Aquém da Mercadoria (para crianças)

Jean Pierre Chauvin – Houve um tempo em que o Terráqueo era mais (ou, ao menos, valia mais) que a Mercadoria.

Isso durou, mais ou menos, da Babilônia, uns cinco mil anos antes de Cristo, até o final do século XVIII da “nossa” Era. Então, veio a dita Revolução Industrial, na Inglaterra, e a chamada Revolução Francesa, a reivindicar o rodízio entre nobres e burgueses.

Em meados do século XIX, dois jovens ensaístas, Karl Marx e Friedrich Engels, somaram forças e propuseram o conceito de Mercadoria. Àquela altura, acreditavam que, por não deter os meios de produção, o proletário vendia sua força de trabalho em troca de salário. Enquanto o industrial ficava com os lucros, em parte extraídos da mais-valia (exploração desmedida do trabalho alheio), o proletário passava a figurar, cada vez menos, como ator no teatro dos objetos consumíveis (uns com “valor de uso”; outros, com “valor de troca”).

Como Engels mostrou, com base em entrevistas realizadas com os proletários, matérias publicadas em jornais, e relatórios apresentados por médicos e sanitaristas de seu tempo (A situação da classe trabalhadora na Inglaterra), as indústrias britânicas passaram a priorizar empregados (inclusive crianças) que morassem nos becos e se amontoassem em cubículos dos bairros mais afastados do centro comercial e mais próximos do local de emprego.

Durante as décadas de 1840 e 1880, o homem foi alertado — de diversas maneiras — sobre o seu futuro imediato: confundir-se com a Mercadoria que ele mesmo produziu.

No início do século XX, a coisa melhorou. O estadunidense Frederick Winslow Taylor implementou maior “racionalidade” (sim, o termo consistia numa terrível ironia) sem razão. Distanciar o trabalhador de suas tarefas; especializar a sua função até o mínimo, de maneira que ele perdesse a dimensão do todo que produzia. O industrial ganharia em velocidade; veria aumentar o lucro e não repassaria porcentagem maior ao proletário.

Após a Segunda Guerra Mundial, outra parte considerável dos homens sentiu a perda de sua dignidade (expressão que tomo de Primo Levi, que assim se refere aos judeus, em É isto um homem?). A partir de então, o ser humano, que já havia aprendido a ser coisa e a se equiparar a um pedaço da mercadodia que fabricava, aprendia que a violência pressuposta pelo lucro de alguns era resguardada pelo discurso pseudo científico, o pragmatismo e as armas (inclusive as nucleares, testadas pelo país mais “democrático” em duas cidades do Japão).

Nos anos de 2010, um banco — que beliscou a falência na Espanha — passou a disseminar, no Brasil, seus mais novos produtos, voltados, em tese, para o homem pós-racional. Sob a forma de pulseiras e adesivos, sugere que a submercadoria homem possa consumir o que e onde quiser, de modo quase imediato. É, de fato, uma notável evolução. Foi-se o tempo em que o comerciante decalcava os dados em relevo do cartão (emblema do cliente em acetato) em duas vias de papel carbono; foi-se o tempo em que o cartão de crédito era inserido nas “maquininhas” e o consumidor precisava “perder tempo” inserindo sua “senha”, redundantemente “pessoal” e, supostamente, “intransferível”.

Agora, sim. O ser sub-mercadológico, que já aprendeu a assistir a shows apenas pela câmera do celular; que confunde reflexão (ou leitura) com improdutividade; que passa o trajeto, a caminho do “trampo” ou da “Facul”, a trocar fofocas via mensagens textuais pré-moldadas, ou a gravar áudios enfáticos para a contraparte, chegou ao estágio máximo da evolução. Decerto, haverá grande vantagem em comprar, comprar e comprar, rápido, mais rápido, de imediato, bastando aproximar a pulseira ou o adesivo da “maquininha”.

Também nisso, as máquinas levam vantagem: andam a dialogar melhor que nós, com o bônus de não cometerem erros, mas induzir-nos aos nossos.

A precisão, afinal, é uma das palavras-chave de nosso tempo. Ela veio a favorecer o consumidor, que já andava enfastiado por tanto digitar a senha “pessoal e intransferível” do “seu” cartão. A precisão também autorizou o emprego de atentado “cirúrgico”, em uma vereadora do Rio de Janeiro, há coisa de trinta dias. Impeliu, inclusive, o “xerife do planeta” (com que parafraseio o saudoso Eduardo Galeano) a destruir alvos “específicos” na Síria, comprovando que não há paradoxo em bombardear, por conta própria e a ajuda de aliados históricos, para evitar o bombardeio alheio.

Porventura, algum leitor inopinado afirmará que sou contra a modernidade. Que, por isso, menciono coisas tão antigas quanto filósofos/economistas do século XIX e administradores do final do século XX. Também dirá que falo de gente distante do centro do mundo, por me referir a um jornalista uruguaio, por sinal, já morto. Quererá dizer que me recuso a aceitar a evolução do mundo e que nem tudo é tão desprezível na ordem do consumo?

Se me concedem mais duas linhas, responder-lhe-ia(s) que sou contrário a qualquer forma de progresso que implique desumanização ou desconsidere o pendão humanitário.

Mas, pensando bem, sabe que a tal pulseira dos cidadãos sem-crédito tem lá a sua vantagem? Será que o banco disponibilizará o objeto em cores para cada dia da semana? Nos dias em que eu estiver mais ecológico, boto a verde; nos dias em que estiver com excesso de bile, ponho a amarela; quando sair em estilo gothic rock, meto a pulseira preta; e se me encontrar com amigos num pique-nique urbanoide, autorizado pela CET, a azul celestial.

O único temor é que certas figuras impensantes venham a me surrar na Avenida Paulista, caso confundam a pulseira vermelha (cor do banco) com petralhismo. Seria o cúmulo do consumo: não de ideias, mas de violência retroalimentada pelo discurso de ódio dos “homens de bem”, que andam firmes e cegos, a fingir seriedade e falta de tempo, na Pauliceia.

https://jornalggn.com.br/blog/jean-pierre-chauvin/aquem-da-mercadoria-para-criancas-por-jean-pierre-chauvin

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