Estados Unidos: expectativas negativas para 2018

Virgílio Arraes – Nos dias de hoje, o con­ser­va­do­rismo po­lí­tico une os dois grandes par­tidos nos Es­tados Unidos – si­tu­ação não muito di­fe­rente da do Brasil, a des­peito do con­teúdo dos dis­cursos à so­frida po­pu­lação.

Do­nald Trump der­rotou Hil­lary Clinton por cri­ticar as con­sequên­cias da glo­ba­li­zação na vida do ci­dadão médio do país, como o em­po­bre­ci­mento gra­da­tivo ou o de­sem­prego cons­tante, ainda que ele mesmo não acre­di­tasse de ma­neira pia em suas falas ao povo.

Bas­tante po­lê­mico ao co­mu­nicar-se com a so­ci­e­dade, através da uti­li­zação in­tensa das redes so­ciais, o di­ri­gente re­pu­bli­cano atraiu a atenção do pú­blico ao trans­correr do ano mais por causa de suas ex­cen­tri­ci­dades – como no caso de di­gi­ta­ções apres­sadas e, por con­se­guinte, enig­má­ticas de forma pro­vi­sória – do que por suas pró­prias ações, entre as quais so­bres­saem:

A apro­xi­mação com a Rússia de Vla­dimir Pútin, con­si­de­rada ina­de­quada por po­lí­ticos norte-ame­ri­canos, e o re­co­nhe­ci­mento re­cente de Je­ru­salém como ca­pital is­ra­e­lense, me­dida ofus­cante, ao menos de ma­neira tem­po­rária, do fra­casso de Washington no Ori­ente Médio, em es­pe­cial na guerra civil da Síria, ao ter-se oposto de modo fer­renho à per­ma­nência do di­tador Bashar al-Assad.

Re­gistre-se serem os ‘tuítes’, por exemplo, tá­tica ad­mi­nis­tra­tiva en­ge­nhosa do pro­ble­má­tico man­da­tário es­ta­du­ni­dense – assim, a opi­nião pú­blica cos­tuma-se lem­brar-se de forma fol­cló­rica do acon­te­ci­mento ou de pes­soas, não do seu con­teúdo es­pe­cí­fico, até a pró­xima his­tri­ô­nica ma­ni­fes­tação dele ou de as­sessor do alto cír­culo re­la­tiva à:

Bu­ro­cracia go­ver­na­mental, como crí­ticas ao po­si­ci­o­na­mento do Ju­di­ciário ou da Po­lícia Fe­deral (FBI), a ques­tões in­ter­na­ci­o­nais, como da imi­gração ou do ter­ro­rismo in­te­grista, ou a seus opo­si­tores de­mo­cratas, como no caso do mo­desto au­xílio-saúde go­ver­na­mental.

Em 2018, ocor­rerão as elei­ções do meio do man­dato, por meio das quais um terço das ca­deiras do Se­nado e dois terços das dos go­vernos es­ta­duais es­tarão sob novo crivo da po­pu­lação. Um dos prin­ci­pais temas das cam­pa­nhas será o da ex­pec­ta­tiva da di­mi­nuição de im­postos para as cor­po­ra­ções, tendo sido a lei apro­vada pela Casa Branca pouco antes do Natal por vo­tação es­treita – es­tima-se de modo pre­li­minar que a re­dução da ar­re­ca­dação ronde o tri­lhão e meio de dó­lares ao go­verno.

Es­pe­ran­çosa com Washington no pri­meiro ano de ad­mi­nis­tração e, ao mesmo tempo, apre­en­siva com o de­clínio so­cial no ho­ri­zonte, boa parte da classe média não deve be­ne­fi­ciar-se com a nova le­gis­lação, até porque seus efeitos para ela têm du­ração fir­mada: 2025.

O even­tual fa­vo­re­ci­mento ao seg­mento in­ter­me­diário de­pen­derá da renda anual acu­mu­lada, das des­pesas de de­dução, do local de mo­radia e da com­po­sição da fa­mília. A de­cepção do elei­to­rado po­derá ser ma­te­ri­a­li­zada aos re­pu­bli­canos na im­pos­si­bi­li­dade de manter a pri­mazia na Câ­mara dos De­pu­tados e no Se­nado.

Outro tema cujo im­pacto se iden­ti­fi­cará em 2018 de­corre da no­me­ação de juízes fe­de­rais (de ten­dência con­ser­va­dora) de se­gunda ins­tância – mais de uma de­zena – pela Casa Branca, a maior da his­tória desde o final do sé­culo 19 em se tra­tando da pri­meira fase de ad­mi­nis­tração. A vi­ta­li­ci­e­dade lá é di­fe­rente da do Brasil por não ser li­mi­tada a 75 anos – até de­zembro de 2015, se­tenta.

Em abril úl­timo, Trump havia in­di­cado Neil Gor­such para o Su­pe­rior Tri­bunal Fe­deral em função do fa­le­ci­mento de An­tonin Scalia, a poucos dias de ser oc­to­ge­nário. O an­te­cessor deste, Wil­liam Rehn­quist, es­tava com idade si­milar, quando do pas­sa­mento. Os três foram in­di­cados por man­da­tá­rios re­pu­bli­canos.

Tó­pico po­lê­mico é o da ex­pec­ta­tiva de au­to­ri­zação de ex­plo­ração de pe­tróleo na re­serva eco­ló­gica do Ár­tico, lo­ca­li­zada no Alasca, em área de cerca de 600 mil hec­tares – apenas um se­nador re­pu­bli­cano opôs-se a ela.

Es­ta­be­leceu-se a pre­ser­vação du­ra­doura no úl­timo ano de gestão de Jimmy Carter – 1980. O ar­gu­mento para a li­be­ração atual é o fa­zen­dário, não o eco­ló­gico, de sorte que ela po­deria con­tra­ba­lançar a di­mi­nuição de im­postos às em­presas de grande porte.

Questão hu­ma­ni­tária é a dos es­tran­geiros cuja che­gada aos Es­tados Unidos tenha ocor­rido nos pri­meiros anos de vida, sem do­cu­men­tação muitas vezes. Cha­mados de ‘so­nha­dores’ pelos meios de co­mu­ni­cação, a eles se per­mite es­tudar, servir às forças ar­madas e tra­ba­lhar, desde que não te­nham re­gis­tros po­li­ciais ou dis­pensa cas­trense de­son­rosa.

Somam eles quase 1 mi­lhão de pes­soas, têm menos de 30 anos e provém em sua mai­oria de países la­tino-ame­ri­canos. Com o in­gresso de Do­nald Trump na Casa Branca, a de­por­tação deles po­derá acon­tecer, a des­peito da boa con­duta.

Por fim, há pen­dên­cias na po­lí­tica ex­te­rior, con­cer­nentes à Rússia, por conta da atu­ação na Síria e dos pró­prios Es­tados Unidos du­rante a eleição pre­si­den­cial, Irã, haja vista seu pro­grama nu­clear e seu apoio a grupos ra­di­cais, e Co­reia do Norte, por causa do de­sa­fi­ador plano de de­sen­vol­vi­mento de mís­seis.

Enfim, alívio in­terno com o em­pre­sa­riado, mas des­con­ten­ta­mento ex­terno com an­tigos ad­ver­sá­rios da época da Guerra Fria. Eis o 2018 do pre­si­dente Do­nald Trump.

http://www.correiocidadania.com.br/2-uncategorised/13037-estados-unidos-expectativas-negativas-para-2018

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