A pobreza alimenta a pornografia infantil

El Telégrafo – Os estudos elaborados pela ONU mostram que o problema se propaga em escala global, com redes internacionais dedicadas à exploração infantil. Os países do chamado ‘terceiro mundo’ são os preferidos daqueles que trabalham no recrutamento de vítimas.

No Equador, a legislação que combate especificamente o crime de pornografia infantil é recente – antes os casos eram tipificados como prostituição de menores. Por isso, há poucas estatísticas no país a respeito do tema. Contudo, um episódio recente que alcançou grande visibilidade midiática fez aumentar a preocupação da sociedade sobre o problema.

Segundo a Subsecretaria de Segurança Cidadã do país, nos últimos houve 109 casos de adultos e 10 de crianças resgatadas em condições de exploração sexual – para prostituição e/ou produção de material pornográfico. Nos casos envolvendo menores, muitas vezes se tratavam de famílias de baixa renda que eram enganadas com promessas de dinheiro para trabalhos artísticos.

Contudo, os números globais a respeito da pornografia infantil mostram um problema muito mais grave e profundo. Não é por acaso que a pornografia é considerada a segunda indústria que mais gera dinheiro no mundo, depois da venda de armas e superando o narcotráfico, que é o terceiro, segundo estudos da Organização das Nações Unidas (ONU) baseados em dados oficiais dos países membros. Um informe elaborado em julho de 2017 pela Oficina da ONU contra a Droga e o Delito (UNODOC) afirma que cerca de 21 milhões de pessoas são vítimas de exploração no trabalho ou exploração sexual em todo o mundo. O documento também especifica que 30% das vítimas são crianças e 70% são mulheres jovens ou meninas. Dos 53,700 casos registrados oficialmente pelo estudo, 54% são vítimas de exploração com fim sexual.

O blog estadunidense Business Pundit afirma, com dados facilitados pela mesma ONU, que a indústria da prostituição move a escala mundial, cerca de 108 bilhões de dólares por ano, e a da pornografia arrecada entre 100 e 500 bilhões. Além disso, as cifras também apontam que as crianças são a maior fonte de renda da exploração entre mercadores do sexo no planeta. Por exemplo, em alguns países do sudeste asiático, as redes de pornografia infantil enviam vídeos grátis aos correios eletrônicos, com o fim de captar clientes. Esses vídeos mostram crianças tendo sexo com adultos. Então, um link oferece aos potenciais clientes, por um valor próximo aos 50 dólares por mês, uma assinatura para receber mais conteúdo 24 horas por dia, com vídeos de diversas partes do mundo.

Na mira dos países do terceiro mundo

A maioria dos estudos elaborados sobre o tema foram realizados pela ONU, e mostram que o problema se propaga a escala global, com redes internacionais dedicadas à exploração infantil para a prostituição ou produção de pornografia. Os países do chamado “terceiro mundo” são os preferidos daqueles que trabalham no recrutamento de vítimas. O caso que comoveu o Equador recentemente foi o de uma menina pobre na cidade de Loja, que foi abordada na saída da escola por um conhecido da família, com uma oferta de 100 dólares para participar de um vídeo, o que terminou com o seu sequestro e posterior assassinato. O sujeito que abordou a menor funcionava como uma espécie de intermediário, que trabalha captando os menores para filmar ou tomar fotos. A menina foi levada a um hotel, mas quando sua desaparição virou notícia viral no Equador, os sequestradores entraram em pânico, a mataram e tentaram ocultar o cadáver. A polícia encontrou o sujeito que a abordou, e através dele chegou a outras duas pessoas. O intermediário foi o primeiro a ser preso, e dois dias depois apareceu morto numa penitenciária, na cidade de Cuenca.

Segundo a polícia equatoriana, a morte da menina não foi somente para ocultar as culpas pessoais dos envolvidos, mas também para apagar o rastro de uma poderosa organização mundial dedicada à pornografia. A partir dos três primeiros testemunhos, os investigadores chegaram a outras 18 pessoas que trabalhavam na rede, em diferentes cidades do país.

Diego Tipán, subsecretário de Segurança Cidadão do Equador, conta que a indústria da pornografia infantil e da exploração de crianças e adolescentes se propagou tanto pelo mundo que obrigou a ONU a realizar uma nova reclassificação sobre o tema. “A ONU reclassificou o conceito de exploração, que antes fazia alusão a etnias europeias, e era chamado de `exploração de pessoas brancas´”.

