DO LADO DE CÁ

YASMIN SANTOS – Por que votei em Marielle Franco na minha primeira eleição.

Na manha seguinte à morte de Marielle, minha mãe acompanhava o noticiário da televisão em prantos. Uma negra sentindo as dores da outra.

Na Zona Oeste do Rio de Janeiro, a sensação térmica revela-se sempre maior do que no resto da cidade. Para meu desprazer, o sol estava fervendo naquela manhã de outono, quando disputei um lugar à sombra do prédio que abriga o cartório da 25ª Zona Eleitoral, no bairro de Santa Cruz. Era 3 de maio de 2016. Como boa carioca, deixei para tirar meu título de eleitor no penúltimo dia possível. Eu acabava de completar 18 anos e queria cumprir minhas obrigações cívicas – mas não muito.

Após esperar duas horas e pouco na fila, descobri que me encontrava no lugar errado. Andei mais de 1 quilômetro até a repartição pública que de fato correspondia à minha zona eleitoral. Voltei para casa exausta.

Cinco meses depois, no dia 2 de outubro, levantei da cama com a certeza de que não usaria nenhum dos adesivos espalhados por minha escrivaninha. Praticamente todos exibiam o nome de Marcelo Freixo, então candidato do PSOL à prefeitura. Logo mais, eu pretendia votar nele e em Marielle Franco, que pleiteava uma vaga de vereadora pelo mesmo partido. Não me arriscaria, porém, a dar muita bandeira de minhas predileções. Nas áreas do Rio onde os milicianos imperam, adesivos a favor do político que, em 2008, presidiu a CPI estadual das milícias poderiam soar como uma afronta.

Não me sentia especialmente ansiosa ou nervosa quando saí de casa rumo à seção 218 da 246ª Zona Eleitoral, localizada numa creche. Mesmo assim, respirei aliviada mal a urna eletrônica soou o alarme e finalizou o primeiro voto da minha vida.

Moro em Jardim Palmares, um sub-bairro de Paciência, perto do município de Nova Iguaçu. Cento e quatro eleitores compareceram à seção em que debutei. Ali Marielle Franco teve apenas um voto: o meu. Como vários integrantes do PSOL, a socióloga e ativista não se provou tão popular no subúrbio quanto demonstrou ser nas regiões mais ricas da cidade. Em outro Jardim, o Botânico, a seção 36 da 212ª Zona atraiu 362 eleitores. Dezenove apostaram em Marielle. No fim das contas, minha candidata se elegeu com 46 502 votos. Ficou entre os cinco vereadores mais votados do Rio.

Nunca estive num comício de Marielle nem a abracei ou lhe pedi uma foto. Também não pesquisei muito sobre a trajetória dela. Eu a conheci exclusivamente pela internet. Meus colegas de universidade compartilhavam tanto os vídeos dela que a onda acabou me tragando. Não queria desperdiçar o primeiro voto com um político que só aparece na periferia para promover festas e mutirões em época de eleição. Enxerguei, naquela mulher negra e favelada, uma vontade genuína de mudanças estruturais. Acreditei em Marielle e não me arrependi.

A vereadora apresentou 116 proposições à Câmara em um ano e três meses de mandato. Dessas, dezesseis eram projetos de lei. Ela lutava para reduzir as desigualdades sociais e assegurar os direitos das minorias. Adotou como slogan de campanha um princípio filosófico africano, o Ubuntu, presente nas culturas zulu e xhosa: “Eu sou porque nós somos.” O lema a acompanhou até seus derradeiros minutos no banco daquele Chevrolet Agile de quatro portas.

Às 20h49 do último dia 14 de março, quando eu estava prestes a descer do ônibus, meu celular tocou. Era da piauí. “Você conseguiu a vaga de estagiária”, me avisaram. Fiquei radiante, mas o entusiasmo durou pouco. Às 22h16, um amigo me mandou um áudio no WhatsApp: “Viu que assassinaram a Marielle?” Fui arremessada de um extremo para o outro.

Em tempos de fake news, preferi desconfiar da notícia. Na poltrona da sala, meu pai – vascaíno – continuava secando o Flamengo durante a partida contra o Emelec, pela Libertadores da América. Tudo parecia estar como sempre esteve. Às 22h19, busquei o nome da vereadora no Google. A tragédia já inundara os principais jornais cariocas. Devorei cada uma das matérias e concluí, atordoada: mataram o meu voto. Pior, mataram o meu primeiro voto.

