Frente de Esquerda da França inspira-se em América Latina e pede nova constituinte

Marcel Gomes – Depois de apoiar o socialista François Hollande contra Nicolas Sarkozy no segundo turno das eleições presidenciais, a Frente de Esquerda da França volta a trilhar um caminho próprio. A chamada esquerda radical, liderada por Jean-Luc Mélenchon e que recebeu 11% dos votos no primeiro turno, quer crescer agora nas eleições parlamentares, marcadas para o próximo mês.

Em ritmo de campanha, a candidata Raquel Garrido esteve no Brasil no início da semana para apresentar suas propostas. Ela concorre para ser um dos representantes dos franceses que vivem no exterior, inclusive no Brasil. Oriunda de uma família chilena que teve se exilar após o golpe de Augusto Pinochet no Chile, em 1973, Garrido reforça as diferenças com os socialistas.

“Hollande quer uma saída suave para a crise, mas isso não vai acontecer. Precisamos enfrentar o FMI, a Comissão Européia e os mercados financeiros, rever o pacto fiscal e realizar políticas que incentivem o crescimento econômico do país”, disse à Carta Maior.

Entre as propostas da Frente de Esquerda, estão o incentivo à integração dos migrantes e a realização de uma assembléia constituinte, com o objetivo de reduzir o poder presidencial e ampliar o do parlamento. “Venezuela, Equador e Bolívia já mostraram que não basta vencer uma eleição para a esquerda chegar ao poder, mas é preciso reconstruir o sistema”, afirmou. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Carta Maior Por que François Hollande não é a solução para a crise?
Raquel Garrido – Os governos de centro-esquerda que têm chegado ao poder após administrações ultraliberais não modificam as políticas estruturais. Continuam apostando na austeridade para conseguir boas notas das agências de classificação de risco, e com isso sacrificam a economia e os salários. Hollande até propôs renegociar o pacto fiscal, mas a Alemanha já vetou. Ele quer uma saída suave para a crise, mas isso não vai acontecer.

CM O que a Frente de Esquerda propõe?
RG – Precisamos enfrentar o FMI, a Comissão Européia e os mercados financeiros, rever o pacto fiscal e realizar políticas que incentivem o crescimento econômico do país. A França precisa endurecer na negociação. Não há outra saída. Queremos um referendo para ouvir a população sobre as políticas de austeridade. Veja o caso da Irlanda. O país fará um referendo porque a constituição nacional assim exige. Se a austeridade for reprovada, todos na Europa teremos de renegociar o pacto fiscal. A França poderia seguir esse exemplo e aumentar a pressão contra a austeridade.

CM O que mais é necessário?
RG – Precisamos relançar a economia francesa. Isso se faz não apenas combatendo o marco programático da rigidez orçamentária, mas com redistribuição da riqueza, busca de novas entradas fiscais, aumento de salários e a transição ecológica.

CM A extrema-direita francesa tem ganhado muitos votos entre os operários, que tradicionalmente são eleitores da esquerda. O discurso xenófobo contra a imigração, sobretudo nessas épocas de crise, encontra eco. Como a esquerda pode enfrentar isso?
RG – Nós estamos crescendo cada vez mais nas periferias da França. E conseguimos isso com um discurso que mostra que a identidade francesa está vinculada à política, e não à religião ou à etnia. Os franceses se reconhecem a partir dos ideais da revolução, da igualdade, da liberdade e da fraternidade. Somos um povo miscigenado, temos um dos maiores índices de casamentos mistos do mundo.

CM A Frente de Esquerda quer uma assembléia constituinte. Por quê?
RG – O presidente francês governa sem ouvir o parlamento. Isso é um problema gravíssimo. Três milhões de pessoas foram às ruas para protestar contra Nicolas Sarkozy pela reforma do sistema previdenciário, mas ele deu de ombros. Uma nova constituição será importante para restabelecer a importância do parlamento.

CM Como vê o avanço da esquerda na América Latina?
RG – É nossa referência. No Brasil, a esquerda anda junta dos movimentos sociais. Na Argentina, houve o enfrentamento com o FMI. E Venezuela, Equador e Bolívia já mostraram que não basta vencer uma eleição para a esquerda chegar ao poder, mas é preciso reconstruir o sistema.

http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Frente-de-Esquerda-da-Franca-inspira-se-em-America-Latina-e-pede-nova-constituinte/6/25085

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