As 12 vitórias do presidente Maduro em 2017

Ignacio Ramonet – Em meio a brutais ataques e infinitas agressões, o chavismo ampliou sua base de apoio, incrementando as forças políticas e sociais em favor da revolução. Aí está, mais sólido que nunca. O que significa um alívio e uma luminosa esperança para toda a América Latina.

Neste ano heroico de brutais ataques e infinitas agressões, o chavismo demonstrou sua fortaleza e sua capacidade de superação. Para começar, devemos recordar que presidente Nicolás Maduro é o mandatário mais injustamente acossado, caluniado e agredido da história da Venezuela. Mais que o próprio comandante Hugo Chávez, fundador da Revolução Bolivariana. O objetivo doentio da oposição reacionária nos últimos cinco anos tem sido o de tirar Maduro do Palácio de Miraflores a qualquer custo, com o apoio de poderosos aliados internacionais, começando pelo governo dos Estados Unidos.

O recém encerrado ano de 2017 foi marcado por ataques ao presidente desde o primeiro minuto, com a Assembleia Nacional, controlada pela contrarrevolução, que decidiu desconhecer a o presidente, em ação do dia 9 de janeiro, acusando-o de “abandono do cargo”. Desculpa falsa e absurda.

Diante dessa tentativa de golpe de Estado constitucional – inspirada no modelo de golpe parlamentar como o que derrubou Dilma Rousseff no Brasil em 2016 –, o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) interveio para mostrar que, em virtude da Constituição, a Assembleia Nacional não pode destituir o chefe de Estado, diretamente eleito pelo povo.

Por sua parte, Maduro respondeu a esse ataque organizando manobras cívico-militares denominadas “exercícios de ação integral antiimperialista Zamora 200”, que mobilizaram 600 mil efetivos entre militares e militantes partidários e dos movimentos sociais. Ofereceu, desse modo, uma imponente demonstração da unidade entre as Forças Armadas, o Governo, o Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV) e as massas populares. Essa foi a primeira vitória de 2017.

Impulsionada pela vitória de Donald Trump nos Estados Unidos – ou seja, com a direita supremacista de volta ao poder na Casa Branca desde 20 de janeiro passado –, a oposição venezuelana tentou intimidar o governo madurista com uma grande marcha em Caracas no dia 23 de janeiro, data da queda do ditador Marcos Pérez Jiménez em 1958. Mas também fracassou em termos práticos. Entre outros motivos, porque Maduro respondeu organizando, nesse mesmo dia, o transporte dos restos de Fabricio Ojeda, líder revolucionário responsável pela derrubada de Pérez Jiménez, ao Panteão Nacional, evento que foi acompanhado por líderes sociais venezuelanos. O chamado do mandatário levou centenas de milhares de pessoas ao centro de Caracas, e foi possível ver como o chavismo popular domina as ruas, enquanto a oposição exibia suas divisões e sua esqualidez extrema. Essa foi a segunda vitória do presidente Maduro.

Pouco depois se produziu a intervenção do Tribunal Supremo, estipulando que a Assembleia Nacional se encontra em situação de “desacato” desde 2016. Em efeito, como se recordará, nas eleições legislativas de 6 de dezembro de 2015, foram denunciadas fraudes no Estado de Amazonas., as quais foram demonstrados por gravações nas quais a secretária do governo estadual oferecia dinheiro a grupos de eleitores para votar pelos candidatos opositores. Em consequência, o TSJ suspendeu a esses deputados. Porém, a Assembleia Nacional, insistiu na posse dos mesmos, já que com a introdução desses três parlamentares a oposição obteria uma maioria qualificada (dois terços da casa) e o poder de derrogar leis orgânicas, de limitar a ação do próprio presidente, entre outras possibilidades.

