Bolsonaro, eleições e a burguesia  brasileira

Ricardo AlvarezCircula nas redes sociais e em artigos uma ideia que causa certo espanto e se apresenta, ao mesmo tempo, inexplicável: como pode o fenômeno Bolsonaro ganhar musculatura eleitoral nas frações da burguesia brasileira, em especial à produtiva e aos defensores da manutenção de um ambiente nacional de organização e articulação do negócios e investimentos? Considero uma falsa questão pois os interesses se entrecruzam na conjuntura que se avizinha.

Não é incomum a demonstração de espanto diante da sucessão de notícias que dão conta das proximidades entre o candidato Jair Bolsonaro e a burguesia brasileira. Setores da elite nacional começam a se definir em apoio à sua candidatura, o que o coloca em efetividade no jogo eleitoral.

Há indicadores que explicitam esta tendência e cito 3 deles:

a) Pesquisa do DataFolha de abril de 2018 mostra que Bolsonaro é o preferido dos extratos mais ricos e escolarizados. Dentre os que possuem nível superior ele acumula 21 pontos percentuais (Lula 17%) e no quesito renda a pesquisa evidencia maior destaque ainda, computando 28% contra Lula (2º lugar) com 19% – https://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/04/1879995-bolsonaro-tem-melhor-resultado-no-datafolha-entre-ricos-e-escolarizados.shtml;

b) A Confederação Nacional da Indústria (CNI) promoveu uma sabatina com alguns presidenciáveis e a nata fabril  aplaudiu efusivamente Bolsonaro em sua intervenção por várias vezes. Pouco disse sobre suas propostas, mas atacou o politicamente correto e as políticas identitárias. A plateia de quase 2 mil pessoas era formada na sua imensa maioria por homens da elite nacional ricos e brancos – https://brasil.elpais.com/brasil/2018/07/04/politica/1530727099_691325.html;

c) O site Congresso em Foco fez uma pesquisa que identificou 65 deputados no apoio ao presidenciável Bolsonaro. Há levantamentos paralelos que chegam ao número de 110. Seja como for já é maior bancada da Câmara, ultrapassando grupos de interesse fortes e articulados, como o agronegócio e do mercado financeiro  – https://congressoemfoco.uol.com.br/eleicoes/bancada-de-bolsonaro-na-camara/;

Bolsonaro chegou a dizer aos empresários da indústria que não entende de economia e que sua assessoria tem mais competência para responder as perguntas que foram feitas do que ele. Mesmo assim foi aplaudido.

Fez promessas de um ministério com vários militares e, com a mesma eloquência de sempre, bradou contra minorias, estrangeiros, criminosos e a “cultura de gênero”. A selvageria exposta encontrou eco novamente entre os presentes.

Os caminhos que levam a construção de uma candidatura tão tosca e caricata são muitos, mas eles desembocam numa condição pós moderna que provoca confusão nas cabeças ainda modernas.

O Brasil se prepara para consolidar nos próximos anos a condição de gerador de riqueza primitiva e especulativa. Em outras palavras, nossa participação na DIT (Divisão Internacional do Trabalho) será a de criar bens primários e estruturar maior fluidez no mercado especulativo.

As privatizações, o desmonte da Petrobrás, a fusão da Embraer com a Boeing apontam para tornar a produção nacional cada vez mais acessória na composição do PIB e na importância do setor para um eventual projeto de nação desenvolvimentista.

Noutra ponta a liberação recente dos agrotóxicos, os ataques aos povos indígenas e quilombolas, as contínuas mortes no campo, a expansão da soja na Amazônia, a proteção ao latifúndio e o imenso poder da bancada ruralista evidenciam a importância do setor na economia e política.

Ao mesmo tempo o orçamento nacional é, cada vez mais intensamente, dominado pela ciranda financeira que abastece as burras do empresariado dos papéis, engorda as contas correntes no exterior e insere o Brasil com autoridade na rota da especulação internacional. Não esqueçamos do “Panamá Papers” e das contas secretas no exterior.

Importante dizer que a elite que ocupa a ponta da pirâmide é cada vez mais rica e concentra poder como nunca, num processo denunciado pela ONG OXFAM, algo que, de resto, ocorre no mundo todo. Tais fortunas transitam em outras praças que não a nossa. Tais pessoas moram em outros países, que não o nosso.

De certa forma pouco importa para estas pessoas se estamos nos arrebentando num contexto de explosiva violência urbana, se empregos faltam, se a qualidade de vida degradou ou se os serviços básicos estão calamitosos. Importa sim não levar a cabo nenhuma proposta de taxação de fortunas e impostos sobre riqueza. Há vários presidenciáveis que se comprometem com isso. Bolsonaro é um deles.

O capitalismo brasileiro não pediu desculpas pela escravidão, ao contrário, nega-a sistematicamente. Tampouco se preocupou a dar explicações sobre o golpe de 64 e as mortes e perseguições que se fizeram. Apesar de recente criaram e disseminaram a ideia de que “a vida era melhor” e “só se deu mal quem fez coisa errada”. Nosso passado padece com as vísceras expostas e sem sinal de arrependimento das elites dirigentes.

