Estaremos diante de novas ditaduras na América Latina?

Jorge Beinstein – A ra­di­ca­li­zação re­a­ci­o­nária dos go­vernos de países como Pa­ra­guai, Ar­gen­tina, Brasil, Mé­xico ou Hon­duras co­meça a gerar po­lê­mica na Amé­rica La­tina quanto à sua ca­rac­te­ri­zação.

Ne­nhum desses re­gimes re­sultou de golpes de Es­tado mi­li­tares. Nos casos do Brasil, Hon­duras ou Pa­ra­guai, a des­ti­tuição dos pre­si­dentes foi re­a­li­zada (me­di­ante pa­ródia cons­ti­tu­ci­onal) pelo poder le­gis­la­tivo em com­bi­nação mais ou menos forte com os po­deres ju­di­cial e mi­diá­tico. No Brasil, a pre­si­dência passou a ser exer­cida pelo vice-pre­si­dente Mi­chel Temer (un­gido por um golpe par­la­mentar) cujo nível de acei­tação po­pular se­gundo di­versas pes­quisas ron­daria apenas 3% dos ci­da­dãos. No Pa­ra­guai, ocorreu o mesmo e o pre­si­dente des­ti­tuído foi subs­ti­tuído pelo vice-pre­si­dente através de um pro­ce­di­mento par­la­mentar ex­presso e a se­guir foram re­a­li­zadas elei­ções pre­si­den­ciais que con­sa­graram Ho­rácio Cartes, um per­so­nagem de ul­tra­di­reita com in­dí­cios de vín­culo ao nar­co­trá­fico.

Em Hon­duras re­a­li­zaram-se elei­ções pre­si­den­ciais em no­vembro de 2017, a “Ali­anza de Opo­si­ción contra la Dic­ta­dura” havia ganho cla­ra­mente, mas o go­verno, fa­zendo honra ao qua­li­fi­ca­tivo com que o havia mar­cado a opo­sição, con­sumou uma fraude es­can­da­losa afir­mando assim a con­ti­nui­dade do di­tador Juan Or­lando Her­nandez.

Um caso ex­tre­ma­mente cu­rioso é o da Ar­gen­tina, onde em 2015 se re­a­li­zaram elei­ções pre­si­den­ciais em meio a uma ava­lanche mi­diá­tica, econô­mica e ju­di­cial sem pre­ce­dentes contra o go­verno e fa­vo­rável ao can­di­dato di­rei­tista Mau­ricio Macri. O re­sul­tado foi a vi­tória de Macri por es­cassa margem, o qual logo que as­sumiu a pre­si­dência avançou sobre os ou­tros po­deres do Es­tado con­se­guindo em pouco tempo a soma do poder pú­blico. Se a essa con­cen­tração de poder acres­cen­tarmos o con­trole dos meios de co­mu­ni­cação e o poder econô­mico, en­con­tramo-nos pe­rante uma pe­quena ca­ma­rilha com uma ca­pa­ci­dade de con­trole pró­pria de uma di­ta­dura.

Com­pleta o pa­no­rama o com­por­ta­mento cada vez mais re­pres­sivo do go­verno que, pela pri­meira vez desde o fim da di­ta­dura mi­litar em 1983, de­cidiu pela in­ter­venção das Forças Ar­madas em con­flitos in­ternos me­di­ante a cons­ti­tuição de uma “força mi­litar de ar­ranque rá­pido” in­te­grada por efe­tivos do Exér­cito, da Ma­rinha e da Ae­ro­náu­tica e a for­mação de uma força ope­ra­tiva con­junta com a DEA (agência an­ti­drogas dos EUA), uti­li­zando a des­culpa da “luta contra o nar­co­trá­fico e o ter­ro­rismo“.