Tensões entre Parlamento e Tribunal Supremo são relativamente frequentes em todas as grandes democracias. Na Europa, por exemplo, quando surge um conflito constitucional entre poderes, é habitual que o Judiciário assuma atribuições do Legislativo. Nos Estados Unidos, até um presidente tão esotérico como Donald Trump teve que acatar decisões recentes da Corte Suprema que não foram do seu agrado…

Porém, em Caracas, a contrarrevolução utilizou esse debate para relançar uma campanha internacional sobre a pretendida “ausência de democracia na Venezuela”. Com a cumplicidade da nova administração estadunidense, montou uma colossal operação de linchamento midiático mundial contra Nicolás Maduro. Mobilizando os principais meios dominantes de comunicação: CNN, Fox News, até a BBC de Londres, sem contar os grandes meios latino-americanos, os mais influentes diários globais, pilares da hegemonia comunicacional conservadora, assim como as redes sociais.

Ao mesmo tempo, a direita venezuelana manobrou com a intenção de internacionalizar o conflito interno, fazendo da intervenção nos assuntos do país prioridade dos trabalhos da Organização dos Estados Americanos (OEA), e recriando o “ministério das colônias dos Estados Unidos”, como Che Guevara chamava a entidade. Obedecendo as consignas do novo governo de Donald Trump e com o apoio de vários regimes conservadores da América Latina, o uruguaio Luis Almagro, secretário-geral da OEA, assumiu então o miserável rol de liderar essa manobra, exigindo a aplicação da Carta Democrática do organismo contra a Venezuela.

Mas Caracas contra atacou imediatamente e conseguiu a solidariedade diplomática da maioria dos Estados latino-americanos e caribenhos. Apesar dos desonestos argumentos do secretário-geral, a Venezuela jamais poderia ser colocada em minoria. Venceu de forma irrefutável, e os inimigos da Revolução Bolivariana, entre eles Washington – quebraram a cara ao se chocar com a estratégia de Maduro, baseada na realidade dos fatos, a honestidade política e a ética. Finalmente, em abril, Caracas decidiu se retirar da OEA, acusando essa organização de “ações intrusivas contra a soberania da Venezuela”. Com imaginação e audácia, nesse complexo cenário internacional, o presidente venezuelano conseguiu sua terceira grande vitória de 2017.

Entretanto, as tensões aumentaram em Caracas quando, no dia 29 de março, a Sala Constitucional do TSJ declarou que “enquanto persista a situação de desacato e de invalidez das atuações da Assembleia Nacional, será esta Sala Constitucional que exercerá as atribuições parlamentares, garantindo que as mesmas sejam exercidas de forma a velar pelo Estado de Direito”. Anteriormente, o TSJ decidiu que a imunidade parlamentar dos deputados “só se ampara durante o exercício de suas funções”, o que não era o caso, uma vez que a Assembleia Nacional se encontrava “em desacato”.

A oposição antichavista reagiu com protestos midiáticos. Apoiada novamente pelas forças conservadoras internacionais, passou a operar um plano sedicioso contrarrevolucionário, cujo primeiro passo, novamente, foi a estratégia de realizar barricadas em diversos lugares da capital e dos grandes centros urbanos. Durante quatro intermináveis meses, a contrarrevolução insistiu na mais desesperada e brutal ofensiva bélica contra o governo bolivariano. Financiadas em dólares pela direita internacional, as forças antichavistas, lideradas pelos partidos Primeiro Justiça e Vontade Popular, duas forças de extrema direita pertencentes à coalizão opositora Mesa de Unidade Democrática (MUD). Não duvidaram em utilizar paramilitares, agentes terroristas e mercenários do crime organizado, assim como uma elite de especialistas em guerra psicológica e propaganda “democrática”, com a finalidade patológica de derrubar Nicolás Maduro.

Ébrias de violência, as hordas tentaram assaltar a democracia venezuelana. Atacaram, incendiaram e destruíram hospitais, centros de saúde, creches, escolas, maternidades, armazéns de alimentos e de remédios, escritórios governamentais, centenas de negócios privados, estações do metrô, etc. Enquanto isso, se multiplicavam as barricadas nos centros urbanos burgueses que controlavam.

Os violentos, atirando dezenas de coquetéis molotov, se lançaram ferozmente contra os efetivos das forças de segurança. Cinco uniformados foram assassinados a tiros. Por outra parte, muitos dos organizadores das barricadas deram mostra de sua crueldade, quando passaram à tática de cortar cabos de tensão da via pública para degolar motociclistas. Ou quando, cheios de ódio e de racismo, queimaram vivos a jovens chavistas. Foram 21 opositores atacados dessa forma, dos quais nove faleceram. Resultado: 121 pessoas assassinadas, milhares de feridos e perdas milionárias de infraestrutura no país.

