Lições da escassez

Frei Betto – A pa­ra­li­sação dos ca­mi­nho­neiros obrigou-nos a en­frentar, sem al­ter­na­tiva, a es­cassez de pro­dutos es­sen­ciais ou ao menos a ameaça de que isso vi­esse a acon­tecer.

Du­rante a pa­ra­li­sação não houve di­fe­rença entre ricos e po­bres. Aos pri­meiros também faltou com­bus­tível para se des­lo­carem até onde pu­dessem ad­quirir os pro­dutos de­se­jados.

Um abas­tado ad­vo­gado pau­lis­tano se viu obri­gado, pela pri­meira vez na vida, a andar de metrô. Em rua da zona norte do Rio vi­zi­nhos se pu­seram de acordo para al­ter­narem seus carros como lo­tação até o centro da ci­dade.

Em muitas fa­mí­lias a in­cer­teza quanto à volta dos ca­mi­nho­neiros às es­tradas forçou-as a mo­de­rarem o con­sumo de ali­mentos, evi­tando o des­per­dício.

Todos os dias, 45 mil to­ne­ladas de ali­mentos vão para o lixo no Brasil. As perdas sobre o que é cul­ti­vado chegam a 64% e acon­tecem por toda a ca­deia pro­du­tiva, sendo, se­gundo o Ins­ti­tuto Akatu, 20% na co­lheita; 8% no trans­porte e ar­ma­ze­na­mento; 15% na in­dús­tria de pro­ces­sa­mento; 1% no va­rejo; 20% no pro­ces­sa­mento cu­li­nário e nos há­bitos ali­men­tares.

De que vale ser rico quando não se pode fugir da es­cassez? No cerco ro­mano a Je­ru­salém, no ano 70, as mais ricas fa­mí­lias ju­daicas ofe­re­ciam barras de ouro em troca de um pu­nhado de trigo ou uma cesta de tâ­maras. Em vão. Ouro não é co­mes­tível…

A sa­be­doria é con­si­derar su­fi­ci­ente o ne­ces­sário. No en­tanto, somos pres­si­o­nados por po­de­rosa en­gre­nagem pu­bli­ci­tária que nos induz a con­si­derar im­pres­cin­dível o que é, de fato, su­pér­fluo. O de­sejo in­con­tido de pos­suir algo gera ânsia de con­sumo em al­guns e lucro para ou­tros. A fan­tasia es­ti­mula o de­sejo. A pu­bli­ci­dade cria a fan­tasia. Não se compra uma roupa, e sim um es­tilo de vida.

Em Bo­gotá um padre me contou que, na Qua­resma, não in­cen­tiva os pa­ro­qui­anos a se pri­varem dos pra­zeres da mesa. Pro­move mu­tirão de co­leta de su­pér­fluos, tudo isso que, em casa, ocupa es­paço nos ar­má­rios e não é uti­li­zado: peças de ves­tuário, car­rinho do bebê, pratos e ta­lheres fora de uso etc. Tudo é des­ti­nado a um bazar em bairro de fa­mí­lias de baixa renda, onde os preços são sim­bó­licos.

Li­vrar-se de ex­cessos faz bem à alma e ao corpo. Seja de bens ma­te­riais, seja disso que acu­mu­lamos no es­pí­rito: má­goas, ódio, in­veja etc. A vida fica mais leve quando ou­samos nos des­pojar.

Eu­ro­peus da ge­ração do pós-guerra não cos­tumam deixar co­mida no prato. Guardam a lem­brança da es­cassez. Mas quem sempre teve o pri­vi­legio de des­frutar da abun­dância sofre frente à pos­si­bi­li­dade de es­cassez. A sim­ples ideia de se privar de certos con­fortos causa tor­mento. Como a meu vi­zinho en­fu­re­cido di­ante de seus dois pos­santes carros es­ta­ci­o­nados na ga­ragem com ga­so­lina su­fi­ci­ente apenas para uma si­tu­ação de emer­gência.

A mai­oria da po­pu­lação vive em per­ma­nente es­cassez: de sa­lário digno, mo­radia con­for­tável, ser­viços de saúde ade­quados, edu­cação de qua­li­dade, trans­portes in­di­vi­dual e co­le­tivo, acesso à cul­tura e arte etc.

Isso nada tem a ver com des­po­ja­mento, e sim com fla­grante in­jus­tiça, fruto de um sis­tema econô­mico que torna os ricos cada vez mais ricos e mul­ti­plica a mul­tidão de po­bres e ex­cluídos.

“Vim para que todos te­nham vida e vida em abun­dância”, pro­clamou Jesus (João 10, 10). A es­cassez de bens es­sen­ciais e di­reitos é grave vi­o­lação de di­reitos hu­manos e ofensa a Deus. Frente a isso não de­vemos ad­mitir a es­cassez da bem-aven­tu­rança da fome e sede de jus­tiça.

http://www.correiocidadania.com.br/2-uncategorised/13310-licoes-da-escassez

Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controvérsia e escreve semanalmente.

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