A globalização é um carro sem marcha à ré

Miguel Otero Iglesias – As medidas protecionistas tomadas por Donald Trump geram tensões geopolíticas, e insta a União Europeia a buscar alianças com países que também apoiam princípios sociais para lutar contra os paraísos fiscais e a evasão fiscal, talvez o maior câncer das nossas democracias atualmente.

A globalização e as novas tecnologias, duas forças humanas que se retroalimentam, produziram uma brecha econômica e social enorme, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos. Alguns pensam que se deve retroceder nesses processos e voltar aos Anos 70, porém isso já não é mais possível. A globalização é uma realidade consolidada e continuará avançando. Isso significa que o trabalhador europeu, seja de classe operária e sem formação ou de classe média com um trabalho eminentemente mecânico, se enfrenta a dois tsunamis: a automatização e a concorrência de milhões de novos trabalhadores dos mercados emergentes, principalmente da China e da Índia.

A rebelião contra a globalização

Estes dois ciclones estão devastando muitos postos de trabalho, mas com isso também estão afastando o establishment político. As vitórias do Brexit no Reino Unido, de Trump nos Estados Unidos e do Movimento 5 Estrelas e da Liga do Norte na Itália confirmam essa tendência. Na França e na Alemanha, dois bastiões da estabilidade política, os partidos neonacionalistas como Frente Nacional (de Marine Le Pen) e da Alternativa para Alemanha (simpatizante do neonazismo) clamam por uma revolução nativista. A ordem liberal volta a ser questionada, e isso está reavivando perigosos fantasmas do passado.

O que fazer diante de semelhante desafio? Os liberais acreditam que a solução está no indivíduo e nas administrações públicas. Indicam que é preciso investir mais em educação para que nossos jovens tenham as habilidades para competir no Século XXI e destinar mais recursos ao tripé investigação-desenvolvimento-inovação para manter a competitividade e o alto nível de vida. Os social-liberais vão além e até aceitam que é preciso compensar os perdedores da globalização, seja com um complemento salarial ou com uma renda básica universal, além de reduzir a burocracia, facilitar o empreendimento, flexibilizar a contratação e as demissões no setor público, incrementar a transparência nas administrações e introduzir mais mecanismos de prestações de contas aos políticos. Só assim se poderá recuperar a confiança do eleitorado.

Entretanto, intelectuais socialdemocratas como Dani Rodrik e Joseph Stiglitz discordam dessas ideias. Para eles, compensar os perdedores e fazer o Estado ser mais eficiente não serão medidas suficientes, pois se fosse assim não haveria populistas nacionalistas também na Holanda, onde elas já estão vigentes. As pessoas querem mais empregos, não compensações. As respostas não podem ser individuais, e sim estruturais. Os políticos precisam de maior poder de manobra. Mais política e menos tecnocracia, além da capacidade de aumentar a arrecadação de impostos. E se para isso, é preciso mais controles ao capital e limitar a entrada de imigrantes, que assim seja.

China mostra como aplicar controles ao capital no Século XXI

A ideia de principal é voltar aos 30 anos gloriosos do período de Bretton Woods, depois da II Guerra Mundial, durante os quais a integração econômica, o crescimento e a proteção social andaram de mãos dadas. Em seu conhecido “trilema”, Rodrik explica que entre as três opções – a integração econômica profunda (ou hiperglobalização), a soberania nacional e a democracia plural – só podemos optar por duas. Durante muito tempo, privilegiamos a primeira, descuidando as outras duas, e por isso cresceram os partidos nacionalistas e antissistema.

Rodrik também critica os liberais que aceitam seu “trilema” mas o resolvem de outra maneira: sobre a base do conceito da aldeia global. Eles pensam que o melhor seria optar pelo lado do triângulo que inclui a integração econômica progressiva e a democracia, descartando o polo da soberania nacional. Optariam, assim, por fortalecer a governança global, tornando-a mais justa e democrática. Rodrik diz que isso é um mito. A soberania popular reside no âmbito nacional e é aí onde se deve atuar.

Pode ser. A ideia de um governo e parlamento mundial parece algo que pode funcionar em Star Trek, mas é altamente improvável no mundo real de hoje. Não obstante, é pertinente perguntar quem é mais ingênuo: os que acreditam que isso melhoraria a governança global ou os que criticam a ideia com a ilusão de um retorno aos Anos 60? Realmente é possível – e desejável – introduzir taxas e controles de capitais na era das cadeias de valores transnacionais?

A China é o principal país do mundo a demonstrar que ainda se pode aplicar controles de capital no Século XXI, e inclusive restringir a informação e o intercâmbio através da Internet. Porém, o gigante asiático pode fazê-lo porque, no triângulo de Rodrik, optou por descartar a democracia. Justamente, o discurso tão em moda em dia, de recuperar a soberania nacional, desperta o perigo de voltar a uma era mais autoritária e nacionalista. Estamos vendo isso no Oriente, mas também, e cada vez, no Ocidente.

O discurso de recuperar a soberania nacional e o risco da volta do autoritarismo

As medidas protecionistas de Trump são preocupantes neste sentido, já que despertam tensões geopolíticas, e não criam novos postos de trabalho. A abertura é fonte de riqueza. Introduzir taxas quando a especialização está dispersa pela globalização é como construir muros numa fábrica. Assim como a diversidade cultural aumenta a inovação. Não é uma casualidade o fato que a maioria das grandes empresas tecnológicas do Vale do Silício foram criadas por imigrantes. Se os Estados Unidos decidem obstaculizar esse fluxo, perderão essa vantagem.

E o que a Europa deve fazer neste contexto? Logicamente, continuar reforçando sua democracia transnacional e preservar seus princípios liberais, mas também precisa de uma agenda mais social. A globalização – definida pelo anseio humano de comprimir o espaço e o tempo – é como um carro que não tem marcha à ré. Só anda para frente, mas pode se chocar, como aconteceu com queda do Império Romano e as duas guerras mundiais. Como todo carro, necessita um chassi adequado para manter sua velocidade.

Essa carroceria deve ser construída hoje com alianças internacionais e coalizões ideológicas. Não se trata de frear a globalização, e sim de governa-la melhor. Para isso, a União Europeia tem que se aliar com outros países que compartilham princípios sociais e liberais parecidos no G20: Japão, Coreia do Sul, Canadá, México e Brasil são possíveis candidatos. Um dos primeiros objetivos teria que ser lutar contra os paraísos fiscais e a evasão fiscal, talvez o maior câncer das nossas democracias. E aqui a UE deveria começar em casa, e por Luxemburgo.

Mas também é preciso atuar no plano nacional. É vital que as forças socialistas e liberais formem coalizões de grupos de interesse amplos, que possam apoiar uma agenda reformista que combine tanto políticas liberais que atuem sobre a oferta, como políticas sociais que sustentem a coesão e a participação social, e sobre a demanda. É imperativo buscar um equilíbrio entre liberdade e igualdade, já que, na disputa contra o previsível imobilismo próprio do conservadorismo, se esta união pragmática social-liberal não se concretizar, o resultado será que as forças nacionalistas ganharão força, aumentando a possibilidade de que o carro da globalização emperre.

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Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controvérsia e escreve semanalmente.

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