Durante esses quatro meses de selvageria contrarrevolucionário, a oposição também tentou atacar bases militares, pensando em colocar as Forças Armadas contra o governo legítimo, e instá-las a atacar o palácio presidencial. A extrema direita golpista tentou de tudo para gerar uma guerra civil, buscando fraturar a união cívico-militar e destruir a democracia venezuelana.

Ao mesmo tempo, em instâncias internacionais, seguia a frenética campanha midiática apresentando os que incendiavam hospitais, assassinavam inocentes, destruíam escolas e queimavam gente viva, como “heróis da liberdade”. Era o mundo ao contrário, o da pós-verdade, ou dos fatos alternativos.

Não foi fácil resistir a tanto terror, a tanta agressão, e controlar a ordem pública com uma visão de autoridade democrática, de proporcionalidade e de respeito aos direitos humanos. O presidente Nicolás Maduro conseguiu algo que parecia impossível: a saída do labirinto de violência. Com uma genial ideia, que ninguém esperava: voltar ao poder constituinte originário. A medida desconcertou a oposição.

O pretexto do terrorismo das barricadas residia, efetivamente, no desacordo entre duas legitimidades: a do Tribunal Supremo de Justiça e o da Assembleia Nacional. Nenhuma das duas instituições queria dar seu braço a torcer. Como sair do impasse? Baseando-se nos artigos 347, 348 e 349 da Constituição chavista de 1999, e apelando ao seu status de chefe de Estado e de árbitro máximo, o presidente Maduro decidiu reativar um processo popular constituinte. Era o único modo de encontrar, pela via do diálogo político e da palavra, um acordo com a oposição. E de regular o conflito histórico, para idear soluções aos problemas do país. Planejou muito bem e esperou o momento adequado. Até que, no dia 1° de maio, se deram todas as condições. Nesse dia, o presidente anunciou que a eleição dos delegados da Assembleia Constituinte se efetuaria em 30 de julho. Era a única opção para a paz.

Mas a oposição novamente confirmou sua desesperante insensibilidade política, e se afastou do processo. Entre aplausos da imprensa mundial, como parte da campanha inclemente contra a Revolução Bolivariana, os partidos opositores concordaram em não participar; e se dedicaram a sabotar as eleições, a impedir o acesso aos votantes, mais uma vez com barricadas, queima de urnas, ameaças aos que desejavam exercer seu direito a participar.

Fracassaram. Foram incapazes de impedir que, no dia 30 de julho, as pessoas fossem apoiassem massivamente a solução democrática ao conflito social, à violência e ao terror. Mais de 8,5 milhões de cidadãos votaram. Muitos venceram diversos obstáculos, enfrentando paramilitares e barricadas, driblando ruas bloqueadas, cruzando córregos e rios, fazendo o impossível para cumprir com seu dever cívico, político, ético, moral. Superaram ameaças de dentro e de fora.

Poucos esperavam tão alto grau de mobilização popular, essa afluência de votantes e o enorme sucesso eleitoral. No dia seguinte, como havia vaticinado o presidente, as barricadas dispersaram. A violência se desvanecia. A paz voltava a reinar. Com sutileza, paciência, coragem e decisão, e uma fina inteligência estratégica, o presidente Maduro conseguiu derrotar a tática da violência política e abortar a evidente intentona golpista. Se plantou com firmeza diante das ameaças, e o fez sem alterar o mais substancial de sua política. Essa foi sua vitória mais espetacular do ano.

“A formação da Constituinte – comentou Maduro – significou, sem dúvidas, a chegada de um clima de paz que permitiu impulsionar a ofensiva política da Revolução Bolivariana”. E essa ofensiva favoreceu o que muitos pensavam impossível: outras duas fundamentais vitórias eleitorais. Um na eleição de governadores e estados, no dia 15 de outubro, onde se conquistou 19 de 23 federações – entre elas as de Miranda (que configura a região da Grande Caracas) e de Lara, dois estados cuja política social estava quase em extinção nas mãos da oposição. Mais tarde, somou-se o triunfo em Zulia, um estado estratégico, de grande peso demográfico e possuidor de importantes reservas de petróleo e gás.

