‘Jornadas de junho’ viraram símbolo do fracasso da ascensão do Brasil

Daniel Buarque – A onda de protestos que tomou conta do Brasil a partir de junho de 2013 se tornou um importante momento simbólico para a história recente do país. Foi ali que ficou claro que a narrativa de “ascensão” e “sucesso” que havia sido criada até então para o Brasil estava errada, e que as coisas não iam tão bem quanto se imaginava dentro e fora do país.

As narrativas das chamadas “jornadas de junho” no Brasil e no exterior foram o tema de doutorado do pesquisador chileno César Jiménez-Martínez, que concluiu o PhD pela London School of Economics no ano passado. As disputas sobre a imagem dos protestos e do próprio Brasil foram estudadas em detalhes em sua tese “Nationhood, Visibility and the Media: The Struggles for and over the Image of Brazil during the June 2013 Demonstrations” (algo como “nacionalidade, visibilidade e mídia: as lutas por e sobre a imagem do Brasil durante os protestos de junho de 2013”).

O pesquisador chileno César Jiménez-Martínez

Em entrevista ao blog Brasilianismo, Jiménez-Martínez discutiu alguns dos principais pontos da sua pesquisa, como a influência da mídia internacional e o impacto dos protestos na forma como o Brasil é visto no exterior. Segundo ele, a narrativa de sucesso do Brasil deu lugar a uma de decepção, e o clima de ceticismo parece ter passado a dominar a política no país.

Brasilianismo – Quase cinco anos após as “jornadas de junho”, como você acha que esses eventos impactaram na história recente do Brasil?
César Jiménez-Martínez – As “jornadas de junho” se tornaram um símbolo de que a ideia de que o Brasil estava em ascensão e sem problemas não estava correta.

Os observadores interessados no Brasil foram claros em dizer que a economia estava desacelerando, que a política arriscava tornar-se instável e que a Copa do Mundo e as Olimpíadas não seriam a festa para celebrar a ascensão pretendida para o Brasil. No entanto, mesmo aqueles observadores ​​ficaram surpresos com a escala e alcance dos protestos. Pessoalmente, reluto em chamar as jornadas de um movimento, porque elas envolviam muitas agendas diferentes e às vezes contraditórias. Da mesma forma, não coloco os protestos de junho de 2013 na mesma categoria dos protestos de 2015, mesmo que você possa encontrar alguma relação entre elas. Mas, como um correspondente estrangeiro me disse, antes das jornadas de junho, todas as reportagens sobre o Brasil começaram com algumas frases sobre o quanto o país estava crescendo, o quão bem estava a economia e como o país estava se preparando para a Copa do Mundo e Olimpíadas. Após os protestos, essas frases mudaram, e outra narrativa, de dúvidas e crises no Brasil, começou a dominar.

Brasilianismo – Quanto você acha que o clima político gerado pelas jornadas de junho pode afetar as eleições deste ano no país?
César Jiménez-Martínez – Não tenho a certeza de que posso responder a essa pergunta. No entanto, minha impressão é que entre várias pessoas no Brasil e entre os observadores há uma grande decepção.

O período que vai de meados da década de 1990 e até a primeira década do século 21 é cada vez mais visto como um período excepcional, em vez de –como foi pensado– como o início e a consolidação de um período mais estável, próspero e relativamente mais igual para o Brasil. As pessoas me disseram que, apesar de algumas de suas diferenças políticas, por dois ou três dias durante os protestos de 2013 houve uma grande sensação de esperança de que um Brasil melhor seria possível e que o poder estava nas mãos das pessoas, não da classe política. Minha impressão é que hoje em dia uma atitude mais cética prevalece em todo o espectro político.

Brasilianismo – Olhando em retrospecto, o que você acha que foi o impacto geral das ”jornadas de junho” na imagem do Brasil no resto do mundo?
César Jiménez-Martínez – Eu acho que o primeiro impacto foi de surpresa. Especialistas no Brasil e os próprios manifestantes não podiam prever a escala e alcance que os protestos alcançariam. E a maioria dos grupos que estavam originalmente atrás dos protestos logo perceberam que eles não tinham controle sobre eles. Eu acho que o leitor de jornal ou o espectador de TV no exterior também ficaram surpresos, especialmente porque organizações de mídia estrangeiras enfatizaram o vínculo entre os protestos e a Copa do Mundo. Como um correspondente estrangeiro me disse, parte da reação podia ser resumida como ”por que eles estão protestando? Eles não amam muito futebol lá?”.