Desse modo, a Ar­gen­tina in­cor­pora-se numa ten­dência re­gi­onal im­posta pelos Es­tados Unidos de re­con­versão con­ver­gente das Forças Ar­madas con­ven­ci­o­nais, das po­lí­cias e ou­tras es­tru­turas de se­gu­rança em po­lí­cias-mi­li­tares ca­pazes de “con­trolar” as po­pu­la­ções desses países. Não se­guindo o velho es­tilo con­ser­vador-quar­te­lada ins­pi­rado na “dou­trina de se­gu­rança na­ci­onal” e sim es­ta­be­le­cendo es­paços so­ciais caó­ticos imersos no de­sastre, atra­ves­sados pre­ci­sa­mente pelo nar­co­trá­fico (pro­mo­vido e ma­ni­pu­lado desde cima) e ou­tras formas de cri­mi­na­li­dade dis­so­ci­a­dora se­guindo a dou­trina da Guerra de Quarta Ge­ração.

No Mé­xico, como sa­bemos, su­cedem-se os go­vernos frau­du­lentos imersos numa cres­cente onda de bar­bárie e na Colômbia a abs­tenção elei­toral tra­di­ci­o­nal­mente ma­jo­ri­tária chegou re­cen­te­mente a cerca de dois terços do pa­drão elei­toral, ador­nada por um muito pu­bli­ci­tado “pro­cesso de paz” que con­se­guiu a ren­dição das FARC (Forças Ar­madas Re­vo­lu­ci­o­ná­rias da Colômbia) as­se­gu­rando ao mesmo tempo a pre­ser­vação da di­nâ­mica de sa­ques, as­sas­si­nato e con­cen­tração de ren­di­mentos que ca­rac­te­riza tra­di­ci­o­nal­mente esse sis­tema.

Nestes dois casos não nos en­con­tramos pe­rante algo “novo”, mas di­ante de re­gimes re­la­ti­va­mente ve­lhos que foram evo­luindo até che­garem hoje a cons­ti­tuir ver­da­deiros exem­plos de apli­cação com êxito das téc­nicas mais avan­çadas de de­sin­te­gração so­cial. A tra­gédia desses países mostra o fu­turo que aguarda os recém-che­gados ao in­ferno.

O pa­no­rama na Amé­rica La­tina é com­ple­tado com as ten­ta­tivas de res­tau­ração re­a­ci­o­nária na Bo­lívia e na Ve­ne­zuela. No caso ve­ne­zu­e­lano, a in­ter­venção di­reta dos Es­tados Unidos pro­cura re­cu­perar (re­co­lo­nizar) a maior re­serva pe­tro­lí­fera do mundo no mo­mento em que o rei­nado do pe­tro­dólar (fun­da­mento da he­ge­monia fi­nan­ceira global do im­pério) entra em de­clínio rá­pido pe­rante a as­censão da China (o maior com­prador in­ter­na­ci­onal de pe­tróleo). Esta, pro­cura impor a sua pró­pria moeda apoiada pelo ouro (o petro-yuan-ouro) em ali­ança pre­ci­sa­mente com a Ve­ne­zuela e ou­tros gi­gantes do setor ener­gé­tico, como a Rússia e o Irã.

Na Bo­lívia, o apa­relho de in­te­li­gência im­pe­rial re­a­liza uma das suas ma­ni­pu­la­ções de ma­nual ins­pi­rada na dou­trina da Guerra de Quarta Ge­ração. Põe em ação seus apên­dices mi­diá­ticos lo­cais e glo­bais ten­tando lançar a his­teria (neste caso ra­cista) de faixas im­por­tante das classes mé­dias brancas e mes­tiças contra o pre­si­dente índio. Aqui não só se trata de varrer um go­verno pro­gres­sista como também de apro­priar-se das re­servas de lítio, as mai­ores do mundo (se­gundo di­fe­rentes pros­pec­ções, a Bo­lívia con­taria com apro­xi­ma­da­mente 50% das re­servas de lítio do pla­neta), ele­mento-chave na fu­tura re­con­versão ener­gé­tica global.

Prin­ci­pais ca­rac­te­rís­ticas

As atuais di­ta­duras da Amé­rica La­tina têm todas as ca­rac­te­rís­ticas para apre­sentar uma imagem civil com apa­rência de res­peito pelos pre­ceitos cons­ti­tu­ci­o­nais, man­tendo um ca­len­dário elei­toral com plu­ra­li­dade de par­tidos e os de­mais traços de um re­gime de­mo­crá­tico de acordo com as re­gras oci­den­tais.

