Eleições 2018: liberalismo autoritário e o fim do futuro

Diego Tavares A conjuntura aponta para uma unidade prática entre as expressões políticas e eleitorais da direita: o autoritarismo. Propostas de destruição do estado social virão acompanhadas de repressão ante a eminente resistência popular. Nesse sentido aprofunda-se a contradição entre capitalismo e democracia.

Liberalismo e autoritarismo

O neoliberalismo leva ao fim do futuro e a necessidade de gerenciamento de uma crise social crônica. Nas últimas décadas pensou-se que o liberalismo econômico estaria inevitavelmente associado ao liberalismo político e apenas ocasionalmente exigiria austeridade econômica como medida amarga temporária que levaria em seguida ao crescimento. Todavia, nos marcos da crise estrutural do capital não há mais saída para a crise, logo não há mais saída do ajuste. Armínio Fraga, guru neoliberal, em recente entrevista à Folha de São  Paulo, defende a perenidade da austeridade e critica a velha noção de temporariedade do ajuste. Em sua ótica, em tempos neoliberais, é melhor aceitar a miséria como parte da paisagem. A narrativa deste projeto de aprofundamento da hegemonia do capital privado sugere a espoliação, a explosão da rebeldia (ainda que inicialmente desorganizada) e a criminalização da luta social como desfecho. Se no longo prazo o capitalismo precisa da regulação estatal, as imposições contraditórias do presente levam-no a empenhar o futuro. Por meio da manutenção de um sistema político pautado na regressividade tributária e na entrega do orçamento às grandes corporações, os liberais esgarçam a legitimidade do Estado, restando ao poder político neoliberal pouco mais que a repressão como forma de governo. A tendência da unidade prática entre liberais e autoritários, faz Bolsonaro buscar apoio junto a elite econômica, enquanto esta flerta com o autoritarismo como compressor da rebeldia contra o retrocesso social. Nas eleições de outubro, a direita que se viabilizar (Meirelles, Alckmin, Bolsonaro ou qualquer outra figura), inevitavelmente mobilizará o autoritarismo como forma de gestão econômica liberal das “multidões perigosas”, cujas demandas sociais são convertidas em acusações de terrorismo.

Lula, Ciro e o esgotamento do centro

Lula está preso por que não é mais necessário ao sistema. A conciliação tornou-se impossível, inutilizando o conciliador. Do ponto de vista do grande capital privado, se com as massas não há mais diálogo, seu interlocutor torna-se desnecessário. Pior: ainda que Lula acene com “mais do mesmo” e repactuação, se estiver livre há o receio de que a conjuntura o force a usar sua popularidade para manter pequenos ganhos sociais penalizando segmentos pontuais do grande capital privado. O fato, entretanto, é que não há mais espaço para entregar tal promessa. A voracidade do capital impede qualquer acordo. Ciro Gomes parece não ter entendido porque há algumas semanas foi hostilizado por industriais na FIESP enquanto lhes propunha um programa industrialista fundado na regulação do mercado financeiro. Se num primeiro plano a postura destes empresários parece incompreensível, o fim das possibilidades de pacto social indicam que os industriais esperam seu naco do orçamento à custa do estado social e não da redução das vantagens de seus parceiros de classe. Se não aceitam nem Lula com seu trunfo de apoio popular, quanto mais Ciro, um líder notavelmente mais fraco. Estes industriais não acreditam em privilégios para si em detrimento do capital financeiro e do agronegócio, por isso optam por Bolsonaro e suas bobagens, certos de que apesar de tudo, é o único que, por não ter compromissos com a civilidade, pode entregar algum industrialismo, especulação financeira e privilégios ao agronegócio sob uma chuva de bombas de gás lacrimogêneo. Ainda não há unidade política entre os diversos segmentos do capital, exceto quanto ao fato de que a próxima  liderança deverá ser impetuosa contra as camadas populares. Nesse ínterim, Alckmin se perde entre a direita e o centro, enquanto o silêncio de Marina Silva explica-se provavelmente por ela não ter muito a dizer. Mundo afora há uma profunda crise do centro político justamente pela impossibilidade de cumprir suas promessas de conciliação numa época de guerra social.

