Reino Unido fora da UE evidencia crise do neoliberalismo

Ricardo Alvarez – O Plebiscito que deu vitória ao Brexit – saída do Reino Unido (RU) da União Europeia (UE) – mostrou o quão dividido estão os britânicos sobre o assunto, mas o que chama mesmo a atenção é que as políticas de austeridade e de Estado Mínimo se esgotaram no continente europeu e no mundo.

Um bloco e duas estruturas

Nesta quinta, 23 de junho, a União Europeia sofreu o maior tombo desde que se levantou no pós guerra na forma de bloco. Num plebiscito sobre sua permanência na União Europeia (UE) os secessionistas ganharam, apesar da espremida diferença (52% a 48%). Numa leitura rasteira pode-se apontar o dedo para a vitória do isolacionismo e do nacionalismo, creio porém, que o buraco é mais embaixo.

A UE germina da semente da guerra. Da Segunda Guerra Mundial. Era preciso criar um ambiente propício para que os negócios pudessem fluir e o capital fazer o seu giro sem as amarras do conflito entre as nações. Os EUA estimulam a “pax norte-americana” para o reflorescimento do capitalismo no velho continente e, simultaneamente, levantar barreiras de contenção ao expansionismo do socialismo real Soviético.

Necessário ainda dotar a classe média de poder de compra criando mercados de consumo doméstico e implantar políticas de proteção social aos mais pobres, para afastar eventuais simpatias que o bloco do socialismo real pudesse exercer. O Estado do Bem Estar Social era a exata medida das necessidades. Assim nasce a UE, apoiada numa estrutura de Estado economicamente sólido e socialmente amplo.

A virada dos anos 80

O modelo começou a dar sinais de cansaço nos anos 70 quando a concorrência efetiva-se global e a produção faz-se flexível, condições não mais atendidas pela combinação fordismo e Estado intervencionista.

Na esteira do esgotamento das políticas Keynesianas, o neoliberalismo chegou com energia nos anos 80 e o Estado de Bem Estar Social foi sucumbindo paulatinamente, substituído pela lógica do Estado Mínimo. O que é público não funciona e os impostos são altos demais, bradavam seus partidários.

Por detrás destas máximas sedutoras vieram: a desregulamentação financeira, a redução da intervenção estatal na economia, as privatizações e redução dos impostos para a turma do topo.

Margaret Hilda Thatcher dava os primeiros passos na ilha em direção ao sucateamento geral do Estado.

A difusão e aprofundamento dos blocos econômicos nos anos 80 em diante atende parte destas necessidades.

Uma guinada de 180 graus em relação à sua origem. Novos tempos, nova estrutura.

Os resultados maléficos para os trabalhadores e os mais carentes não tardaram a aparecer. A distância entre pobres e ricos atingiu níveis abissais, a fome chega aos países ricos, degradam-se as condições de trabalho, o Estado perde capacidade de investimento e o capital financeiro dá as cartas, como provedor de créditos e financiamento.

Sintetizando, criam-se as condições sociais e políticas de fermentação do populismo anti-imigração.

Uma Europa à beira do fascismo

Resumidamente a coisa funciona mais ou menos assim: com a desoneração da classe mais abastada reduz-se a arrecadação do Estado, que se vê obrigado a complementar seu orçamento absorvendo parte da poupança interna e, depois de endividado, a saída é o ajuste fiscal para atender às demandas dos credores, leia-se as grandes corporações financeiras.

É este o pano de fundo do “Não” do Reino Unido à UE.

As políticas de austeridade já fizeram vítimas em todo continente. Começando na periferia dos centros dinâmicos como a Grécia, que tem um endividamento de 230% de seu PIB, na Espanha com desemprego de jovens acima dos 50%, em Portugal, Islândia e Itália, etc, chegando ao seu centro. A França está em pé de guerra contra as medidas de precarização do trabalho do governo François Hollande.

Em todos eles, para dar conta de realizar os devidos pagamentos de suas dívidas públicas, imolam-se direitos trabalhistas, sociais e previdenciários no altar do livre mercado financeirizado.

Ao contexto acrescenta-se uma política externa da UE de subordinação aos interesses dos EUA, mas que também lhe dizia respeito. Fez guerras, invadiu países, expandiu o receituário neoliberal para o resto do mundo, promoveu golpes de estado, tensionou o já tenso Oriente Médio e investiu pesado na indústria bélica.

O saldo? Ampliação do terrorismo, fortalecimento de grupos paramilitares, geração de uma nova leva de Estados Falidos, crescimento das imigrações e das pessoas em situação de refúgio. Crescem também, obviamente, a pobreza e a miséria no mundo.

Os ricaços tornam-se mais ricos e a base da pirâmide se alastra. Explodem as aplicações em paraísos fiscais e tratados internacionais de liberação da circulação do capital se expandem na medida inversa dos que impedem a livre circulação de pessoas.

Não está em jogo um retrocesso no processo civilizatório. Está em questão o modelo de reprodução do livre mercado em ambiente de ampla liberdade de circulação e acumulação do capital, gerador de profundas desigualdades e de muito descontentamento social.

O “Não” do Reino Unido. O que virá?

Eis que a vitória do “Não” se reveste deste contexto de crise das políticas neoliberais e a ascensão do fascismo como resposta, que se fortalece na Noruega, Suécia, Holanda, França e agora, no Reino Unido.

O que se observa no horizonte próximo?

Tudo indica que os EUA ampliarão suas relações com o Reino Unido, muros serão levantados contra a entrada de novos imigrantes, haverá a expulsão de moradores do Reino Unido, o UKIP (partido fascista do RU) crescerá, o comércio entre a UE e o Reino Unido sofrerá abalos, novos plebiscitos deverão ocorrer na UE e, caso a política do “Exit” obtenha novos êxitos, o bloco inevitavelmente afundará.

Estaremos mergulhados numa onda extremista, de hipervalorização das nacionalidades, de crescimento da islamofobia e do euroceticismo.

Qual o antídoto?

A saída é a construção da paz no mundo, a redução da dependência dos Estados ao capital financeiro, a brutal redução dos gastos bélicos, a redução das desigualdades sociais, do respeito à soberania das nações, do combate à evasão e a sonegação fiscal e aos grandes monopólios empresariais.

Estamos diante do esgotamento da lógica de reprodução do capitalismo financeirizado que tornou refém governos (seus orçamentos e políticas públicas) e a sociedade em geral. Buscam-se saídas.

A ascensão do fascismo não é, com certeza, uma delas.

4 Responses to “Reino Unido fora da UE evidencia crise do neoliberalismo”

  1. tulius dias nery, Responder

    Olá Ricardo,

    Muito didático o texto em questão. Fica claro os reais interesses de determinados grupos na saída do RU da UE. Fica uma pergunta, qual será a real extensão do dano colateral que esta medida vai acarretar no centro europeu? Além disso, qual será o dano a nível global.

    Abraçços

    • Ricardo, Responder

      Difícil fazer projeções neste sentido. Creio que a principal consequência no curto prazo será o enfraquecimento da UE, em favor dos EUA.

  2. JOÃO, Responder

    Parabéns professor, mas como a Inglaterra não tem relações apenas com a Europa, quais efeitos terá essa separação em relação aos EUA e China, as duas potências fora da Europa???

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