Quando chorei a morte de Marielle, chorei a de todos nós, mulheres e homens pretos. No WhatsApp, meus amigos do Bafros – um dos coletivos negros da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde estudo comunicação – suplicavam: parem de nos matar!

Na manhã seguinte, minha mãe acompanhava o noticiário da televisão em prantos. Uma negra sentindo as dores da outra. Ela sabia muito pouco sobre Marielle e, ainda assim, doía. Resolvi não ir à faculdade, mas apareci no Museu de Arte do Rio, o mar, onde trabalhava até então. Subi as escadas e me deparei com uma educadora preta. Nunca havia visto um olhar tão pesaroso.

O museu, de luto, fechou mais cedo e incentivou todos os funcionários a participarem do protesto em memória da vereadora, programado para as 17 horas no Centro. Antes de partir, estendemos diante do mar uma faixa com quase 2 metros de comprimento: “Marielle Presente.”

Evito frequentar manifestações desde a marcha de 2013 em que prenderam o jovem negro Rafael Braga, sob a acusação controversa de portar artefatos explosivos. Mas, depois de perder tanto, acabei perdendo até o medo. E decidi encarar as ruas.

Na Praça XV, mulheres ocupavam os degraus da escada que leva à Assembleia Legislativa. Juntas, entoavam cantos e gritavam palavras de ordem, repetidas pela multidão à frente delas. Lá encontrei alguns amigos pretos. Recebi e ofereci abraços longos, apertados, como se o toque pudesse impedir que sucumbíssemos à desesperança.

Rolei o feed do Instagram de Marielle e parei numa postagem: a do dia 16 de dezembro de 2017. A sequência de cinco fotos mostrava a festa em que a filha da vereadora, Luyara Santos, comemorava 19 anos. Quintal cheio de amigos e familiares, sorrisos por toda parte, latinhas de cerveja, copos plásticos coloridos, mesas de ferro iguais às dos botequins, o chão desnivelado, de cimento aparente, e as paredes com manchas escuras, causadas pela chuva. Um jeito nosso, da periferia, de celebrar a vida. As cenas batiam com qualquer confraternização dos meus próprios parentes.

Cerca de 50 quilômetros separam minha casa, em Jardim Palmares, daquela onde a Marielle morou, no Complexo da Maré. Lá, o território está nas mãos do tráfico. Aqui, da milícia. Não é novidade. Todo mundo sabe que o Estado não chega à periferia.

No meu bairro, já ouvi tiros e histórias de perseguições, mas nunca tive um fuzil apontado para mim. Policiais, traficantes ou paramilitares tampouco invadiram a minha casa. “Tudo em Palmares é muito tranquilo. Na Vila Kennedy, as coisas são mais escancaradas”, comentou uma amiga, referindo-se à favela da Zona Oeste onde cresceu e que está sob o controle do Comando Vermelho, a maior das três facções que dominam o comércio de drogas no Rio.

Quando minha mãe chegou a Jardim Palmares, só havia mato, como contava minha avó Alayde. Foi no segundo semestre de 1967. Gosto de olhar a foto que retrata o dia da mudança. Minha mãe, aos 2 anos, ainda está na casa antiga, sentada à porta da cozinha, com as mãos sobre os joelhos. Seu irmão, ao lado, tenta chamar a atenção dela. Não dá certo. Os olhos de minha mãe parecem distantes, alheios à câmera. Meu avô Arlindo contratou um fotógrafo para registrar o momento. Era, afinal, uma grande data.

Minha família materna morava em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, antes de se mudar para Jardim Palmares. Natural de Minas Gerais, meu avô ganhava a vida como contínuo numa repartição estadual. Já a vó Alayde era de Castelo, no interior capixaba. Começou a trabalhar ainda menina na Fazenda das Flores e não pôde estudar. Quando nasceu, em 1922, a senzala da fazenda continuava lá. Minha trisavó materna tinha sido escravizada.

Vó Alayde se casou pela primeira vez no Espírito Santo. Gerou três filhos e perdeu os três. Sofreu violência doméstica repetidas vezes até fugir e aportar na Baixada, onde conheceu meu avô. Eles não se casaram, mas tiveram quatro filhos. Todos permanecem vivos.

