Um novo tipo de padres e leigos na Igreja: vivem de ódio

MAURO LOPES – Olavo de Carvalho (esquerda) e padre Paulo Ricardo (centro): dois líderes do catolicismo de ódio e perseguições.

Há um fenômeno novo na Igreja Católica: padres, leigos e leigas intregristas que se movem em violentas campanhas contra tudo o que represente um risco para a idealização de uma igreja branca, “pura”, “imaculada”, misógina.  Olham os pobres com repulsa e aqueles que se levantam para  Ignoram o Evangelho, hostilizam a teologia latino-americana e guiam-se por  documentos de recorte medieval/europeu. Católicos e católicas assim sempre existiram, mas com as redes sociais e o aprofundamento da luta de classes no Brasil e no mundo, saíram a público e empunham a bandeira do catolicismo como uma religião em plena Cruzada contra os “infiéis”.

Perseguiram dom Oscar Romero, dom Paulo Evaristo Arns, dom Hélder Câmara, dom Luciano Mendes de Almeida no passado, com base em intrigas e maledicências pronunciadas a meia voz. Entre outros, são perseguidos hoje,  xingados e ameaçados de agressões e morte: frei Leonardo Boff, Frei Betto,  a freira Ivone Gebara, padre Júlio Lancellotti, padre Paulo Sérgio Bezerra , leigos, leigas, padres, freiras e bispos que defendem os indígenas, os sem terram os sem teto, os favelados país adentro, além dos franciscanos e da própria CNBB. Dom Pedro Casaldáliga foi perseguido no “velho estilo” e hoje, aos 90 anos, sofre também com a onda de ódio estridente. 

Padre França e o então bispo Bergoglio

No último domingo (17), o padre e teólogo Mário de França Miranda foi xingado em altos brados por dois homens durante missa na Paróquia da Ressurreição, em Ipanema (Rio), ao comparar o martírio de Marielle Franco aos de Martin Luther King e dom Oscar Romero.  Aos 81 anos, é um teólogo de referência no mundo. Graduado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Medianeira,  mestre em Teologia pela Faculdade de Teologia da Universidade de Innsbruck, Áustria, e doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, Itália. Amigo do Papa Francisco, ambos jesuítas, atuou no grupo de trabalho como o que elaborou o Documento da Conferência de Aparecida, em 2007, sob a coordenação do então Cardeal Jorge Mário Bergoglio. Foi membro da Comissão Teológica Internacional durante 11 anos, de 1992 a 2002. 

Leia o artigo de padre Gegê (Geraldo Natalino) sobre este “tipo emergente de clero e laicato”:

Tive o sagrado privilégio te ter como professor e orientador de mestrado na PUC-RJ a figura reconhecida internacionalmente do padre, pastor e intelectual França Miranda. Seguramente, uma das personalidades teologicamente mais importantes da igreja do Brasil e da América Latina. Com lamentável tristeza li a notícia de que foi durante a missa chamado de “padre filho da p…” por dois homens depois de se referir a Marielle (também a Mather Luther King e dom Oscar Romero) como defensora dos socialmente banidos. Lamentável, estimado França!

Porém, em meu escrito de solidariedade e repúdio, não posso, em estado de PROTESTO, deixar de dizer que essa ação insana sofrida pelo ilustre e respeitadíssimo sacerdote, não constitui uma atitude isolada no contexto atual da IGREJA. Há um grupo crescente de padres e leigos(as) no interior da Igreja fomentando aberta e publicamente o ódio, a intolerância, o desrespeito e a guerra nas redes sociais, pregações etc. Repito: há um tipo EMERGENTE de clero e laicato, intolerantes e beligerantes in extremis. Assim: in extremis, a despeito do caminho inversamente oposto trilhado e exigido pelo Papa Francisco. Esse segmento eclesial aguerrido faz da Igreja, sobretudo no mundo virtual (mas não só), um “PEIXE BETA”, peixe belíssimo e encantador, mas pouquíssimo capaz de convivialidade.

Com quase 25 anos de padre desconhecia esse fenômeno preocupante e assustador. Tudo isso em nome da fé e da doutrina. Creio, pois, que o ocorrido na paróquia em Ipanema no domingo (17) representa o SINAL MÁXIMO DE ALERTA. Não podemos, pois, minimizar a gravidade do fato, não refletir sobre o que ele representa, tampouco fingir que nada aconteceu. Afinal de contas, se um padre do quilate do França foi tratado assim, em plena missa, o que não serão capazes de fazer com os outros (dentre os quais eu) no vasto território diocesano?

Por fim, da minha parte, creio profundamente que já passamos da hora de darmos um BASTA. Mas, urge perguntar:

De onde está nascendo tanto fogo intolerante no interior da igreja?

Quem está pondo brasas na fogueira do desrespeito e do ódio?

Quais e quantas bocas, inclusive clericais, estão por detrás das bocas que te xingaram?

Diletíssimo professor, quem amansará “cavalos xucros” que vicejam?

Não falta ao cristianismo um número infinitamente grande de testemunhos maravilhoso de cristãos (clérigos e leigos). São homens e mulheres(conhecidos e anônimos) que traduzem na vida o amor extraordinário de Deus. Por que não seguirmos esse caminho? Ademais, a sociedade espera de nós cristãos, pelo menos, um pouco mais de equilíbrio e sensatez. Bom, acho que isso é o minimo, se tratando de ser humano.

Santa Páscoa, Mário França Miranda, homem bom e necessário para a minha cabeça e para o meu coração.

Vossa bênção, meu Velho!!!

Obrigada por existir no coração do Mundo!!!

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Padre Gegê é pároco da Paróquia Santa Bernadete, que abrange parte das comunidades de Higienópolis e Manguinhos, dois dos focos da ocupação militar em curso nas favelas do Rio de Janeiro. Membro do grupo Fé e Politica pe. João Cribbin, doutorando em Ciência da Religião pela PUC/SP. Negro, vive numa região comunidades de descendentes dos escravos que serviram aos donos do Rio de Janeiro de 1550 até 1888 (mais de 300 anos) e, depois, como escravos libertos sem direitos -situação que se prolonga até hoje. Celebrou as exéquias de Marielle Franco em 15 de março de 2018.

Um novo tipo de padres e leigos na Igreja: vivem de ódio

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