Meses depois, a Revolução Bolivariana ganhou as eleições municipais de 10 de dezembro, com a obtenção de 308 prefeituras de 335 em disputa, o que significa 93% dos municípios. O chavismo se impôs em 22 de 24 capitais, incluindo Caracas. Enquanto a contrarrevolução confirmava sua impopularidade com uma queda em seu apoio eleitoral, perdendo mais de 2 milhões de votos.

Mostrando o mundo a vitalidade de seu sistema democrático, a Venezuela foi o único país que realizou três grandes eleições nacionais em 2017. As três vencidas pelo chavismo. Enquanto a direita, desmoralizada por tantos desastres sucessivos, se via atomizada, desunida, grogue. Seus líderes confrontados entre si. Seus seguidores se renderam ao pessimismo.

Ao menos, se conservou o apoio de seus protetores internacionais, entre eles o mais agressivo: o do presidente estadunidense Donald Trump. Ao longo de 2017 – em continuidade à ordem executiva de 8 de março de 2015, assinada por Barack Obama, que declarou a Venezuela uma “ameaça extraordinária à segurança dos Estados Unidos” –, Donald Trump emitiu uma lista de sanções contra a Revolução Bolivariana.

A mais preocupante foi a do dia 11 de agosto, poucos dias depois da eleição que formou a Assembleia Constituinte, quando ameaçou com uma ação militar. Em entrevista a jornalistas realizada em seu campo de golfe em New Jersey, Trump disse que seu governo “tem muitas opções sobre como atuar com respeito à Venezuela, incluindo uma possível opção militar, se for necessário”. Dias depois, em 25 de agosto, dentro com contexto de bloqueio financeiro contra Caracas, Trump proibiu que “qualquer pessoa, entidade, empresa ou associação, legalmente radicada ou que realize atividades nos Estados Unidos, possa efetuar negócios com novos bônus de dívida que sejam emitidos por qualquer instância do governo venezuelano, a saber: bônus da República emitidos pelo Banco Central venezuelano ou pela empresa estatal PDVSA”.

Essas sanções apostam em levar a Venezuela ao default (não pagamento de sua dívida externa) porque isso levaria a que o Estado venezuelano e a PDVSA tivessem portas fechadas nos mercados financeiros associados aos Estados Unidos, o que impediria o país sul-americano de oferecer bônus para obter divisas.

Lawrence Eagleburger, ex-Secretário de Estado do presidente George W. Bush, reconheceu abertamente, em entrevista ao canal Fox News, que a guerra econômica contra a Venezuela havia sido efetivamente desenhada em Washington: “Devemos usar as ferramentas econômicas – afirmou o republicano – para fazer com que a economia venezuelana piore, de tal forma que a influência do chavismo no país e na região diminua. Tudo o que possamos fazer para que a economia venezuelana se afunda numa situação difícil, está bem feito”. O atual secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, confirmou oficialmente que as novas sanções têm por objetivo “estrangular a Venezuela”.

Contra tão insolentes agressões, Nicolás Maduro declarou que o default “nunca chegará”. Primeiro, porque a Venezuela é o país sul-americano que mais paga a sua dívida. Nos últimos quatro anos, Caracas cancelou 74 bilhões de dólares. Segundo, porque o governo bolivariano “sempre terá uma estratégia clara” de renegociação e reestruturação da dívida externa. O mandatário denunciou que o objetivo dos inimigos do chavismo é isolar financeiramente a Revolução Bolivariana até que não tenha possibilidades de crédito. Para ir afogando-a pouco a pouco. Querem gerar temor nos investidores privados para que não comprem bonos, não participem na renegociação da dívida e não haja investimento. Nicolás Maduro explicou que apesar do bloqueio, o que a Venezuela enfrenta é uma autêntica perseguição, na qual também participam países como Canadá e os da União Europeia. Uma perseguição ativa ao comercio, às contas bancárias e aos movimentos financeiros.