Por outro lado, en­con­tramo-nos pe­rante me­ca­nismos ex­plí­citos de cen­sura e, ainda que mar­gi­nais ou em po­si­ções muito se­cun­dá­rias, ouvem-se al­gumas vozes di­ver­gentes. Os pri­si­o­neiros po­lí­ticos passam quase sempre pelos tri­bu­nais onde os juízes os con­denam de ma­neira ar­bi­trária, mas apa­ren­tando apoiar-se nas normas le­gais vi­gentes.

Os as­sas­si­natos de opo­si­tores são mi­ni­mi­zados ou ocul­tados pelos meios de co­mu­ni­cação e ficam em geral en­voltos por mantos de con­fusão que di­luem as culpas es­ta­tais, amal­ga­mando de ma­neira sis­te­má­tica os crimes po­lí­ticos com as vi­o­lên­cias po­li­ciais contra po­bres e pe­quenos de­lin­quentes so­ciais e re­pres­sões aos pro­testos po­pu­lares.

Essa más­cara de­mo­crá­tica, pro­li­xa­mente ne­gli­gente, acaba por ser o que é: uma más­cara, quando cons­ta­tamos que os meios de co­mu­ni­cação da Amé­rica La­tina con­ver­tidos num ins­tru­mento de ma­ni­pu­lação total da po­pu­lação estão con­tro­lados por mo­no­pó­lios como o grupo Clarín, na Ar­gen­tina, O Globo, no Brasil ou Te­le­visa, no Mé­xico, cujos pro­pri­e­tá­rios fazem parte do cír­culo es­treito do Poder. Ou quando che­gamos à con­clusão de que o sis­tema ju­di­cial está com­ple­ta­mente con­tro­lado por esse cír­culos do qual par­ti­cipam os prin­ci­pais in­te­resses econô­micos (trans­na­ci­o­na­li­zados) ma­ne­jando dis­cre­ta­mente o apa­relho po­li­cial-mi­litar.

Em con­sequência, os par­tidos po­lí­ticos sig­ni­fi­ca­tivos, os meios de co­mu­ni­cação, as grandes es­tru­turas sin­di­cais e ou­tros es­paços de ex­pressão po­ten­cial da so­ci­e­dade civil estão es­tra­te­gi­ca­mente con­tro­lados (para além de certos des­con­troles tá­ticos) me­di­ante uma teia em­bru­lhada de re­pres­sões, chan­ta­gens, crimes se­le­tivos, abusos ju­di­ciais, bom­bar­deios mi­diá­ticos es­ma­ga­dores, dis­so­ci­a­dores ou dis­ci­pli­na­dores e fraude elei­toral mais ou menos des­ca­rada con­forme o pro­blema con­creto re­solver.

O novo pa­no­rama da Amé­rica La­tina pro­vocou uma crise no­tável de per­cepção onde a re­a­li­dade se choca com prin­cí­pios ide­o­ló­gicos, con­cei­tu­a­ções e ou­tros com­po­nentes de um “sen­tido comum” her­dado do pas­sado. Não somos ví­timas de um rí­gido en­qua­dra­mento da po­pu­lação com pre­ten­sões to­ta­li­tá­rias ex­plí­citas que anule toda pos­si­bi­li­dade de dis­sensão, pro­cu­rando in­te­grar o con­junto da so­ci­e­dade num sim­ples es­quema mi­litar, e sim pe­rante sis­temas fle­xí­veis, na re­a­li­dade con­fusos, que não tentam dis­ci­plinar a todos, mas antes de­sar­ti­cular, de­gradar a so­ci­e­dade civil, con­ver­tendo-a numa ví­tima ino­fen­siva, es­ma­gada pela tra­gédia.

