Conjuntura em ebulição evidencia transição política no Brasil

Ricardo Alvarez

A greve/locaute dos caminhoneiros plantou confusão na conjuntura política e na cabeça dos responsáveis por dar respostas. Lados em geral opostos apresentaram análises simétricas ao mesmo tempo em que os convergentes habituais se dividiram. Uma análise em retrospectiva nos mostrará que o cenário político alvoroçado tem raízes mais profundas do que as evidentes fragilidades de um governo inepto e desarticulado.

Comecemos por Temer. De articulador dos bastidores na distribuição dos nacos do caixa 2 para deputados, senadores, governadores e candidatos nos mais diversos estados da nação, Temer passa à função de coordenador geral do presidencialismo de coalização. Ele era o presidente possível dentro da lógica institucional do golpe contra o governo Dilma Russef. Com a assunção do MDB à frente do executivo as obrigações mudaram de patamar.

Sai de cena o chefe da rapinagem na pequena política e assume o líder nacional, cujo papel exige ações na grande política. Temer definitivamente não tem vocação para isso. Seu governo é fraco, sua base de sustentação sobrevive do assédio permanente ao orçamento público e dos mimos privados e sua inserção social próxima de zero. Mesmo assim levou à frente a desestruturação do Estado social, a desregulamentação do mercado, as privatizações a destruição da CLT e o congelamento do orçamento por 20 anos, pauta que soa como música ao capital, este sim seu único fiador.

Temer, evidentemente, tem sua imensa parcela de culpa sobre o buraco em que nos metemos, mas a explicação do cenário político ultrapassa os limites do seu governo.

A crise do centro-direita e os limites do bipartidarismo

Um olhar retrospectivo nos mostrará que nos últimos 20 anos no Brasil a estabilidade política que sustentou a Nova República foi alcançada a partir da costura de um bipartidarismo PT x PSDB, trazendo uma certa paz após o desastre Collor/Itamar. As demais forças políticas gravitavam em torno destes dois polos com variações regionais e políticas. Havia exceções, como o Psol.

O PSDB fez o primeiro dos trabalhos com FHC, o Plano Real e derrubada da inflação. Conseguiu-se uma certa estabilidade para o capital. O Lulopetismo completou o serviço com benefícios ao trabalho a partir da mesma estrutura herdada. Não houve herança maldita, e sim mantida.

PT e PSDB apresentavam um programa de valoração diferenciada das demandas sociais, mas tinham de igual a estruturação do poder apoiado num parlamento viciado, num sistema partidário de compra e venda de siglas e na entrega de parcelas da máquina pública aos aliados de plantão.

O sistema ficou insustentável. Explodem as manifestações contra a corrupção e temas correlatos, sustentados por uma composição de forças que une grande mídia, judiciário, parlamento federal e parcela do grande empresariado. A demonização do PT e a prisão de Lula fazem desmoronar um dos pilares da sustentação política do bipartidarismo.

O outro pilar, o PSDB, embora protegido e blindado pela grande mídia e o judiciário, também entrou na dança. Azeredo acabou de ser preso. Aécio desmoronou, Serra enroscado em tramoias helvéticas e Alckmin enroscado na LavaJato, além das tretas com pedágios, merendas e metrô.

Um novo tempo, novas articulações

Desmoronaram, enfim, as forças de sustentação da República pós redemocratização e a falsa sensação de calmaria social. Estamos envoltos pela emergência de novas forças políticas à direita e à esquerda, principalmente. O centro  em crise busca se recriar e isso explica, em certa medida, o acirramento das tensões políticas no país.

Novas organizações e formas de representação ganham as ruas, novos atores ocupam espaços para além das formas tradicionais da democracia liberal. Temer é incapaz de levar à cabo um programa próprio e se colocar como o artificie da transição, ao contrário, sabe apenas jogar o jogo da orgia público x privado.

Some-se a isso a crise internacional de acumulação de capital que chegou forte ao Brasil. A manifestação dos caminhoneiros reflete a liberação dos preços dos combustíveis conforme a flutuação no mercado externo pelo tucano Pedro Parente à frente da Petrobrás.

Observe no gráfico abaixo a evolução do preço do petróleo Brent no último período, em especial a partir de julho de 2017.

Esta fase de transição será tão duradoura quanto a permanência do fracionamento social. As eleições serão um momento privilegiado de costura em busca deles, mas insuficiente para respostas mais duradouras. As pautas serão difusas, as alianças políticas também, mas será um primeiro momento de construção de consensos.

O velho que resiste à mudança e o novo que ainda não tomou forma

Alguns trabalham com a hipótese de que a turba atual levará ao adiamento das eleições. Há dois problemas essenciais a serem resolvidos neste caso: manter um governo frágil (Temer ou outro qualquer sem eleições) significa prolongar a acefalia no comando geral, ao mesmo tempo em que isto só funcionaria se houvesse a possibilidade da escolha de um “gestor” de confiança a ser apresentado no próximo pleito adiado. Pelo que consta o divisionismo tem prevalecido.

O quadro se mostra multiplicado, pouco apto ao acordo, dificultando a escolha de um nome de consenso do capital. O sonho de consumo da burguesia brasileira é o bipartidarismo norte-americano, onde se tem a certeza de que o vencedor não provocará rupturas nem sobressaltos. Mas estamos num país dependente e com graves problemas estruturais e sociais, dificultando consensos sem o peso da espada do capital.

Um novo programa, uma nova politica

O que se coloca no curto prazo é um conjunto de tarefas que, de certo modo, estão em marcha.

O Psol tem candidato à Presidência da República, um grande candidato, diria. Forjado nas lutas sociais, Guilherme Boulos tem mostrado capacidade de discussão dos problemas brasileiros e tocado em pontos que a velha esquerda se furtou em debater/aplicar nos últimos anos: descriminalização do aborto, ocupação de moradias e terras sem uso, enfrentamento do rentismo, cobrança de impostos dos mais ricos, etc.

Para além de um programa e um candidato coloca-se a necessidade de maior enraizamento social. A aproximação com MTST e outras forças políticas vai encorpando o partido para o enfrentamento político. Precisamos mais. Os nossos militantes devem fazer um trabalho miúdo, mas absolutamente necessário, de discussão dos rumos do país. Participar de debates e discussões públicas, rodas de conversa, levar a discussão na base da argumentação, usar intensamente as redes sociais, convocar atos, escrever manifestos, enfim, há diversas formas de levar nossas teses ao conhecimento da sociedade.

Por fim, há que se reconhecer que existe um espaço à esquerda no Brasil representado pela crise do Lulopetismo, crise essa cantada por vários militantes durante longa data, da qual não temos responsabilidade, mas que deve servir de estímulo aos debates sobre o futuro do Brasil e o papel que o Psol vem cumprindo.

Na transição muitos efeitos mórbidos vem à tona e nos pasmam, mas antes de nos atordoar com eles devemos aproveitar o momento em que as vísceras do sistema estão expostas. As portas da mudança estão abertas e o jogo está para ser jogado. Vamos à luta.

Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controvérsia e escreve semanalmente.

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