O Marxismo, versão XXI.0

Francisco Louçã – Na preparação da Conferência de dias 24 e 25 de março a assinalar os 200 anos de Karl Marx, Francisco Louçã diz que esta iniciativa “pretende contrastar com as atitudes revanchistas, vindas dos liberais, e cerimoniais, vindas de hermeneutas”.

Um ciclo de efemérides assombra o marxismo: em outubro de 2017 passaram 150 anos da publicação de O Capital; em fevereiro deste ano, os 170 anos da publicação do Manifesto Comunista; dentro de dois meses, a 5 de maio de 2018, serão cumpridos duzentos anos do nascimento de Marx. Como seria de esperar, essa conjugação cósmica mobilizou biografias de todos os tipos, estudos monumentais, críticas ferozes e louvações, o melhor e o pior. Este seminário sobre o legado do marxismo pretende contrastar com as atitudes revanchistas, vindas dos liberais, e cerimoniais, vindas de hermeneutas. Queremos aprender, sentir e discutir um marxismo vivo, quente, abrangente, curioso sobre o mundo de hoje, militante e revolucionário como sempre, e por isso se percorrerão temas tão diferentes como a arte, a filosofia, a política, o internacionalismo, as lutas e movimentos sociais, as estratégias.

Imaginemo-nos no cemitério de Highgate, naquele março de 1883, quando Marx foi enterrado entre onze amigos e familiares. Ouvimos Engels, que toma a palavra, em inglês, para elogiar o seu amigo e para inventariar os seus feitos intelectuais, afinal evidentes: “Tal como Darwin descobriu a lei do desenvolvimento da natureza orgânica, assim Marx descobriu a lei do desenvolvimento da história humana: o simples facto, até então ocultado pelo excesso de ideologia, de que a humanidade tem primeiro que tudo que comer, beber, abrigar-se, antes de prosseguir a política, ciência, arte, religião, etc.; que portanto a produção dos meios materiais imediatos de subsistência e consequentemente o grau de desenvolvimento económico alcançado por um determinado povo ou durante uma dada época forma a fundação sobre a qual as instituições públicas, as conceções legais, a arte, e mesmo as ideias sobre religião, das pessoas envolvidas tem evoluído, e à luz da qual deve, portanto, ser explicada, em vez de vice versa, como tem sido o caso”. Marx teria descoberto essa lei da evolução tão simples, é preciso comer antes de filosofar.

Continua Engels: “Mas não é tudo. Marx descobriu também a lei especial de movimento que governa o atual modo de produção capitalista e a sociedade burguesa que este modo de produção criou. A descoberta da mais-valia lançou subitamente luz sobre o problema”. A “luz sobre o problema” era esta lei do desenvolvimento geral da história humana, a compreensão de que a produção material condiciona as ideias, e daí decorre a “lei especial” da produção capitalista.

O fascínio de Marx e Engels por Darwin é conhecido e compreensível. A Origem das Espécies foi publicado em 1859, estavam Marx em Londres e Engels em Manchester e provocou uma tormenta, mobilizou as igrejas, foi debatido em sociedades científicas e em auditórios apinhados de multidões, criou escola e mudou a perceção do ser humano em relação à sua própria natureza. Entusiasmado, Marx mandou a Darwin um exemplar do seu livro, tendo recebido uma resposta polida referindo que os assuntos tratados ultrapassavam o conhecimento do biólogo (mas é uma lenda que o tenha tentado convencer a escrever um prefácio para a obra). Engels, que compreendeu Darwin e o darwinismo melhor do que Marx, porque conseguiu distingui-lo de versões facilitadas então correntes, partilhava este enlevo com a revolução na biologia e talvez por isso mesmo apresentou Marx como o Darwin das ciências sociais, eventualmente ainda para reforçar a sua reivindicação como autoridade científica.

Darwin era uma preciosa ajuda para o pensamento não dogmático que era necessário para compreender a tragédia da história: ele não afirmava uma causalidade, pois não se conhecia ainda o que produzia a variação biológica, mas sabia da precedência, que é a própria evolução. Também no caso da história da humanidade ela se move, só que temos esse poder intrigante de escolher para onde.

Por isso mesmo, Marx foi mais do que um analista, ou um biólogo do corpo social: revolucionário, percorreu os caminhos do seu tempo. Persistiu, escreveu, debateu, exilou-se, voltou, continuou e, na verdade, só se tornou conhecido em 1871, já depois da publicação o primeiro volume de O Capital e quando, em homenagem à Comuna de Paris, escreveu A Guerra Civil em França, o panfleto que foi o seu primeiro sucesso comercial, oito mil exemplares vendidos imediatamente, muitos mais depois. A imprensa de Versalhes chamava-lhe o “Doutor Vermelho” e acusava-o, injustamente aliás, de ser o chefe da Comuna. Um ano depois, a reedição do Manifesto Comunista, um texto praticamente ignorado quando foi publicado pela primeira vez mais de trinta anos antes, foi então lida em toda a Europa, o espectro renascia. Marx dedicou-se à revolução que esperava ver surgir desse progresso que transformou o século XIX, bateu-se pelas suas ideias, organizou partidos, alianças e uma associação internacional dos trabalhadores.

Um ano após o desaparecimento de Marx já a social-democracia alemã tinha 550 mil votos, sete anos depois quase um milhão e meio. E, pelas galerias mais profundas, as revoluções do início do século XX estavam a nascer.

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Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controvérsia e escreve semanalmente.

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