Atu­al­mente na Amé­rica La­tina não se apre­sentam pro­jetos na­ci­o­nais des­me­su­rados, pró­prios dos mi­li­tares “sal­va­dores da pá­tria” de ou­tros tempos, ou ima­gens si­nis­tras como a de Pi­no­chet, nem se­quer dis­cursos hi­pe­ro­ti­mistas como os dos glo­ba­listas ne­o­li­be­rais dos anos 1990 ou per­so­na­gens cô­micos como Carlos Menem. Mas, sim, pre­si­dentes sem ca­risma, torpes, abor­re­cidos re­pe­ti­dores de frases ba­nais pre­pa­radas pelos as­ses­sores de imagem que formam uma rede re­gi­onal glo­ba­li­zada de “for­ma­dores de opi­nião” made in USA.

Em suma, as di­ta­duras blin­dadas e triun­fa­listas do pas­sado pa­recem ter sido subs­ti­tuídas na Amé­rica La­tina por di­ta­duras ou pro­to­di­ta­duras cin­zentas que ofe­recem pouco ou nada, mon­tadas sobre em­bru­te­ce­dores ci­lin­dros com­pres­sores mi­diá­ticos. Sempre por trás (na re­a­li­dade por cima) destes fenô­menos en­con­tram-se o apa­relho de in­te­li­gência dos Es­tados Unidos e os de al­guns dos seus ali­ados. A CIA, a DEA, o Mossad, o MI6, con­forme os casos ma­ni­pulam os mi­nis­té­rios da se­gu­rança ou da de­fesa, os das re­la­ções ex­te­ri­ores, as grandes es­tru­turas po­li­ciais desses re­gimes vas­salos e con­cebem es­tra­té­gias elei­to­rais frau­du­lentas e re­pres­sões pon­tuais.

Ca­pi­ta­lismo de de­sin­te­gração

Forjam-se assim ar­ti­cu­la­ções com­plexas, sis­temas de do­mi­nação onde con­vergem elites lo­cais (mi­diá­ticas, po­lí­ticas, em­pre­sa­riais, po­li­cial-mi­li­tares, etc.) com apa­re­lhos ex­ternos in­te­grantes do sis­tema de poder dos Es­tados Unidos.

Estas forças do­minam a so­ci­e­dade mar­cadas pelo que po­deria ser qua­li­fi­cado como “ca­pi­ta­lismo de de­sin­te­gração”, ba­seado no saque de re­cursos na­tu­rais, na es­pe­cu­lação fi­nan­ceira e na cres­cente mar­gi­na­li­zação da po­pu­lação, ra­di­cal­mente di­fe­rente dos ve­lhos ca­pi­ta­lismos sub­de­sen­vol­vidos es­tru­tu­rados em torno de ati­vi­dades pro­du­tivas (agrí­colas, mi­neiras, in­dus­triais).

Não é que nos ve­lhos sis­temas não exis­tissem o saque de re­cursos e o ban­di­tismo fi­nan­ceiro, que em al­guns mo­mentos e países ocu­pavam o centro da cena, mas no longo prazo e na maior parte dos casos fi­cavam num se­gundo plano. A su­pe­rex­plo­ração da mão-de-obra e mo­no­pólio dos lu­cros pro­du­tivos sur­giam como os prin­ci­pais ob­je­tivos econô­micos di­retos da­quelas di­ta­duras.

Tam­pouco é certo que agora as elites do­mi­nantes na Amé­rica La­tina se de­sin­te­ressem dos sa­lá­rios ou da pro­pri­e­dade da terra. Ao con­trário, de­sen­volvem um amplo leque de es­tra­ta­gemas des­ti­nados a re­duzir os sa­lá­rios reais e apro­priar-se de ter­ri­tó­rios. Apesar de que nos ve­lhos ca­pi­ta­lismos não existia só pro­dução, mas também es­pe­cu­lação e saque, nos atuais a base pro­du­tiva, em re­tração por causa da pi­lhagem des­me­su­rada, con­tinua a ser uma fonte im­por­tan­tís­sima de be­ne­fí­cios.

