“Erradicar a fome é muito barato”

ALEXANDRA PRADO COELHO – Produzir mais alimentos “não é a prioridade” num planeta em que a fome “está circunscrita” e a obesidade começa a ser um problema. José Graziano da Silva, Director-Geral da FAO e o responsável pelo programa Fome Zero, no Brasil, esteve em Portugal e deixou uma mensagem: quem alimenta o mundo são as grandes agro-indústrias e “temos que mudar isso”. A resposta está na agricultura familiar.

O director-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o brasileiro José Graziano da Silva, esteve em Lisboa para participar na reunião de alto nível da Comunidade dos Países de Expressão Portuguesa (CPLP), no final da qual foi assinada a Carta de Lisboa pelo Fortalecimento da Agricultura Familiar.

É nos agricultores familiares que está a resposta para os problemas da alimentação no mundo, defende José Graziano, que foi o responsável pela implantação do programa Fome Zero no Brasil. A fome está hoje circunscrita a zonas de conflito e de alterações climáticas profundas, pelo que a obesidade é cada vez mais uma preocupação. É preciso alimentar uma população crescente, sim, mas aumentar a produção de alimentos “não é a prioridade”, afirma o responsável da FAO. O mundo alimenta-se mal. “Não sabemos o que comemos.”

Durante a sua visita referiu-se ao aumento da obesidade no mundo. É um problema começa a preocupar a FAO mais que o da fome?
Eu não diria que preocupa mais. Ele ilustra o problema da má alimentação, que vai desde o não comer até ao comer demais. Neste momento, nos países de renda média e alta preocupa-nos muito mais o problema da obesidade do que o da fome. O problema da fome está bem circunscrito em três grandes áreas: os países em conflito, guerra civil, etc., como é o caso Iémen e de alguns países africanos; está localizado em áreas afectadas pelos impactos do clima, particularmente secas prolongadas, como no Leste de África, muito afectada nos últimos três anos em regiões como a Somália ou o Quénia; e está localizado em bolsões de pobreza, de miséria extrema, típicos de países não só em desenvolvimento, mas também com um desenvolvimento muito desigual.

Fora isso, há uma epidemia geral de obesidade. Por vezes, até na mesma família em que há um subnutrido, há um obeso. Afecta ricos e pobres e é um problema que vem da mudança de hábitos alimentares que tivemos nos últimos 40, 50 anos. Passámos da comida feita pela avó ou pela mãe para uma comida terceirizada, feita pelos outros, que não sabemos o que tem. Não sabemos o que comemos e isso leva-nos a ingerir muito mais sal, açúcares, muito mais gorduras saturadas do que necessitamos.

Precisamos de recuperar o domínio da alimentação, saber o que comemos, é um problema de educação alimentar, mas também um esforço por comer de uma maneira mais saudável, mais frutas, verduras, mais produtos frescos e comer mais o que estamos acostumados a comer da nossa cultura, a comida nacional, e não o fazer apenas em dias de festa.

A população mundial continua a crescer e é preciso respostas para alimentar esse número de pessoas. Nas últimas décadas acreditámos que essas respostas estavam na revolução verde, na agro-indústria, nos avanços tecnológicos. Neste momento, a FAO alterou a forma de olhar para o problema?
É verdade. Desde a revolução verde, nos anos 60 e 70 do século passado, que o problema da produção tem sido equacionado de melhor forma que o do consumo. Neste momento, a fome não se explica pela falta de produção de alimentos mas sim pela falta de acesso aos alimentos. Não é que não haja produto, não há dinheiro para comprar o que comer. As pessoas não têm emprego, têm rendimentos muito baixos, não conseguem ter uma dieta saudável. Mas sobram alimentos. O mundo hoje deita fora um terço do que produz, aproximadamente.

Para José Graziano, a resposta para a fome no mundo está na agricultura familiar

A ideia de que temos de multiplicar a produção de alimentos não é correcta?
Não é a prioridade do momento. Sou muito cauteloso ao dizer que não há um problema de oferta, porque há. Em lugares muito localizados, na África subsariana, por exemplo, vários países têm um problema de conseguir produzir a quantidade de alimentos de que necessitam para a sua população, mas não é uma situação generalizada, são problemas localizados em regiões muito particulares.