Desregulação econômica e barbárie

Os liberais autoritários reafirmam a velha aliança entre a burguesia nacional submissa e a burguesia internacional imperialista, só que agora estão despidos de projetos de desenvolvimento nacional típicos da década de 1950 e 1960. Do projeto de FHC restou a meta de valorização do capital, todavia, abandonou-se a forma “soft”, preocupada com a construção democrática de uma ordem liberal. Diante das dificuldades de liberalizar e desregular as instituições pela via democrática, apelou-se ao golpe e a selvageria. A “ponte para o futuro” do capitalismo exige desregulação brutal e desmonte da institucionalidade que racionalizava a exploração. Por isso, para os liberais autoritários, é hora do congelamento de investimentos em saúde e educação por vinte anos, das propostas de desvinculação total das receitas orçamentárias, da aceitação de formas modernas de trabalho escravo, do fim dos direitos trabalhistas, da ameaça aos direitos previdenciários e até mesmo da aceitação de veneno na comida para agradar o agronegócio e a indústria química. Defendem o “bolsa empresário” ao mesmo tempo em que impõem cercos militares a guetos sociais, prisões arbitrárias e fazem vistas grossas a assassinatos que atingem não só os mais pauperizados (como, ademais, sempre ocorreu), mas também seus adversários políticos, como denota o caso de Marielle Franco. A eventual vitória eleitoral dos liberais autoritários legitimará o permanente estado de sítio social, a incivilidade e a imposição forçada dos interesses do capital, num cenário semelhante ao golpe de 1964, com a diferença de que aí um modo de regulação liberal foi imposto (a partir de inúmeras mudanças legislativas no período ditatorial) para derrotar o apelo popular por reformas estruturais. Agora pretendem impor outra agenda: dada a urgência da entrega dos recursos orçamentários ao capital privado, o poder econômico exige a desregulação total, não tolerando sequer a “pax lulista”. O candidato do capital nas eleições de outubro de 2018 será, portanto, autoritário e será quem oferecer maiores chances de vitória para o projeto de espoliação social que segue em curso. O cálculo é pragmático e imediatista. Pouco importa que a pessoa eleita tenha enormes dificuldades para governar, afinal, o esfarelamento da república brasileira – e o esgotamento dos grandes partidos que punham ordem ao caos – deve fortalecer a miríade fisiológica que elevará exponencialmente os custos políticos da governabilidade. Ao capital tudo se resume à urgência da ampliação dos lucros privados ainda que isso custe a democracia e o futuro. Desse ponto de vista, o “amanhã” e suas crises são apenas problemas futuros a gerenciar de forma cada vez mais violenta.

Para o capital privado o momento é de guerra social e vale tudo para vencê-la, desde a violência até a exploração política do absurdo. No horizonte, Trump enjaula crianças imigrantes e torna-se exemplo para seus seguidores brasileiros. De outra parte, o esfacelamento progressivo de todas as instituições modernas rumo a consecução de metas políticas urgentes quebrou o compromisso com a racionalidade que é intrínseca a institucionalidade. É nessa chave que se imiscuem MBL, Bolsonaro e o malabarismo argumentativo dos membros do sistema de Justiça. Em épocas como a atual, pouco importa o discurso racional, de maneira que o descrédito das instituições sociais, políticas e culturais que chancelavam a verdade, ajuda a criar o cenário da “pós verdade”, das fake news e das decisões judiciais sem provas mas pautadas em convicções. “Terra plana” e “nazismo de esquerda” são as faces cômicas da farsa que se tornou a modernidade. Diante da urgência da vitória, a burguesia apostará em qualquer saída que possa lhe garantir êxito político, ainda que irracional, temporário e pontual. As apostas se alteram com a mesma fluidez do capital financeirizado: entre 2005 e 2016, o tucanato e outras figuras da direita liberal apostaram na mobilização da ultradireita para emplacar seu voo ao poder central, todavia, acabaram atolados em corrupção, foram ultrapassados pelos fascistas e desapareceram do espectro político. Em 2018 a direita que ganha espaço é abertamente estúpida, autoritária e enceta discursos de ódio como prenúncio das vítimas sociais que darão concretude ao permanente estado de sítio social que se avizinha.