Con­tudo, a sua pre­ser­vação, a sua re­pro­dução no longo prazo, não está no centro das pre­o­cu­pa­ções co­ti­di­anas das elites, presas psi­co­lo­gi­ca­mente pela di­nâ­mica pa­ra­si­tária da es­pe­cu­lação fi­nan­ceira e seu en­torno de ne­gó­cios turvos.

Isto acon­tece porque, entre ou­tras coisas, no atual ima­gi­nário bur­guês o longo prazo de­sa­pa­receu, suas ope­ra­ções mais im­por­tantes são re­gidas pelo curto prazo lúm­pen­ca­pi­ta­lista. No saque de re­cursos na­tu­rais através da me­ga­mi­ne­ração a céu aberto, da ex­tração de gás e pe­tróleo de xisto ou da agri­cul­tura ba­seada em trans­gê­nicos, uti­lizam-se tec­no­lo­gias ori­en­tadas pela ve­lo­ci­dade do ritmo fi­nan­ceiro ao ser­viço de gente que não tem tempo nem in­te­resse para se de­dicar a temas tais como a saúde da po­pu­lação afe­tada, o equi­lí­brio am­bi­ental e ou­tras áreas im­pac­tadas pelos “danos co­la­te­rais” do êxito em­pre­sa­rial (fi­nan­cei­ri­zação da mu­dança tec­no­ló­gica, a cul­tura téc­nica do­mi­nante como au­xi­liar do saque).

Estes ca­pi­ta­lismos de de­sin­te­gração são con­du­zidos por elites que podem ser ca­rac­te­ri­zadas como lum­pen­bur­gue­sias, bur­gue­sias prin­ci­pal­mente pa­ra­si­tá­rias, trans­na­ci­o­na­li­zadas, fi­nan­ci­a­ri­zadas, os­ci­lando entre o legal e o ilegal, cada vez mais afas­tadas da pro­dução. São ins­tá­veis não por aci­dentes da con­jun­tura e sim pela sua es­sência de­ca­dente. Por cima delas en­con­tram-se as grandes po­tên­cias e suas elites em­bar­cadas desde há tempos no ca­minho da de­gra­dação, num pla­neta onde os pro­dutos fi­nan­ceiros de­ri­vados re­pre­sen­tavam em fins de 2017 umas sete vezes o Pro­duto Global Bruto, onde a dí­vida global total (pú­blica mais pri­vada) era de quase três vezes do Pro­duto Global Bruto. Nesta, só cinco grandes bancos es­ta­du­ni­denses dis­pu­nham de “ativos fi­nan­ceiros de­ri­vados” da ordem dos 250 tri­lhões de dó­lares (13 vezes o Pro­duto In­terno Bruto dos Es­tados Unidos), onde as oito pes­soas mais ricas do mundo dis­põem em con­junto de uma ri­queza equi­va­lente a 50% da po­pu­lação mun­dial (os mais po­bres).

A for­mação e es­ca­lada dessas elites la­tino-ame­ri­canas são o re­sul­tado de pro­lon­gados pro­cessos de de­ca­dência es­tru­tural e cul­tural, de um sub­de­sen­vol­vi­mento que já in­cluiu vá­rias dé­cadas de com­po­nentes pa­ra­si­tá­rios que foram se apro­pri­ando do sis­tema, car­co­mendo-o, en­ve­ne­nando, apo­dre­cendo, se­guindo a ló­gica so­bre­de­ter­mi­nante do ca­pi­ta­lismo global, não de ma­neira me­câ­nica, mas im­pondo es­pe­ci­fi­ci­dades na­ci­o­nais pró­prias de cada de­ge­ne­ração so­cial.

Por baixo dessas elites surgem po­pu­la­ções frag­men­tadas, com tra­ba­lha­dores in­te­grados do ponto de vista das normas la­bo­rais em vigor se­pa­rados dos tra­ba­lha­dores in­for­mais, pre­cá­rios. Com massas cres­centes de mar­gi­nais ur­banos, de po­bres e in­di­gentes es­tig­ma­ti­zados pelos meios de co­mu­ni­cação, des­pre­zados por boa parte das classes in­te­gradas que vão se ape­que­nando na me­dida em que avançam os pro­cessos de con­cen­tração econô­mica e pi­lhagem de ri­quezas.