Temos a tecnologia dominada para permitir a produção dos alimentos de que precisamos, e de alimentos saudáveis. A situação hoje é completamente diferente da dos anos 60 e 70. A revolução verde cumpriu esse papel de equacionar o problema da produção de alimentos. Mas sempre que a gente resolve um problema, em geral causa outros.

A revolução verde trouxe impactos no meio ambiente, o excessivo uso de químicos, e, sobretudo, essa concentração da produção em alguns alimentos. Hoje temos quatro, cinco, seis produtos que respondem por 80% do que nós consumimos: o arroz, o milho, o trigo, a soja e a batata. Não pode ser. Nós temos 36 mil plantas e animais que fornecem alimentação ao Homem, não podemos estar concentrados em cinco da maneira que estamos.

Hoje a FAO defende o reforço da agricultura familiar, o que choca com o poder e os interesses da grande indústria alimentar. Como é que se consegue resolver esse dilema?
Nós desenvolvemos sistemas alimentares fortemente concentrados nas cadeias agro-industriais. Agora quem alimenta o mundo são as grandes agro-indústrias. Temos de mudar isso. E é um esforço de recuperação porque a alimentação é parte da nossa identidade. Eu venho a Portugal e sei duas coisas fundamentais: primeiro, que vou falar português, segundo, que vou comer bacalhau, que é parte da cultura e tradição portuguesa mesmo não sendo um peixe daqui. Alimentação é o que nós somos, o que a nossa família é, o que a nossa aldeia, a nossa região é. Recuperar esse poder de interiorizar de novo a alimentação, que foi externalizada e banalizada, é parte desse projecto de comer melhor e comer saudável.

Um exemplo bom é a questão das sementes — as directrizes da FAO falam da importância das sementes tradicionais, mas a legislação europeia vai num sentido contrário. Não existe, entre a Carta de Lisboa que acaba de ser assinada pelos países da CPLP, e as regras da Política Agrícola Comum (PAC) uma contradição?
Hoje já temos implantados em praticamente todos os países do mundo bancos de sementes tradicionais, que estão a ser preservadas, não só localmente mas também em Svalbard, na Noruega, temos um silo em que preservamos todas as espécies do mundo. Há um esforço de recuperar esse conhecimento ancestral, até porque dependemos disso no futuro. Com todas as mudanças climáticas, vamos precisar de revisitar todas essas variedades para termos sementes mais resistentes à seca, ao calor, ao excesso de água em algumas regiões. Esse esforço muitas vezes obriga a voltar à origem genética dessas plantas e animais. Isso é parte do desenvolvimento científico e a FAO defende que a preservação da biodiversidade é fundamental.

Sente que há vontade política para isso? Sendo que ela passa possivelmente por alterações na PAC ou nas políticas e legislações de outros países para acomodar esta nova visão?
Há interesses muito fortes consolidados em torno do actual sistema agro-alimentar. Mas também há contradições tão evidentes, como é o caso da obesidade, que se vão impondo a esse poder existente. Já vemos contestações várias, médicos, advogados, agrónomos, economistas que se juntam para pedir uma alteração desse sistema agro-alimentar existente. Acredito que isso comece a abrir oportunidades de novas legislações. Portugal está a criar um estatuto da agricultura familiar, um estatuto do direito à alimentação, isso tudo são progressos que estamos a ver em várias partes do mundo.

O caso brasileiro é um exemplo que tem citado muitas vezes e ao qual está profundamente ligado. Disse que há medidas do programa Fome Zero que estão a ser revertidas neste momento. Existe o risco de se voltar a situações anteriores, eventualmente até do regresso do Brasil do mapa da fome?
O Brasil está a passar por uma crise social muito profunda, uma crise que tem muitas dimensões. Uma delas é a regressão de uma série de programas sociais que foram implantados e que garantiram a erradicação da fome em menos de uma década. A persistir essa regressão, sem dúvida cria-se uma oportunidade de o Brasil voltar ao mapa da fome. Mas não acredito que isso seja uma fatalidade histórica.

O Brasil foi o primeiro país nos tempos modernos a erradicar a fome. Um país de mais de 200 milhões de habitantes em menos de dez anos ter tirado 40, 50 milhões de pessoas da pobreza extrema, da miséria e da fome… não se reverte isso com facilidade. O Brasil vai voltar a crescer este ano, o que já é um sintoma promissor, acredito que esses direitos conquistados pelo cidadão brasileiro de comer dignamente serão direitos reclamados nas eleições que virão por todos os movimentos sociais que o Brasil tem hoje organizados. Acho difícil o país voltar ao mapa da fome simplesmente por uma crise conjuntural.

