A desigualdade social no centro das eleições. É Boulos no Roda Viva

Ricardo Alvarez – Nesta segunda-feira, 07 de maio, Guilherme Boulos foi entrevistado no programa Roda Viva da TV Cultura. Mostrou conhecimento dos problemas nacionais e articulação discursiva, mas o mais importante, trouxe a desigualdade social para o centro do debate eleitoral e reacendeu a esperança na construção de um outro Brasil.

Nos primeiros minutos do programa duas conclusões óbvias: entrevistadores de mercado que cospem as mesmas ideias calcificadas e o despreparo que estas posições expressam quando forçados a sair da zona de conforto. Boulos dançou sobre suas cabeças do começo ao fim do programa.

A imagem demonizada de “invasor” e “agitador” se desfez como sal na água para quem se dispõe a ouvir o novo e a pensar o Brasil.

Fábio Wajngarten, especialista em mídias digitais, insistiu na pergunta se não era hora de juntar todo mundo numa linha de reconstrução nacional. Bobinho. Imagino como tratar do tema da reforma agrária juntando o Psol, o agronegócio, Marina Silva e Bolsonaro. Qual a síntese possível? Nenhuma. Debater limites para o latifúndio com os latifundiários ou mudar o padrão produtivo da soja para exportação por alimento voltado ao mercado interno? Não dá liga.

O cientista político Rubens Figueiredo, matreiro, apostou em contradições no discurso. Deu-se mal, confundindo juros nominal com o real. Boulos o alertou para isto em público e o feitiço virou contra o feiticeiro. Tentou ainda enredá-lo com a temática do socialismo e liberdade. Tomou um Jab, direto, cruzado e foi à lona! Devidamente informado por Boulos que a sua lógica de capitalismo vitorioso não explicava como 7 famílias no Brasil tem a mesma renda dos 50% mais pobres.

O mesmo Rubens Figueiredo ainda fez uma defesa desavergonhada do governo Temer e a retomado do crescimento econômico de 1% do PIB em 2017. Difícil discutir com quem vive na bolha. Foi lembrado que a popularidade de Temer se aproxima do zero, além do desumano desemprego de 14 milhões de brasileiros.

O auge da tenebrosidade argumentativa, no entanto, foi alcançado com uma pergunta do mediador Ricardo Lessa, dizendo que os eleitos que enfrentam o mercado financeiro normalmente tem seus mandatos reduzidos. Foi quase um apelo explícito para que se faça uma mudança no formato de escolha de nossos dirigentes políticos: sai o voto direto, entra a Bolsa de Valores elegendo através de pregão.

Boulos navegou pelas águas da economia e propôs jogar a conta da crise nas costas dos ricos. Parece óbvio, mas para a grande imprensa brasileira e seus serviçais isso soa como indecente. Ricardo Galhardo do jornal O Estado de S. Paulo chegou a questionar se devemos mesmo cobrar impostos de veículos de ricos, como barcos, helicópteros e assemelhados.

Falou também de Reforma Urbana, praia em que navega com conhecimento militante, e que passa necessariamente sobre destacar o valor de uso das coisas sobre seu valor de troca: casa é para morar, não especular. E ponto.

De certa forma Boulos reposicionou as eleições deste ano e puxou o eixo do debate para a centralidade da redução da vergonhosa desigualdade social nacional. Não será fácil, pois serão horas e horas de transmissão de candidatos falando em mercado, lucro, competição, individualismo, meritocracia e outros temas que são exatamente a origem de nossa desgraça social.

Mesmo assim o resultado final foi altamente positivo. Boulos busca retomar, com a campanha, um sentimento de pertencimento e representatividade, essenciais para uma campanha militante e de mudança social. Fala o que está engasgado na garganta dos progressistas há pelo menos duas décadas no Brasil.

Agora é hora de espalhar esta centelha.

Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controvérsia e escreve semanalmente.

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