Não se trata de es­paços so­ciais es­tan­ques, seg­men­tados de modo es­tável, e sim de so­ci­e­dade sub­me­tidas à re­pro­dução am­pliada da ra­pina eli­tista trans­na­ci­o­na­li­zada, à su­cessão in­ter­mi­nável de trans­fe­rên­cias de ren­di­mentos de baixo para cima e para o ex­te­rior, à de­gra­dação cres­cente da qua­li­dade de vida das classes baixas, assim como de por­ções cres­centes das ca­madas mé­dias.

Al­guns au­tores re­ferem-se ao fenô­meno qua­li­fi­cando-o de “ne­o­li­be­ra­lismo tardio”, algo assim como um re­gresso aos pa­ra­digmas ne­o­li­be­rais que ti­veram seu auge nos anos 1990, mas num con­texto global des­fa­vo­rável a esse re­torno (as­censão do pro­te­ci­o­nismo co­mer­cial, de­clínio da uni­po­la­ri­dade em torno dos Es­tados Unidos etc.). Nós nos en­con­tra­ríamos, por­tanto, frente a uma aber­ração his­tó­rica, um con­tras­senso econô­mico e ge­o­po­lí­tico pro­ta­go­ni­zado por cír­culos di­ri­gentes obs­ti­nados na sua su­bor­di­nação ao im­pério norte-ame­ri­cano, in­ter­rom­pendo a marcha normal, ra­ci­onal, pro­gres­sista e des­po­la­ri­zante que pre­do­mi­nava na Amé­rica La­tina. As di­reitas la­tino-ame­ri­canas en­con­trar-se-iam em­bar­cadas em um pro­jeto na con­tramão da evo­lução do mundo.

Mas acon­tece que o mundo não se en­ca­minha rumo a uma nova har­monia, um novo ciclo pro­du­tivo, mas ao apro­fun­da­mento de uma crise de longa du­ração, ini­ciada há quase meio sé­culo. Esta se ca­rac­te­riza, entre ou­tras coisas, pelo de­clínio ten­den­cial das taxas de cres­ci­mento das eco­no­mias ca­pi­ta­listas cen­trais tra­di­ci­o­nais e pela hi­per­trofia fi­nan­ceira (fi­nan­cei­ri­zação da eco­nomia global), im­pul­si­o­nando a rup­tura de normas, le­gi­ti­mi­dades ins­ti­tu­ci­o­nais e equi­lí­brios so­ci­o­cul­tu­rais que as­se­gu­ravam a re­pro­dução da ci­vi­li­zação bur­guesa para além das tur­bu­lên­cias po­lí­ticas ou econô­micas.

A mu­tação pa­ra­si­tário-de­pre­da­dora do ca­pi­ta­lismo tem como centro um Oci­dente ar­ti­cu­lado em torno do im­pério norte-ame­ri­cano, mas en­volve o con­junto da pe­ri­feria e também afeta po­tên­cias emer­gentes como a China ou a Rússia, muito de­pen­dentes das suas ex­por­ta­ções, em que os mer­cados da Eu­ropa, Es­tados Unidos e Japão cum­prem um papel de­ci­sivo.

Assim, as taxas de cres­ci­mento do Pro­duto In­terno Bruto da China vêm se de­sa­ce­le­rando e a eco­nomia russa os­cila entre a re­cessão, a es­tag­nação e o cres­ci­mento anê­mico.

Um as­pecto es­sen­cial da nova si­tu­ação global é o ca­ráter aber­ta­mente de­vas­tador das di­nâ­micas agrí­colas, mi­neiras e in­dus­triais mo­to­ri­zadas tanto pelas po­tên­cias tra­di­ci­o­nais como pelas emer­gentes, cujos efeitos dei­xaram de ser uma ne­bu­losa ameaça fu­tura para se con­ver­terem num de­sastre pre­sente que se vai am­pli­ando ano após ano.

