“Barões ladrões”, há cem anos…

Howard Zinn – O historiador norte-americano Howard Zinn lembra, num livro recém-lançado na França, o final do século XIX, marcado, em seu país, pela ditadura econômica e social dos “barões ladrões”. A importância da obra tornou-se ainda maior com os novos escândalos financeiros sacodem os EUA. O Diplô reproduz algumas páginas.

Nos manuais de história norte-americanos, encontram-se poucos vestígios dos conflitos de classes do século XIX. Os períodos anterior e posterior à Guerra de Secessão (1860-1865) costumam ser abordados apenas sob o ponto de vista das questões políticas, eleitorais ou raciais. Mesmo quando tratam das relações sociais e econômicas, esses manuais concentram-se na função presidencial e perpetuam, dessa forma, o tradicional enfoque em nossos “heróicos dirigentes”, em detrimento das lutas populares.

Alexis de Tocqueville declarou-se surpreso pela “igualdade quase completa de condições” entre os norte-americanos. Seu amigo Beaumont lembra que ele não era muito bom em cálculo. Na Filadélfia, contavam-se em média 55 famílias operárias por imóvel e, na maioria das vezes, havia uma família por cômodo, sem coleta de lixo, sem banheiro, sem ventilação e sem torneiras. A água corrente, bombeada do rio Schuylkill, destinava-se exclusivamente às residências dos ricos. Em Nova York, podiam-se ver miseráveis dormindo pela calçada. Nos casebres, não existia sistema algum para eliminar a água suja, que, depois de escorrer pelos quintais e vielas, inundava os porões onde moravam os mais pobres dos pobres. A cidade viveu uma epidemia de febre tifóide em 1837 e outra de tifo em 1842. Durante uma epidemia de cólera que atingiu a Filadélfia, em 1832, os ricos abandonaram a cidade, mas os pobres ficaram e morreram em grande número.

De acordo com um relatório do Senado do início do século XX, Morgan, no auge de sua glória, pertencia a 48 diretorias de empresas; e Rockefeller, a 37

Em todos os setores industriais, astuciosos e eficientes homens de negócios erguiam impérios, livravam-se da concorrência, mantinham preços elevados e salários baixos, aproveitando-se do apoio financeiro dos poderes públicos. Esses industriais foram os primeiros beneficiários do chamado “Estado de bem-estar social”. Na virada do século, a American Telephone and Telegraph detinha o monopólio da rede telefônica nacional, enquanto a International Harvest detinha 85% do mercado de material agrícola. Em todos os setores, os recursos eram cada vez mais concentrados e controlados. Os bancos tinham dinheiro aplicado em tantos trustes, que promoveram uma rede de grandes empresários que, ao mesmo tempo, eram membros da diretoria de outras empresas. De acordo com um relatório do Senado do início do século XX, Morgan, no auge de sua glória, pertencia a 48 conselhos de administração; e Rockefeller, a 37.

Teoricamente neutro, o Estado servia os interesses dos mais ricos, reprimia a revolta dos desfavorecidos e adotava políticas destinadas a garantir a estabilidade do sistema. Quando o democrata Grover Cleveland se candidatou à Presidência, em 1884, pensava-se que, ao contrário do Partido Republicano, cujo candidato defendia os ricos, ele se oporia ao poder dos monopólios e das grandes empresas. Mas quando Cleveland foi eleito, um dos grandes empresários da época lhe telegrafou dizendo que tinha “o sentimento de que os interesses da elite dos negócios [estariam], com ele, em boas mãos”. Não se enganava. O próprio Cleveland fez questão de tranqüilizar os industriais: “Durante todo o tempo em que eu for presidente, nenhuma medida administrativa prejudicará os interesses dos negócios. A transferência do Executivo de um partido para outro não significa mudanças muito grandes.”

Teoricamente neutro, o Estado servia os interesses dos ricos, reprimia os desfavorecidos e adotava políticas que garantissem a estabilidade do sistema

A campanha fora parecida com as outras: a mesma vontade de dissimular as semelhanças fundamentais entre os dois partidos, insistindo na personalidade dos candidatos, na maledicência e em outras bobagens. Henry Adams, observador impiedoso de sua época, escreveu a um de seus amigos que a vida política era ainda “mais estranha do que se poderia imaginar. O mais engraçado é que ninguém trata dos verdadeiros problemas. A imprensa lançou-se num debate hilariante para saber se Cleveland tem um filho ilegítimo e mais de uma amante”.

Em 1887, quando o Tesouro norte-americano apresentava um superávit, Cleveland vetou um decreto que previa conceder cem mil dólares aos agricultores do Texas, vítimas da seca. “Em ocasiões como essas”, declarou, “a ajuda federal incentiva a expectativa de um apoio governamental paternal e enfraquece o vigor do caráter nacional.” No mesmo ano, Cleveland utilizou esse excedente em ouro para pagar, 28 dólares acima de seu valor, títulos na posse de indivíduos que, eles sim, não estavam passando necessidade.

