Al Jazeera é terrorista, Marielle era do tráfico e a Terra é plana

Leonardo Sakamoto – Não é surpreendente uma senadora insinuar que uma rede de televisão mundialmente conhecida serve a um grupo terrorista. Nem trocar ”Estado Islâmico” por ”Exército Islâmico”. Ou proferir um discurso ignorante sobre o mundo árabe que resvala no racismo.

Aberrações como essa acontecem no dia a dia do Congresso Nacional. Basta assistir às TVs Câmara e Senado para perder um pouco mais de fé na humanidade. Se acha que estou exagerando, sugiro ver novamente a transmissão da votação do impeachment, em 2016, e os discursos que, de tão bisonhos, tornaram-se antológicos. Seja por ignorância (se houvesse teste psicotécnico para a diplomação de parlamentares, uma parte significativa de nosso Congresso certamente estaria vaga), seja por pura má fé.

O que assusta mesmo é a rapidez com a qual o discurso tosco da senadora Ana Amélia (PP-RS) foi piorado e empacotado na forma de notícia falsa para ser distribuído pelas redes sociais.

Criticando a entrevista que a também senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) deu à rede Al Jazeera para reclamar da prisão de Lula e pedir solidariedade, ela afirmou na tribuna: “Penso até que, dada a gravidade do conteúdo dessa exortação publicada pela TV Al Jazeera, para essa convocação ao apoio dos países do mundo árabe, eu só espero que não tenha sido também um pedido para que o exército islâmico venha ao Brasil atuar aqui”.

Para piorar, a senadora foi eleita presidente do Grupo Parlamentar Brasil-Arábia Saudita, nesta quinta (19), país que acusa o governo do Catar, sede da emissora, de apoiar o terrorismo. Apesar da própria Arábia Saudita seja, ela própria, também apontada como apoiadora de terrorismo. Propagador da ideologia wahabbita, uma vertente extremista do islamismo, o país é acusado de dar suporte a grupos que a professam. Vale lembrar que o Estado Islâmico e a Al Qaeda são wahabbitas.

Ou seja, se alguém de má fé quisesse fazer uma outra analogia descabida diria que a senadora tem mais chance de se comunicar com terroristas pela relação estabelecida com o reino saudita do que as milhares de pessoas que dão entrevistas à Al Jazerra – incluindo este que vos escreve.

Portanto, numa sociedade saudável, a fala da senadora seria motivo de curta chacota nos telejornais e na internet e desapareceria em pouco tempo – afinal, convenhamos, há coisas mais importantes para se fazer. Ou, no máximo, de investigação para saber se ela falou por ela ou por parceiros sauditas. Por aqui, milícias digitais e lobos solitários, agindo de má fé, aproveitaram a deixa e catalisaram uma campanha de desinformação.

Para tanto, contaram com três elementos básicos: a falta de conhecimento de um grande naco da sociedade brasileira a respeito do que ocorre além de suas fronteiras, a xenofobia latente contra determinados nacionalidades construída na base da sobreposição de discursos de intolerância e medo ao longo do tempo e o ódio contra o PT.

Desses, o terceiro elemento é o mais relevante. Vi grupos e pessoas que sabem a importância de checar uma informação antes de repassá-la adiante compartilhando conteúdo tóxico feito a partir do discurso. Como sabem que são referência para um grande número de pessoas que não age de maneira crítica diante da informação que consomem online, entregaram munição de batalha para a guerra que travam virtualmente.

Na esteira da oportunidade aberta, houve políticos que se manifestaram a favor do discurso, apoiando a senadora. Alguns faziam parte do naco hipossuficiente já citado acima. Mas parte foi claramente oportunista, porque mesmo sabendo que esse tipo de insinuação não procedia, gravaram vídeos e fizeram discursos para se autopromover junto à parte desinformada, preconceituosa ou antipetista de seus eleitores de olho nos votos de outubro.

Fingem desconhecer o tamanho do dano causado ao gritar ”fogo” em um teatro lotado quando não há incêndio algum. Quem sofre as consequências não é um partido político, mas a sociedade – que sobe um degrau na escala da ultrapolarização, rompe pontes de diálogo e se aprofunda na burrice. Burrice que não significa a falta de conhecimento, mas o ódio ao conhecimento em si.

Essa burrice enxerga um desmentido a uma notícia falsa como notícia falsa porque não admite um conteúdo com o qual não concorde. Neste caso, para o grupo de pessoas que aprendeu com os pregadores do caos que o PT era uma ”organização terrorista”, a informação da conspiração entre a Al Jazeera e o ”Exército Islâmico” casa perfeitamente com sua visão de mundo. E será tratada como verdade e repassada como tal.

Padrão semelhante com o que ocorreu com a disseminação de informações falsas sobre a vereadora Marielle Franco, executada há mais de um mês no Rio de Janeiro. Milícias digitais fizeram correr informações falsas de que ela teria namorado um traficante de drogas e estaria ligada a facções criminosas. Para as pessoas que eram contra o que Marielle representava em vida e estavam silenciosamente ruminando ódio por conta da visibilidade que seu assassinato ganhou em todo o mundo, a informação falsa veio em boa hora para reafirmar suas crenças. E, portanto, foi abraçada e distribuída. E, mesmo após os desmentidos, segue sendo a verdade.

A Al Jazerra sendo um veículo de comunicação para terroristas árabes faz todo o sentido no mundo das pessoas que consideram a ONU uma organização comunista, a Declaração Universal dos Direitos Humanos o fruto de uma conspiração soviética, o governo Michel Temer como uma administração de esquerda e Marielle Franco como parceira de facções criminosas.

Não me admiraria, portanto, se o mesmo povo também defendesse que a Terra é plana.

https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2018/04/20/al-jazeera-e-terrorista-marielle-era-do-trafico-e-a-terra-e-plana/

Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controvérsia e escreve semanalmente.

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