Mas o Brasil conseguiu implementar todas essas medidas num momento particularmente positivo da sua economia. Países mais pobres conseguirão fazer isso? São medidas que custam dinheiro.
Custam muito pouco. Erradicar a fome é muito barato. A estimativa no caso do Brasil, que é o programa mais amplo que nós temos hoje no mundo, é que ele custa meio por cento do PIB. É muito pouco dinheiro.

Estamos a falar do programa de compras públicas [com o qual o Estado compra a produtores locais para abastecer cantinas públicas, por exemplo], da Bolsa Família?
Todos os programas, a reforma por tempo de idade e não por tempo de serviço, um conjunto de medidas que foram implementadas no Brasil e que levaram à erradicação da fome. É muito barato. A comida, de todos os elementos fundamentais da vida, é a mais barata. Não é um problema de custo, é um problema de prioridade política. Mesmo os mais pobres dos países podem pôr em funcionamento programas para erradicar a fome.

“Mesmo os mais pobres podem pôr em funcionamento programas para erradicar a fome”

Voltando à questão da fome severa, apesar de se dever sobretudo a conflitos ou alterações climáticas, ela cresceu nos últimos dois anos. O que é que levou a essa inversão no caminho positivo que se estava a conseguir fazer nos anos anteriores?
Os anos de 2015 e 2016 foram anos atípicos na série histórica que a FAO trabalha. A reversão veio sobretudo em África e pelos conflitos que se multiplicaram, como a guerra do Sudão do Sul, no Congo, mas também na Somália, o impacto das secas na Etiópia, na Somália, em toda a costa leste africana em 2015. Em 2016 houve o acentuar do problema, com o agravar das secas e dos conflitos.

O que eu projecto é que em 2018 exista um optimismo económico. O mundo deve voltar a crescer, tanto o mundo desenvolvido como o mundo em desenvolvimento. Isso gera emprego, oportunidades de trabalho, estou optimista que vamos ter um ano melhor do ponto de vista climático, económico, e se tivermos um ano melhor do ponto de vista político, podemos resolver muitos problemas.

O que é que o leva a estar optimista em relação ao clima?
Temos uma capacidade de projecção até seis meses e este ano, por enquanto, os sinais do El Niño em África, por exemplo, não são tão fortes quanto os do ano passado. Se ocorrer, o El Niño não será da magnitude e intensidade que tivemos nos dois, três anos anteriores. E também porque os países aprenderam. Não é preciso ter uma seca e ter fome. Não se pode evitar a seca, mas pode evitar-se que a seca seja transformada em fome se houver políticas sociais contracíclicas para enfrentar o problema. Os países aprenderam isso, existe já um financiamento do Fundo do Clima que está acessível a muitos países.

Em Portugal, além dos efeitos das alterações climáticas, há a questão da desertificação do interior. Acredita que é possível reverter esse cenário?
Portugal é um bom exemplo, que agora começa a legislar e a monitorizar. Nós estamos a furar o planeta em muitos lugares para tirar água, mas isso não pode acontecer. Um dia essa água armazenada no subsolo acaba, precisamos fazer um melhor uso dela. As tecnologias hoje existem, pode-se irrigar com muito mais eficiência, existe a técnica gota a gota, que usa mil vezes menos água que a de inundação. É uma tecnologia que está disponível e tem de ser implementada, tem de se proibir a rega por inundação.

Para isso, é preciso financiar os agricultores, principalmente os mais pobres, os familiares, para que possam aceder a essas tecnologias. É aí que estamos, um passo pede outro, mas estamos caminhando na direcção certa. Portugal é um grande exemplo, hoje, de como usar as directivas da PAC para ajudar os menos favorecidos, os mais pobres, fazendo uma discriminação positiva para superar a diferença que existe.

“Precisamos de recuperar o domínio da alimentação, saber o que comemos, é um problema de educação alimentar, mas também um esforço por comer de uma maneira mais saudável”

http://publico.uol.com.br/mundo/noticia/erradicar-a-fome-e-muito-barato-1802585

Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controvérsia e escreve semanalmente.

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