A atualidade da luta democrática e popular

Com a agressividade do capital e suas expressões eleitorais, a luta popular converteu-se na única e talvez última defensora legítima da democracia e da cidadania. Contudo, isso aponta para uma nova forma de sociabilidade que não pode mais incluir acordos com setores do grande capital privado, afinal são exatamente esses segmentos que tem apostado na dilaceração social. Do ponto de vista programático, continua atual que diante da impermeabilidade do Estado e do capitalismo às demandas populares, a luta por reformas estruturais e radicais seja a síntese que pode construir a unidade do campo popular e mobilizar o povo brasileiro para tornar-se protagonista de grandes transformações sociais. Prometeu-se o fim da história sob o triunfo do capitalismo, mas os liberais autoritários entregam o fim do futuro e a prisão à aridez do presente. Diante disso, a maior potência da esquerda é de que ela é a única que pode articular a esperança e viabilizar o futuro.

Professor e advogado. Mestre e doutorando em Sociologia pela USP.

7 comentários para “Eleições 2018: liberalismo autoritário e o fim do futuro”

  1. Lauriceu Tavares, Responder

    Lula nao esta preso por que nao e mais necessario ao sistema. Lula esta preso porque ousou a implementar o minimo de transferencia de renda para os mais pobres e acredito que que qualquer agremiacao politica que visa fazer mudancas na logica burguesa e dentro das suas propriad regras estara em devaneios!

  2. Lauriceu Tavares, Responder

    Lula mao esta preso por nao ser mais util ao sistema. Pelo contrario, Lula esta preso porcyer ousado transgredir as normas burguesas para implementar o minimo de justica social. E a meu ver e pura utopia que qualquer agremiacao politica que dispute eleicoes dentro das regras burguesas possa fazer intervencoes significativas sem ceder e/ou fazer aliancas e/ou conciliacoes.

  3. Lauriceu Tavares, Responder

    Lula nao esta preso por que nao e mais necessario ao sistema. Lula esta preso porque ousou a implementar uma politica de transferencia de renda para os mais pobres. Como nao tinha maioria no CONGRESSO acabou por compra-los (mensalao). Acredito que qualquer agremiacao politica que visa fazer mudancas significativas e dentro das proprias regras burguesas estara em devaneios!

  4. Luis Hipolito Borges, Responder

    Parabenizo o professor Diego Tavares pelo excelente e esclarecedor artigo. Pode-se discordar nos detalhes, mas o o que foi escrito reflete os acontecimentos nos últimos anos, em particular no Brasil e América Latina. Confere com tudo que tenho lido e publicado nos meus comentários na Tribuna da Internet.

  5. Bechelli, Responder

    Ótimo texto Diego, como de costume você faz uma análise que dá gosto de ouvir/ler. Gostei bem do quarto parágrafo. Tocar na questão da pós-verdade, do esvaziamento substancial dos discursos, da irracionalidade para onde estamos caminhando é fundamental para entendermos os mecanismos em ação.
    Um abraço!

  6. Antonio Henrique Dantas Silva, Responder

    Excelente o artigo do Professor Diego Tavares, nos mostra o futuro sombrio que nos espera, quando era estudante do curso de Geografia na Universidade Estadual de Feira de Santana, me recordo de uma professora de Regionalização II que dizia que estaríamos nesse caminho cedo ou tarde, isso foi em 1996, e como podemos ver chegamos a esse portal do Tártaro, não há mais retorno, além de que, o povo está imerso na apatia, vamos nos preparar para o recrudescimento da ditadura que está chegando insidiosamente, lasciate ogni speranza, voi ch’entrate !

  7. Andre Alcantara, Responder

    Os liberais também fazem análise de riscos sociais, pois a convulsão popular trás prejuízos aos seus interesses

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