Dito isto, por um tempo, os protestos foram vistos sob um prisma positivo e talvez até romântico. O “New York Times”, por exemplo, os chamou de ”despertar social”. Era, novamente, a sensação de que as pessoas estavam ficando mais poderosas, estavam exigindo um país melhor e que talvez os protestos pudessem aprofundar a democracia no Brasil. A maioria dessas opiniões otimistas, no entanto, desapareceu gradualmente, e uma narrativa de decepção começou a dominar, em que o Brasil passou a ser visto como uma decepção. Significativamente, essa é uma narrativa que você pode encontrar em vários relatórios sobre os países BRICS nos últimos dois anos, uma narrativa de que eles não eram capazes de entregar resultados.

Brasilianismo – A sua tese argumenta que não há uma única imagem de uma nação, e há uma luta constante para desenvolver e contestar essas imagens. Como ocorre esse processo?
César Jiménez-Martínez – As imagens nacionais não são um objeto, uma coisa que viaja. As imagens, como vários estudiosos observaram, são relacionais. Você tem pelo menos um observador e alguém que é observado –mesmo que os papéis com frequência mudem. Significativamente, as imagens nacionais simplesmente não emergem do que os governos fazem através de campanhas de “nation branding” ou esforços de diplomacia pública.

As imagens nacionais também são formadas por empresas privadas, filmes e séries de televisão, meios de comunicação, movimentos sociais e assim por diante. Se você perguntar a muitas dessas pessoas, eles dirão que eles não pretendem formar uma imagem de uma nação, mas suas ações contribuem para esse processo. Essas imagens mudam ao longo do tempo. Pense, por exemplo, no fato de que em meados do século 20 o Brasil estava fortemente associado ao café, mas essa associação não é tão forte hoje em dia. E essa é uma mudança que foi produto de toneladas de variáveis ​​políticas, econômicas, culturais e geopolíticas.

Brasilianismo – Sua tese menciona que o Brasil perdeu a oportunidade de promover sua reputação internacional. Com a contínua instabilidade do país, o que seria necessário para que o Brasil voltasse a ter relevância global?
César Jiménez-Martínez – É importante reconhecer que uma série de fatores, nem todos eles sob controle do Brasil, contribuíram para a ideia de que o Brasil estava ”emergindo” ou ”no auge”. Claro, a economia era um elemento fundamental, mas a estabilidade política também era fundamental, juntamente com os programas sociais que ajudavam as pessoas a sair da pobreza.

Vários correspondentes estrangeiros me disseram que o sucesso econômico era muito importante, mas não era suficiente fazer do Brasil uma história atraente. Também era um sentimento de otimismo, uma história positiva de as pessoas melhorarem. Isso também foi ajudado pelo carisma de Lula. Não importa o que pensemos de sua política, acho que certamente pode-se dizer que ele –com a ajuda de sua equipe– geralmente era bastante bom em se comunicar com a mídia e com o público. Ao mesmo tempo, parte da atratividade do Brasil tinha que ver com o ambiente global. Quando os Estados Unidos e a Europa enfrentaram uma crise financeira no final dos anos 2000, o Brasil deu a impressão de mais ou menos lidar com ela. Isso, sem dúvida, contribuiu para a ideia de que as coisas estavam ”indo bem” no Brasil. Por isso, não posso dizer que haja uma lista de recomendações para dar às autoridades informando-lhes como restabelecer o Brasil como um país mais relevante.

Brasilianismo – Ao ir para o Brasil e fazer entrevistas no país, o que mais o surpreendeu enquanto estudou esse momento da história recente do Brasil?
César Jiménez-Martínez – Tive uma experiência muito semelhante à da pesquisadora espanhola Esther Solano, que escreveu um livro sobre black blocs. Ela estava frustrada, porque tinha a impressão de que as pessoas estavam dentro bolhas, sem ouvir umas às outras. Entrevistei pessoas do governo, ativistas, correspondentes estrangeiros e jornalistas brasileiros. Alguns deles eram um pouco desdenhosos de algumas pessoas com quem eu estava falando. Alguns jornalistas diziam coisas assim: “como é que você está falando com esses ativistas? Eles não têm nada a dizer”. Alguns ativistas diziam ”como é que você está falando com esse cara no governo? Ele ou ela não tem nada a dizer”, e assim por diante. No entanto, ao ter a chance de falar com eles em profundidade, fiquei realmente surpreso com o fato de que a maioria tinha aspirações semelhantes. Às vezes era frustrante, porque você podia ver que todas essas pessoas diferentes tinham toneladas de coisas em comum. Lembro-me de uma vez em Brasília, eu estava entrevistando uma pessoa trabalhando para o governo. E inesperadamente, um ativista se juntou à conversa. Eu não sabia o que fazer, então deixei-os falar. No final, ambos ficaram felizes por ter tido a chance de trocar opiniões e ouvir o outro, ter finalmente conversado e ouvido.

