admitir que o fenômeno Bolsonaro não desaparecerá do cenário político brasileiro, mesmo se seu representante-mor for trocado por uma figura mais palatável a certos setores da sociedade brasileira.

Esse desrecalque protofascista é um encontro do país com uma parte de si mesmo. Esse encontro ganha agora uma função maior para a definição do futuro. De nada adiantará tentar fazer um jogo miserável entre “radicalização” e “moderação”, entre “discurso do ódio” e “discurso do vamos viver juntos”.

Como dizia Jean Baudrillard (que tem ao menos o mérito de uma bela frase), “melhor morrer pelos extremos do que pelas extremidades”.

http://www.ihu.unisinos.br/580835-caindo-a-mascara

Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controvérsia e escreve semanalmente.

3 comentários para “Caindo a máscara”

  1. Natan, Responder

    Eu acho interessante e preocupo pois percebe se a manipulação dos fatos atos inversões aos princípios éticos e morais. Escondendo a verdade das coisas e só resta confusão falácia e perturbações. O nosso povo brasileiro é muito descansados não valorizando a busca por seus direitos e deveres jogando fora o toma lá dá cá. Porém já vi e percebi mudanças na mentalidade porém é preciso muito pra que direitos iguais onde a lei justiça equidade seja realmente o equilíbrio pra viver em dignidade.

  2. Gabriel, Responder

    Bom texto!

  3. Luis Hipolito Borges, Responder

    O professor Vladimir Safatle, da USP, já em setembro de 2017, teve grande repercussão na mídia brasileira ao alertar: “Não haverá 2018”. Ele afirmava que é impossível que a normalidade democrática voltasse depois de um governo reprovado por 93% da população. Posto aqui um trecho de sua entrevista ao jornal O Povo, de Fortaleza (CE) do Seminário Futura Trends – 2017: “O POVO – O senhor tem alertado que o Brasil não terá eleições presidenciais em 2018. Por quê?

    SAFATLE – Não haverá 2018. Primeiro porque não há como o país voltar a uma normalidade política depois de ficar dois anos na mão de um presidente que é reprovado por mais de 90% da população, um Congresso Nacional indiciado e profundamente oligárquico e um Judiciário contraditório. A cada dia fica mais claro isso, que o País vive uma espécie de guerra civil entre quem tomou o controle do Estado brasileiro e a população. Essa hipótese hoje tem várias formas de tomar prática. A primeira é uma eleição comprometida, uma eleição “bielorrusa” onde você impede de concorrer todos os candidatos que têm chance de ganhar e que não fazem parte do núcleo hegemônico do poder atual. De outro lado você tem a velha opção do parlamentarismo, que é o sonho de consumo das oligarquias locais, eliminando a eleição presidencial de vez. E é importante que o brasileiro não se confunda, nós não temos o parlamento sueco. O nosso parlamento, pelo contrário, foi sempre caixa de ressonância de oligarquias, com seus interesses próprios. E, por fim, não se dá para descartar hoje uma guinada mais explicitamente autoritária. O que não pode ser descartado em nenhum momento”. https://www.opovo.com.br/jornal/paginasazuis/2017/09/vladimir-safatle-o-filosofo-para-quem-nao-havera-eleicao-em-2018.html

    Portanto, tudo o que ele disse está acontecendo.

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