Tudo isto nos de­veria levar à con­clusão de que os re­gimes re­a­ci­o­ná­rios da Amé­rica La­tina não têm nada de tardio, de de­sa­tu­a­li­zado, de des­lo­ca­li­zação his­tó­rica. São, na ver­dade, a ex­pressão do apo­dre­ci­mento ra­dical das suas elites, da sua mu­tação pa­ra­si­tária en­la­çada com um fenô­meno global que as in­clui.

O que nos per­mite des­co­brir não só a fra­gi­li­dade his­tó­rica, a ins­ta­bi­li­dade dessas bur­gue­sias, tão pre­po­tentes e vo­razes como do­en­tias, como também as vãs ilu­sões pro­gres­sistas ne­ga­doras da re­a­li­dade que, ao qua­li­ficar de tardio o lum­pen­ca­pi­ta­lismo do­mi­nante marcam-no como anô­malo, fora da época, alen­tando a es­pe­rança do re­torno à “nor­ma­li­dade” de um novo ciclo de pros­pe­ri­dade na re­gião, mais ou menos key­ne­siano, mais ou menos pro­du­tivo, mais ou menos de­mo­crá­tico, mais ou menos ra­zoável, nem muito di­rei­tista nem muito es­quer­dista, nem tão eli­tista nem tão po­pu­lista.

O su­jeito bur­guês desse ho­ri­zonte bur­guês de fan­tasia está só na sua ima­gi­nação, a marcha real do mundo con­verteu-o num ha­bi­tante fan­tas­ma­gó­rico da me­mória. En­quanto isso os grandes “em­pre­sá­rios”, os cír­culos con­cretos de poder, par­ti­cipam de corpo e alma na orgia da de­vas­tação, tão de­sin­te­res­sados no longo prazo e no de­sastre so­cial e am­bi­ental quanto na ra­ci­o­na­li­dade pro­gres­sista (à qual con­si­deram es­torvo, um travão po­pu­lista ao livre fun­ci­o­na­mento do “mer­cado”).

Re­a­ções po­pu­lares e apro­fun­da­mento da crise

A grande in­cóg­nita é a que se re­fere ao fu­turo com­por­ta­mento das grandes mai­o­rias po­pu­lares que foram afe­tadas tanto do ponto de vista econô­mico como cul­tural pela de­ca­dência do sis­tema. As elites pu­deram apro­veitar a de­ses­tru­tu­ração, as ir­ra­ci­o­na­li­dades so­ciais ge­radas por um fenô­meno per­verso que atra­vessou tanto as etapas di­rei­tistas como as pro­gres­sistas.

Du­rante os pe­ríodos de go­vernos de di­reita civis ou mi­li­tares pro­mo­vendo e ga­ran­tindo pri­vi­lé­gios e abusos de todo tipo, afirmou-se um “sen­tido comum” egoísta, dis­so­ci­ador, su­bes­ti­mador de iden­ti­dades cul­tu­rais so­li­dá­rias. Mas quando che­garam as ex­pe­ri­ên­cias pro­gres­sistas essas elites uti­li­zaram a de­gra­dação so­cial exis­tente, a frag­men­tação ne­o­li­beral her­dada (en­la­çadas em al­guns casos com tra­di­ções de mar­gi­na­li­zação muito en­rai­zadas), im­pul­si­o­nando ir­rup­ções ra­cistas, ne­o­fas­cistas das ca­madas mé­dias es­ten­didas por vezes até es­paços médio-baixos onde se mis­turam o pe­queno co­mer­ci­ante com o as­sa­la­riado in­te­grado (em con­sequência, acima do mar­gi­na­li­zado, do pre­cário).

As­sis­timos assim no Brasil, Ar­gen­tina, Bo­lívia ou Ve­ne­zuela a mo­bi­li­za­ções his­té­ricas de classes mé­dias ur­banas ne­o­fas­cistas a exi­girem as ca­beças dos go­ver­nantes “po­pu­listas”, ma­ni­pu­ladas pelos meios de co­mu­ni­cação e pelos po­deres econô­micos que o pro­gres­sismo havia res­pei­tado como parte de seu per­ten­ci­mento ao sis­tema (ad­mi­tida aber­ta­mente, si­len­ciada ou ne­gada de ma­neira su­per­fi­cial ou in­su­fi­ci­ente).