O republicano Benjamin Harrison sucedeu Cleveland entre 1889 e 1893. Foi descrito nos seguintes termos em The Políticos, pitoresco estudo dos anos posteriores à Guerra de Secessão: “Harrison tinha a particularidade única de ter servido às companhias ferroviárias tanto como advogado como soldado. Depois de ter organizado e comandado o destacamento de soldados durante a greve [de 1887], perseguiu os grevistas na Justiça Federal.” Votada em 1980, a Lei Sherman, antitruste, pretendia “proteger as trocas e o comércio contra concentrações ilegais” e proibir a constituição de qualquer “aliança ou coalizão” que pudesse por em risco as trocas entre os Estados ou o comércio internacional. O redator da lei explicava: “É verdade que em outros tempos também havia monopólios, mas nunca como os gigantes de hoje. Vocês devem ouvir a voz [dos adversários] ou terão o socialismo, o comunismo, o niilismo.” Quando Cleveland foi reeleito presidente, em 1892, o grande magnata Andrew Carnegie, então na Europa, recebeu a seguinte carta do diretor-geral de suas usinas siderúrgicas: “Sinto muito pelo presidente Harrison, mas não vejo em quê nossos interesses poderiam ser afetados por essa mudança de governo.”

Quando o democrata Grover Cleveland se candidatou à Presidência, pensou-se que, ao contrário dos republicanos, ele se oporia ao poder dos monopólios

Envolta na toga negra e austera da Justiça, a Suprema Corte também servia a elite dirigente. Como poderia ela ser independente, se seus membros – freqüentemente veteranos homens da lei saídos das mais altas esferas da sociedade – eram nomeados pelo presidente e confirmados pelo Senado? Em 1893, um deles, o juiz David J. Brewer, declarou à Associação dos Advogados do Estado de Nova York: “É uma lei inquestionável que a riqueza de toda a comunidade fique nas mãos de poucas pessoas. […] A grande maioria dos homens é incapaz de suportar esse sacrifício permanente que é o único que permite acumular riquezas. […] Desse modo, amanhã como ontem – a menos que a natureza humana mude profundamente – a riqueza da nação continuará nas mãos de alguns eleitos, enquanto a massa da população suprirá as necessidades com seu trabalho diário.”

Em 1895, a Suprema Corte chegou à conclusão de que a Lei Sherman não impedia o monopólio nas refinarias de açúcar, visto que era exercido na área de produção e não na de comércio do produto. Em compensação, a lei permitiu reprimir as greves atingindo vários Estados ao mesmo tempo, porque, aí, se tratava de entrave ao comércio. Uma tímida tentativa parlamentar destinada a aumentar os impostos sobre rendas altas foi considerada inconstitucional. Em 1895, um banqueiro nova-iorquino brindou a Suprema Corte com a seguinte frase: “Eu vos saúdo, guardiães do dólar, defensores da propriedade privada, inimigos da espoliação, fiadores da República.”

A Suprema Corte sempre serviu a elite dirigente. Como poderia ser independente, se seus membros eram nomeados pelo presidente e confirmados pelo Senado?

Nos anos 1880-1890, imigrantes vindos da Europa chegavam em grande número. Entre eles, a concorrência econômica era feroz. “Importados” pelas companhias ferroviárias para executar os trabalhos mais ingratos em troca de um salário de fome, os imigrantes chineses representavam aproximadamente um décimo da população californiana em 1880. Sofreram violências constantes. O romancista Bret Harte redigiu o epitáfio de um chinês chamado Wan Lee: “Ele está morto, caríssimos amigos. Morto. Apedrejado nas ruas de São Francisco, no ano da graça de 1869, por uma multidão de adolescentes e estudantes cristãos.” Em Rock Spring (Estado de Wyoming), brancos atacaram quinhentos chineses menores de idade durante o verão de 1885, massacrando a sangue frio 28 deles.