Segundo Tipán, no Equador as estatísticas a respeito da pornografia infantil são muito recentes. As cifras mais antigas são de 2015, e mostram que 26 menores foram resgatados em situação de exploração sexual no país naquele ano, número que aumentou para 46 no ano seguinte. Entretanto, o próprio Tipán admite que esses números não determinam o tamanho real do problema, já que se supõe que são muitos mais os casos que sequer são denunciados, ou os casos de desaparecimentos que terminam sem solução

A pobreza e as redes sociais como principais meios de recrutamento

O impacto que as redes sociais têm em meio a essa problemática é imenso, já que são o principal meio pelo qual se desenvolve o negócio da pornografia infantil. Para o subsecretário Diego Tipán, “assim como as redes são úteis para o ser humano para ter uma melhor conectividade com o mundo, também é para os que pretendem usá-las para promover o negócio da pornografia infantil”.

Como forma de tentar combater essas redes, o governo trabalha em campanhas de prevenção, e convidou famílias de menores que foram vítimas desses delitos para que formassem parte do projeto.

No caso das redes sociais, existem métodos para controlar o acesso a vídeos pornográficos e saber com quem os menores se relacionam quando usam a internet. Rosa López, governadora da província equatoriana de El Oro – uma das que possui mais casos registrados de exploração infantil –, indicou que as crianças e adolescentes, especialmente do interior do país e de famílias de baixa renda, são as principais vítimas escolhidas pelos intermediários. “Na província, temos uma casa de proteção para as vítimas, que geralmente são de setores pobres. Isso nos permite recuperá-las, protegê-las e incorporá-las a espaços mais seguros”, comentou.

A governadora conta que a casa de proteção assiste a cerca de 50 crianças e adolescentes e suas famílias, com tratamentos e acompanhamentos que podem durar de seis meses a um ano. Rosa López também relata que a maioria dos casos recebidos pela instituição são de menores que foram resgatados de redes internacionais dedicadas à prostituição e à pornografia. “Também não se pode ignorar o fato de que quase todos os clientes são homens, e isso evidencia que se trata de mais uma consequência nefasta da estrutura patriarcal que está vigente no Equador e em muitos países do mundo”.

“Alicia” é o nome protegido de uma jovem que atualmente tem 20 anos, e que passou pela casa de proteção de El Oro. Ela foi resgatada depois de passar três anos exercendo a prostituição em diferentes bordéis do Equador. Seu drama é o de toda menor que já foi vítima da exploração sexual.

Ela conta que uma pessoa se aproximou dela através de uma amiga do colégio para convencê-la a fugir de casa. “Eu tinha problemas com a minha família, meu pai bebia e nos batia muito, então eu tentei sair pelo caminho fácil, vender o meu corpo”, relata.

Com relação à pornografia infantil, investigadores da Polícia e do Ministério Público trabalham para identificar as origens dos pedidos por novos vídeos desde países estrangeiros, para identificar as organizações que lucram com isso. Entretanto, nem sempre se sabe o valor que se paga por esse tipo de material, o que dificulta outro trabalho, que é o de rastreamento das transações relacionadas a esse comércio.

Um delito que deixa sequelas psicológicas e emocionais

Silvia Mancheno, professora decana da Faculdade de Psicologia da Universidade Central do Equador, sustenta a tese de que a melhor prevenção para esse tipo de problema é a educação, especialmente dos pais. Ela ressalta que as crianças também são consumidoras de pornografia, graças à tecnologia que têm hoje à disposição, o que, ademais, criam também um canal a mais de contato com pessoas que colaboram com as organizações dedicadas à pornografia.

“É um tema muito doloroso de abordar, porque são crianças que são arrancadas abruptamente de um processo evolutivo normal e capturadas por uma rede de exploração sexual. É um crime de lesa humanidade, porque acaba com qualquer possibilidade de um desenvolvimento normal dessa pessoa”, explica a psicóloga e acadêmica.

Segundo Mancheno, a exploração sexual na vida dessas crianças e adolescentes “é um salto forçado no processo evolutivo, mais especificamente no desenvolvimento da sexualidade, e por isso as vítimas desses crimes depois chegam a ter sérios problemas psicológicos e de personalidade, sofrem de insegurança, elaboram fobias complexas, angústia, entre outros problemas”.

Ela não acredita que a dureza da nova lei sirva para inibir as redes de pornografia, já que “existem legislações mais rigorosas que a equatoriana que tampouco alcançam esse resultado, e no caso do Equador, a mudança buscou apenas criar um atalho para a tipificação penal, mas não trata o problema social com mais profundidade”.

Teresa Lomas, também psicóloga e professora universitária, diz que a pobreza, a marginalização e o desafeto familiar são as principais aliadas dos criminosos. “A vulnerabilidade social é um dos elementos que chamam a atenção dos intermediários. É fácil entender como uma criança desprotegida por seus pais ou seu entorno social está mais sujeita a ser uma vítima de uma dessas redes”. Para ela, o Estado deve aplicar políticas de prevenção com conscientização das famílias, além de oferecer tratamento às vítimas e às famílias, e também aos adultos consumidores de pornografia.

https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Idades-da-Vida/A-pobreza-alimenta-a-pornografia-infantil/13/39774

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