Brasilianismo – Quão importante foram os meios de comunicação estrangeiros nesse processo? Quanto você acha que eles estão relacionados à formação da imagem internacional do Brasil?
César Jiménez-Martínez – Embora seja vista ou lida apenas por um número limitado de pessoas no Brasil, a mídia estrangeira desempenhou um papel importante na contribuição para formar a narrativa dos protestos. Novamente, entre um grupo de pessoas pequeno e significativo, a mídia estrangeira foi vista como árbitro que confirmou a relevância dos protestos (”olhe, chegou ao ‘New York Times”’). Além disso, eles também foram vistos –como alguns veículos alternativos, como a Mídia NINJA– como relativamente mais confiáveis ​​do que algumas das principais mídias nacionais. Essas duas coisas –a mídia como confirmando que algo é importante e a mídia como abertura do debate– não são exclusivas do Brasil.

Claro que também havia alguns jornalistas nacionais fazendo um trabalho incrível, mas no contexto de mídia do Brasil, em que os meios de comunicação nacionais estão fortemente associados a uma parte específica da elite nacional, a mídia estrangeira, com todas as suas limitações, foi vista como outra voz que poderia oferecer uma visão menos vilanizada dos protestos. Dito isto, acho que parte da cobertura internacional os protestos foi um pouco otimista demais, talvez refletindo um pouco as aspirações legítimas de alguns repórteres por um Brasil melhor.

Ao mesmo tempo, era interessante ver como grupos diferentes exploravam a mídia estrangeira no Brasil. Se, por exemplo, “The Economist” disse que o Brasil estava indo bem, as pessoas no governo diziam “olhem, mesmo a ‘Economist’ diz isso”. Da mesma forma, se a “Economist” dissesse que o Brasil não estava indo bem, as pessoas contra o governo diriam ”olhe, até a ‘Economist’ diz isso”. Na verdade, mesmo alguns ativistas tiveram um comportamento semelhante. Novamente, isso não é exclusivo do Brasil e você pode encontrá-lo em vários países em todo o mundo.

Brasilianismo – Quão diferente você acha que a cobertura da mídia estrangeira é para a mídia nacional no Brasil?
César Jiménez-Martínez – A principal diferença que encontrei foi que, no momento das jornadas de junho, a mídia estrangeira começou a cobrir os protestos somente quando eles se sobrepunham com a Copa das Confederações, ou seja, quase duas semanas após os protestos terem começado. Provavelmente por essa razão, eles enfatizaram desde o início o vínculo entre os protestos e o futebol. Essa era uma agenda importante para alguns manifestantes, mas de modo algum era a única. No entanto, essa foi a forma como alguns correspondentes tentaram fazer as pessoas no exterior ”se importarem” com os protestos. Ao mesmo tempo, a mídia estrangeira não pode dedicar a mesma quantidade de tempo à cobertura do Brasil. O Brasil ”compete” com histórias de todo o mundo. Apesar dessas limitações, houve alguns correspondentes que fizeram um excelente trabalho e que, novamente, foram capazes de oferecer um relato equilibrado das manifestações e suas implicações para o Brasil.

Brasilianismo – Sua tese explica que, embora muitas pessoas falem sobre mídia estrangeira no Brasil, elas realmente se referem à mídia americana e britânica. Por que você acha que esses países são vistos como mais importantes do que outros?
César Jiménez-Martínez – Isso tem a ver com muitos processos históricos que não são exclusivos do Brasil. No caso brasileiro, que considero um pouco semelhante ao chileno, as elites políticas, econômicas e intelectuais brasileiras historicamente tentaram manter laços amigáveis ​​com grandes potências internacionais, particularmente a Grã-Bretanha e os Estados Unidos. As razões incluíram sentimentos de insegurança ou isolamento na América do Sul, a busca de mercados e comércio além dessa região e a relevância que o Brasil teve para os interesses comerciais do Reino Unido e dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, em diferentes momentos da história, alguns intelectuais brasileiros alegaram que sua nação estava cultural e politicamente mais próxima desses poderes globais do que de seus vizinhos sul-americanos. Esses processos históricos são manifestados e reforçados através da mídia. Apesar de alguns meios de comunicação e cooperação cultural entre os países BRICS, muitas vezes você acha que as campanhas promocionais são destinadas aos EUA e à Europa Ocidental, e que quando os jornalistas falam sobre como ”a mídia estrangeira” cobre o Brasil, eles se referem às mídias americana e britânica. Mas, novamente, isso não é exclusivo do Brasil. Com diferentes ênfases e legados históricos, você pode encontrar padrões semelhantes em outros locais.

Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controvérsia e escreve semanalmente.

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