Periferização urbana remete a Campos de Concentração pós modernos

Ricardo AlvarezO século XX viveu a experiência trágica do nazi-fascismo e dos Campos de Concentração. Para muitos isso se limitou a uma contingência temporal, um desvio histórico indesejado, por assim dizer; para outros foi o resultado de ambição desmedida pelo poder e das loucuras de ditadores. A maior tragédia, no entanto, é constatar que esta experiência não se esgotou historicamente e permanece viva entre nós. No mundo contemporâneo assumiu nova roupagem e remodelou o discurso, mas fundamenta-se nas mesmas bases e premissas.

Há uma concepção parcialmente equivocada, porém amplamente divulgada, sobre as motivações de existência dos Campos de Concentração na Alemanha do Terceiro Reich. Normalmente eles são associados às maldades do regime, centros de experimentação com humanos ou a demonstração de força política das teses supremacistas. É tudo isso, mas é bem mais que isso.

Contextualizando, com a derrota alemã na Primeira Guerra Mundial e as imposições dos vencedores o país se viu numa posição subalterna no contexto europeu, condição recrudescida pela deterioração econômica e social interna imposta pelos efeitos da crise de 29, que estancou as veias da economia no continente.

Desemprego, inflação e recessão econômica compunham um quadro de crise econômica combinada. O nazismo se consolidou como força política na esteira desta conjuntura e chegou ao poder em 1933 com um programa nacionalista, imperialista e segregador, buscando dar respostas a um país devastado pela guerra e socialmente dilacerado.

É importante reconhecer que os Campos de Concentração exerceriam um papel central na retomada do crescimento econômico e na superação da crise.

A criação de áreas de confinamento gerava, para os que estavam fora delas, maior demanda por força de trabalho reduzindo as taxas de desemprego via escassez. Em outras palavras, o Estado alemão retirou de circulação parcela excedente da força de trabalho obrigando-os a produzir bens baratos e, do lado de fora do gueto, reduziu o desemprego dos “legítimos alemães”.

Esta combinação reestruturaria a economia alemã num outro patamar possibilitando, de um lado, ampliar o consumo a partir da retomada da produção industrial do pós guerra e, de outro, reduzir a inflação galopante com a consequente revalorização do marco alemão, um dos símbolos da patriotada nazista.

Os Campos de Concentração pós modernos

Com as devidas peculiaridades e mesmo sabendo que a comparação é exagerada, há elementos hoje que nos remontam ao papel que eles desempenharam na estruturação da Alemanha: a degradação profunda de amplas parcelas da sociedade, isoladas territorialmente e limitadas em sua mobilidade.

Não são muros altos, grades e arame farpado que lhes dão existência. Não são judeus, comunistas ou ciganos que habitam o outro lado. Trata-se de uma construção urbana que gera linhas de separação tão invisíveis quanto nítidas, facilmente percebidas pelos que ousam, de alguma forma, transpassá-la.

No caso do Brasil é uma construção histórica e geográfica fermentada com a lei de Terras (1850) e o final da escravidão, cuja combinação fez com que os recém libertos encontrassem lugar para morar apenas nas bordas das cidades, onde as terras mais baratas e destituídas de infraestrutura e serviços estavam à disposição.

Hoje as regiões metropolitanas (e mesmo as cidades médias) revelam o aprofundamento do abismo entre classes sociais no território urbano, algo que já se mostrava evidente no século passado. A divisão confinou, pela força da renda, da propriedade privada da terra e do mercado – e não pelas mãos do poder estatal totalitário -, uma massa considerável de gente que sobrevive resiliente.

Trata-se de uma massa de gente tratada sem parcimônia como seres de segunda categoria. Destituídos de direitos básicos, distantes dos espaços dotados de serviços públicos amplos, amontoados em casas insalubres, na maior parte das vezes monoparentais, com jornadas de trabalho extensas e mal remuneradas e trajetos intermináveis em transportes públicos caros, lotados e de baixa qualidade.

A ausência do Estado e de políticas públicas permite o domínio de grupos que traficam drogas, aliciam jovens para o trabalho, onde impera a força e o medo. Cidadania e direitos são palavras que moram apenas nos dicionários em bibliotecas que nem lá existem.

Forças policiais entram nas casas das pessoas sem mandato de prisão, busca ou apreensão. Surgiu recentemente a ideia de mandatos judiciais coletivos, que valem para blocos urbanos inteiros suprimindo o direito individual. É a geografia que determina a culpabilidade.

Chacinas e linchamentos são frequentes com a morte de milhares de civis inocentes. Os casos são inúmeros e sequentes, mas chocam pouco o lado branco da cidade. José de Souza Martins descreve que um milhão de brasileiros participaram de linchamentos na segunda metade do século XX.

Os rendimentos, a expectativa de vida e os níveis de educação dos periféricos colocam o Brasil em condições de IDH tão baixos que cerramos ombros com países em guerra ou vítimas de catástrofes naturais. O IDH do outro lado, ao contrário, enche de orgulho uma classe média que acredita em meritocracia e sucesso.

O acesso a bens e serviços são quase nulos acentuando uma privação social já estruturada pelo mercado. Teatros,  cinemas, bibliotecas, parques, enfim, são luxos reservados aos que podem dispor de recursos para o ingresso ou a mobilidade.

Formam ainda pelotões de trabalhadores ofertados a preços reduzidos em trabalhos longos, fatigantes e descartáveis, isso quando conseguem colocação. O desemprego também se mostra útil como fator de redução dos níveis salariais oferecidos.

A questão central é que isso se estrutura e é estruturante a partir de uma lógica tenebrosa de naturalização da pobreza, algo a ser aceito dentro da normalidade social e apresentado como inevitável.

De forma mais ampla pode se dizer que na compreensão de determinados grupos sociais de maior poder aquisitivo, tal quadro não é apenas compreensível, como também desejável, uma vez que o outro se coloca como potencial subtrator das suas necessidades da classe.

É uma compreensão de mundo que parte da ideia de que não há bens e serviços que atendam a demanda geral. Neste sentido o outro é visto sempre como inimigo em potencial. Ele pode ser exterminado, engaiolado, isolado e aniquilado que isso significará maiores e melhores oportunidades para as elites e frações da classe média alta. Eis a base de funcionamento dos Campos de Concentração.

Da mesma forma que alemães sabiam que havia pessoas sendo assassinadas pelo regime, hoje os privilegiados também sabem que barbaridades são cometidas diuturnamente nas periferias contra negros, pobres mulheres e crianças, mas elas são “necessárias para o equilíbrio social”.

Há presidenciáveis, por exemplo, que atacam abertamente grupos minoritários e identitários que são considerados por eles como a parte que deve ser apartada. Suas palavras soam como música nos ouvidos dos que se sentem ameaçados e com medo constante.

Não podemos escolher o caminho da barbárie. Temos que aprender as lições do passado e articular nossas forças na superação desta condição, na busca da igualdade. Esta é a garantia de um mundo mais livre, justo e de paz.

Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controvérsia e escreve semanalmente.

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