A oportunidade de trocar Nova Iguaçu por Jardim Palmares surgiu com a criação de um conjunto habitacional para funcionários públicos de baixa renda e ex-combatentes da Segunda Guerra Mundial. A construção começou em 1966, no fim do governo de Carlos Lacerda. Em outubro de 1967, o governador Negrão de Lima inaugurou as casas. Minha família materna chegou logo depois. Veio num caminhão de laranja.

Analfabeta, vó Alayde sempre quis aprender a ler. Era ótima com números. Ninguém conseguia enganá-la. Ela e meu avô fizeram o possível e o impossível para que os filhos estudassem, e os quatro se formaram no ensino médio. Já adulto, meu tio Ney passou no vestibular. Cursou história – um dos únicos negros da turma – e virou professor.

Eu nasci em Niterói, muito longe de Jardim Palmares, no Hospital Estadual Azevedo Lima. À época, minha mãe, auxiliar administrativa num posto de saúde, tinha uma amiga obstetra. Como a amiga trabalhava naquele hospital, deu nisso: mal nasci e precisei enfrentar um longo percurso para chegar em casa. Até hoje é assim. Cinquenta e sete quilômetros me distanciam do Centro do Rio. Demoro mais de duas horas até a faculdade ou a redação da piauí.

Meus padrinhos, velhos amigos da família, bancaram as escolas particulares onde estudei a maior parte da vida, um privilégio que meu único irmão não teve. Sou profundamente grata pela oportunidade. Encaro meus padrinhos como segundos pais. Com 17 anos, em 2015, prestei vestibular para jornalismo na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, a UFRRJ, e passei. Demorava só uma hora para desembarcar no campus de Seropédica, outra cidade da Baixada Fluminense. Na minha sala, quase todos eram suburbanos. Me sentia em casa.

No meio de 2015, porém, decidi fazer uma “loucura”: riscar um R do meu currículo acadêmico. Usando a nota que tirei em 2014, no Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, pleiteei uma vaga na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Para minha surpresa, consegui. Troquei, então, a UFRRJ pela UFRJ. De início, não pretendia deixar a Rural, mas uma amiga, também preta, virou para mim e disse: “É importante preenchermos todos os espaços. Uma menina da periferia numa universidade de elite. Você precisa ir!”

Entrei na UFRJ com o desejo de transformar o mundo. Semanas depois, tinha vontade de explodir a Escola de Comunicação, que fica na Urca, um dos bairros mais cinematográficos do Rio. Saí de minha zona de conforto para uma zona de frequente confronto. No trajeto até a faculdade, quando chegava à Zona Sul, evitava olhar pela janela do ônibus porque não me sentia pertencente àquele lugar. Não queria conhecê-lo, nem queria que ninguém dali me conhecesse. Passear no Shopping Riosul, em Botafogo, era horrível. Eu não sabia lidar com os brancos que me mediam dos pés à cabeça. De onde venho, é comum ver gente preta em todo lugar.

Quando li nas redes sociais a carta de Marielle para o Bastardos da PUC, coletivo que reúne bolsistas da universidade privada carioca, pensei que a vereadora estivesse falando diretamente comigo, aquela menina de 17 anos que acabava de ingressar na UFRJ. “É necessário que o nosso histórico pessoal seja uma mola que impulsione a nossa vida acadêmica”, escreveu a parlamentar. “Sem perder de vista a nossa identidade, o lugar e a família que nos gestaram, viver a PUC-Rio é quase uma missão política e social, já que o processo pedagógico é uma via de mão dupla: quando nos transformamos, também modificamos tudo e todos à nossa volta.”

Há um provérbio iorubá que afirma: “Se posso colocar-me de pé, é porque minhas costas estão apoiadas em minhas ancestrais.” Se meninas como eu, pretas e periféricas, podem hoje cursar uma universidade pública, é porque mulheres como Carolina Maria de Jesus, Chimamanda Ngozi Adichie, Victoria Santa Cruz, Elza Soares, Nina Simone, Sueli Carneiro, Maya Angelou, Rachel Maia, Katherine Johnson, Taís Araújo, bell hooks, Viola Davis, Dandara dos Palmares, Lupita Nyong’o, Tia Ciata, Jarid Arraes, Audre Lorde, Marielle Franco e vó Alayde vieram antes de nós. Essas e tantas outras são as responsáveis por nos fazerem acreditar que é possível.

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