Ainda que muito pequeno e esfacelado pela luta interna, o Socialist Labor Party, fundado em 1887, contribuiu para a sindicalização dos trabalhadores estrangeiros. Em Nova York, os socialistas judeus tinham um jornal. Em Chicago, os revolucionários alemães, em colaboração com alguns norte-americanos radicais, fundaram clubes que queriam a revolução social. Em 1883, em Pittsburgh, houve um congresso anarquista. Seu manifesto afirmava: “Todas as leis são contra os trabalhadores. (…) Mesmo a escola só serve para cultivar nos filhos dos ricos a capacidade necessária para a manutenção de sua dominação de classe. Os filhos dos pobres recebem apenas um ensino elementar e formal, destinado, principalmente, a promover os preconceitos, a arrogância e o servilismo, em suma, a mais completa insensibilidade. A Igreja procura, acima de tudo, transformar os indivíduos em perfeitos imbecis e desviá-los da busca do paraíso na Terra em troca de uma imaginária felicidade celeste. Por sua vez, a imprensa capitalista alimenta a confusão dos espíritos no que se refere à vida política. […] Portanto, em sua luta contra o sistema vigente, os trabalhadores não devem esperar nenhuma ajuda dos agentes capitalistas. Nenhuma classe privilegiada abdicou voluntariamente, em tempo algum, de sua tirania.” Esse manifesto, que também exigia “direitos iguais para todos, sem distinção de sexo ou de raça”, retomava o Manifesto do Partido Comunista: “Proletários de todo o mundo, uni-vos!” Todos esses grupos revolucionários, entre os quais existiam muitas divergências doutrinárias, foram, com freqüência, obrigados a se entender por ocasião dos inúmeros conflitos trabalhistas ocorridos na década de 1880.

Em Rock Spring (Estado de Wyoming), brancos atacaram quinhentos chineses menores de idade durante o verão de 1885, massacrando a sangue frio 28 deles

No início de 1886, a Texas and Pacific Railroad demitiu um dirigente da assembléia local dos Cavaleiros do Trabalho. Iniciou-se, então, uma greve que logo se estendeu a todo o sudoeste dos Estados Unidos, limitando seriamente o tráfego ferroviário até Saint Louis e Kansas City. Nove jovens – recrutados em Nova Orleans para garantirem a manutenção da ordem e a proteção dos bens da companhia – recusaram-se a continuar sua missão. E declararam: “Na condição de seres humanos, não podemos aceitar trabalhar para tirar o pão da boca de outra pessoa, ainda que esse pão nos fosse recusado.” Detidos a pedido da companhia ferroviária por abuso de confiança, foram condenados a três meses de prisão. Os grevistas passaram à sabotagem. Um telegrama vindo de Atchison (Kansas) anunciava: “De manhã, os vigias do Missouri Pacific Railroad foram surpreendidos por cerca de quarenta homens mascarados. Em seguida, os vigias foram mantidos afastados por um pequeno grupo de homens armados de pistolas […], enquanto os outros danificavam seriamente doze locomotivas estacionadas nos hangares.”

Em abril de 1886, uma batalha feroz estourou entre policiais e grevistas nos bairros do leste de Saint Louis, deixando sete mortos entres os manifestantes. Como represália, os grevistas incendiaram os entrepostos da companhia ferroviária Louisville & Nashville. O governador decretou lei marcial e enviou para o local setecentos soldados da Guarda Nacional. Submetidos a prisões em massa, à violência dos xerifes e seus auxiliares, abandonados pelos trabalhadores mais qualificados e mais bem pagos das Confrarias dos Ferroviários (Railroad Brotherhoods), os grevistas não puderam agüentar por muito tempo. Desistiram depois de alguns meses de luta. Muitos deles passaram a integrar listas negras.

Em abril de 1886, uma batalha feroz estourou entre policiais e grevistas nos bairros de Saint Louis, deixando sete mortos entres os manifestantes

No dia 1° de maio de 1886, a American Federation of Labor (AFL), fundada cinco anos antes, convocou para uma greve nacional todos os que tivessem a jornada de oito horas recusada. Em Chicago, no Haymarket, um destacamento de policiais avançou para ordenar aos oradores que acabassem com a reunião. O orador respondeu que já estava terminando. Então, uma bomba explodiu no meio dos policiais, deixando setenta feridos, dos quais sete acabaram morrendo. A polícia reagiu atirando na multidão, matando, por sua vez, várias pessoas e deixando duzentos feridos.

Foram presos oito dirigentes anarquistas de Chicago. Só um deles estava presente no Haymarket, naquela noite. O júri os julgou culpados e os condenou à morte. Houve manifestações na França, na Holanda, na Rússia, na Itália e na Espanha. Em Londres, George Bernard Shaw, William Moriss e Piotr Kropotkin participaram de uma manifestação de protesto. Shaw reagiu da seguinte maneira ao fato da Suprema Corte de Illinois ter recusado o recurso contra a sentença: “Se o mundo deve, necessariamente, perder oito habitantes, que sejam os oito juízes da Suprema Corte de Illinois.”

Um ano depois desse processo, quatro dos anarquistas condenados – Albert Parsons (tipógrafo), August Spies (tapeceiro), Adolph Fischer e George Engel – foram enforcados. Louis Lingg, um jovem carpinteiro de 21 anos, matou-se em sua cela com uma banana de dinamite. Os outros três continuaram presos até receber.

http://diplomatique.org.br/baroes-ladroes-ha-cem-anos-2/

Responda