Bolsonaro é destes que refuta a noção de racismo, ataca-a dizendo que é uma criação das esquerdas e louva a violência dos golpistas de 64. O recente golpe em 2016 também foi intensamente apoiado por ele e seus seguidores.

Eis que são, exatamente estas condições, que o transformam no candidato das elites predatórias. Ou melhor, dos processos predatórios de acumulação de capital.

Confinar pretos e pobres nas periferias urbanas através de cordões sanitários de isolamento como se fossem Campos de Concentração globais, tem um custo social e econômico gigantesco. Permitir saídas diárias para o trabalho amontoados em meios de transportes caros e incômodos, nos lembra os bantustões criados pelo regime do apartheid sul-africano que controlava a saída e o necessário e obrigatório retorno. É o racismo persistente no Brasil.

Exterminar pobres atende à necessidade de, ao mesmo tempo, eliminar fatias excedentes e desnecessárias de força de trabalho e reduzir a demanda por serviços públicos básicos, como saúde e educação.

Enfrentar trabalhadores em marcha nas suas lutas pela garantia de direitos e pela defesa de seus empregos exige policiamento constante, ativo, violento e ostensivo. Além disso, leis após leis são aprovadas sucessivamente limitando o direito de protesto, de greve e manifestação. A palavra Terrorismo frequentemente trafega pela boca dos parlamentares conservadores e jornalistas comprometidos comas elites na adjetivação dos que protestam.

Destruir direitos trabalhistas e previdenciários estão na ordem do dia. É necessário baratear a força de trabalho e criar condições de acumulação de capital favoráveis diante da concorrência globalizada.

Explorar nossas riquezas naturais em condições favoráveis aos lucros rápidos e garantidos, mesmo que ao custo da morte dos biomas, das águas e das terras, exige proteção do estado e garantia de inocência aos empreendedores. O caso da explosão da barragem da Vale e a morte do Rio Doce são exemplares neste sentido.

Enfim, a nova etapa do capitalismo brasileiro (e global, diga-se) se apoia num nível de exploração do trabalho e das riquezas naturais brutais e violentos. A reação é e será, sem nenhuma dúvida, também violenta. Bolsonaro é o presidenciável adequado para esta parcela da burguesia que entendeu que o acirramento da luta de classes é um componente essencial do próximo período.

O Estado brasileiro terá que se estruturar no auxílio aos setores que demandam apoio e são linha de frente na construção da barbárie. Bolsonaro se propõe a cumprir este papel e o reafirma cotidianamente.

Não existe, desta forma, uma dicotomia entre uma fração da burguesia produtiva e  seus interesses nacionais. À rigor isso nunca existiu, uma vez que ela sempre esteve na linha de frente nos momentos cruciais em que o capital internacional exigia ações em sua defesa. Governo JK, golpe de 64, ascensão do neoliberalismo e abertura econômica com FHC são alguns dos exemplos que nos mostram que este setor não tem “um projeto nacional de desenvolvimento”.

A elite nativa sabe muito bem que seus interesses devem estar acoplados aos interesses internacionais. Sabem também que o próximo período exigirá um governo de mão forte contra trabalhadores e lutadores do povo na decomposição do que sobrou do frágil Estado de Bem Estar Social e das conquistas da Constituição de 88. E que a aproximação com os EUA será um imperativo. Bolsonaro já foi bater continência em Miami à bandeira da nave mãe.

Ela entende ser essencial que este candidato tenha inserção política não apenas nas elites, mas também entre a classe média e jovens para dar base de sustentação ao desmonte. Bolsonaro o tem.

Não vejo sustentação na tese de que a estruturação do mercado interno passa pela retomada dos investimentos produtivos, na valoração dos empresários industriais, na geração de empregos, formação de classes médias com capacidade de consumo e voltada para fronteiras internas. Isso se foi. O fordismo, a produção industrial e o consumo de massas pertencem ao passado.

O próximo período será de consolidação de um Brasil de guetos urbanos, pouco solidário, cujo tecido social esgarçado será marcado pela disputa acirrada pelas melhores e poucas vagas de trabalho, onde o desemprego, os baixos salários e as precárias condições de trabalho darão forma mais elaborada e significativa ao chamado precariado.

Para levar a frente este projeto, nestas condições e formas, Bolsonaro é o candidato ideal, mesmo que fale besteiras, exponha ignorância constante e se apoie em ideias fascistas. O seu valor político se apoia mais na construção de uma liderança adequada à nova fase de acumulação de capital no Brasil do que ser caricato e exótico. Os seus apoiadores não exigem dele reflexão, propostas e um projeto de nação, esperam força, virulência e atitude. Mal sabem que estas “qualidades” virão em seu próprio malefício.

Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controvérsia e escreve semanalmente.

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