Agora as cha­madas res­tau­ra­ções con­ser­va­doras ou di­rei­tistas não estão a res­taurar o pas­sado ne­o­li­beral, mas a ins­taurar es­quemas de de­vas­tação nunca antes vistos. Pu­deram triunfar graças às li­mi­ta­ções e es­va­zi­a­mentos de pro­gres­sistas en­cur­ra­lados pelas crises de sis­temas que eles pre­ten­diam me­lhorar, re­formar ou em al­guns casos su­perar de ma­neira in­dolor, gra­dual, “ci­vi­li­zada”.

Mas a crises na­ci­o­nais não se detêm. Ao con­trário, são in­cen­ti­vadas pelos com­por­ta­mentos sa­que­a­dores das di­reitas go­ver­nantes que con­ti­nuam a pra­ticar suas tá­ticas dis­so­ci­a­doras, de em­bru­te­ci­mento co­le­tivo, bus­cando gerar ódio so­cial para com os po­bres. Os meios de co­mu­ni­cação tra­ba­lham a todo vapor por trás desses ob­je­tivos e na me­dida em que o de­clínio econô­mico avança, pres­si­o­nado pelas po­lí­ticas ofi­ciais e pela marcha da crise global, as ma­ni­pu­la­ções mi­diá­ticas co­meçam a se de­mons­trar im­po­tentes pe­rante a maré as­cen­dente de pro­testos po­pu­lares.

A vir­tu­a­li­dade do mar­ke­ting ne­o­fas­cista co­meça a ser ul­tra­pas­sada pela ma­te­ri­a­li­dade das pe­nú­rias, não só dos po­bres como também de ca­madas mé­dias que se vão em­po­bre­cendo. Males ma­te­riais que ao se am­pli­arem lhes abrem a porta à re­beldia da­queles que foram en­ga­nados e dos que foram cré­dulos. É assim que no Brasil o re­púdio po­pular ao go­verno de Temer é es­ma­gador e na Ar­gen­tina a imagem edul­co­rada de Macri se dilui ve­loz­mente en­quanto se es­tendem os pro­testos po­pu­lares.

A re­pressão, a mi­li­ta­ri­zação dos go­vernos de di­reitas surge então como al­ter­na­tiva de go­ver­na­bi­li­dade. As di­nâ­micas di­ta­to­riais desses re­gimes vão en­gen­drando dis­po­si­tivos po­li­cial-mi­li­tares com a es­pe­rança de con­trolar os de baixo; vão fun­ci­o­nando com cada vez maior in­ten­si­dade os me­ca­nismos de “co­o­pe­ração he­mis­fé­rica”: for­ne­ci­mento de ar­ma­mento e ca­pa­ci­tação para o con­trole de pro­testos so­ciais, mul­ti­pli­cação de es­tru­turas re­pres­sivas na­ci­o­nais e re­gi­o­nais mo­ni­to­radas a partir dos Es­tados Unidos.

Trata-se de um com­bate com final aberto entre forças so­ciais que pro­curam so­bre­viver e que, ao fazê-lo, podem chegar a en­gen­drar vastos mo­vi­mentos de re­ge­ne­ração na­ci­onal, ra­di­cal­mente an­tis­sis­tê­micos e elites de­gra­dadas e ins­tá­veis, de­pen­dentes do amo im­pe­rial (que se re­serva o di­reito de in­ter­venção di­reta, se as cir­cuns­tân­cias o exi­girem e per­mi­tirem), ani­madas por um ni­i­lismo por­tador de pul­sões fa­ná­ticas.

http://www.correiocidadania.com.br/2-uncategorised/13209-estaremos-diante-de-novas-ditaduras-na-america-latina

Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controvérsia e escreve semanalmente.

Responda