Mas o mandatário soube esquivar esses ataques, e surpreendeu uma vez mais os seus adversários quando anunciou, no dia 3 de novembro, a criação de uma Comissão para consolidar o refinanciamento e a reestruturação da dívida externa, com o propósito de superar as agressões financeiras. “Vamos fazer uma reformatação completa dos pagamentos externos, para chegar a um equilíbrio. Vamos romper os esquemas internacionais”. E foi isso o que aconteceu. Dias mais tarde, desafiando o bloqueio financeiro, e como parte da primeira aproximação para a renegociação e reestruturação planteada pelo presidente, chegava a Caracas, a se reunir com o governo bolivariano, um grupo de credores da dívida venezuelana procedentes de países como Estados Unidos, Panamá, Reino Unido, Portugal, Colômbia, Chile, Argentina, Japão e Alemanha. O que constituiu claramente numa vitória do governo de Maduro.

Convém precisar que o conflito de quarta geração contra a Revolução Bolivariana tem várias frentes e inclui de maneira simultânea e contínua quatro guerras: 1) uma guerra insurrecional, desenhada por especialistas e subversão, sabotagem e psicologia de massas, com o uso de mercenários, explosão cíclica de barricadas criminosas e ataques terroristas contra quartéis, objetivos militares e infraestruturas globais (rede elétrica, refinarias, distribuição de água, etc); 2) uma guerra midiática, com a imprensa escrita, a rádio, a televisão e as redes sociais transformadas em novos exércitos de conquista e o uso planificado da propaganda orientada a domesticar as mentes e seduzir os corações; 3) uma guerra diplomática com acosso em alguns foros internacionais, em particular na OEA, e ataques dos países o chamado Grupo de Lima (do qual participam Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Honduras, México, Panamá, Paraguai e Peru) aos que se somam regularmente os Estados Unidos, Canadá e a União Europeia; e 4) uma guerra econômica e financeira com armazenamento e desabastecimento de alimentos e remédios, manipulação do tipo de câmbio da moeda por escritórios ilegais, inflação induzida, bloqueio bancário e distorção do risco-país.

A propósito do risco-país, não se deve esquecer que nos últimos quatro anos, como já se disse, Caracas honrou todos seus compromissos de pagamento de dívida, o que significou mais de 74 bilhões de dólares. O que deveria ter diminuído drasticamente o índice de risco-país, pois não se corre nenhum risco emprestando dinheiro à Venezuela se esta paga religiosamente todas as suas dívidas. Entretanto, o índice continua aumentando. Atualmente, segundo o banco JP Morgan, ele se situa em 4820 pontos, 38 vezes mais alto que o de Chile, país que tem a mesma relação dívida/PIB que a Venezuela. Esse é o altíssimo preço que Caracas tem que pagar por ter optado democraticamente por um sistema político socialista.

Com respeito ao bloqueio bancário, ao longo de 2017, e em particular depois das sanções de Donald Trump, os cancelamentos unilaterais de contratos se multiplicaram. Em julho, por exemplo, o agente de pagamento do Estado de Delaware informou que seu banco correspondente, o PNC Bank dos Estados Unidos, se negava a receber fundos procedentes da PDVSA. Em agosto, o Novo Banco de Portugal notificou Caracas sobre a impossibilidade de realizar operações em dólares por bloqueio dos bancos estadunidenses intermediários. Mais tarde, o Bank of China Frankfurt, aliado de Caracas, tampouco pode pagar 15 milhões de dólares de dívidas da Venezuela à empresa mineira canadense Gold Reserve. Em novembro, mais de 39 milhões de dólares – pelo pagamento de 23 operações de compra de alimentos para as festas de natal – foram devolvidos a Caracas porque os bancos intermediários dos provedores não aceitaram dinheiro da Venezuela.

Por outra parte, no começo de setembro a empresa financeira Euroclear, filial do banco estadunidense JP Morgan, bloqueou um pagamento de 1,2 bilhões de dólares efetuado pelo governo bolivariano para adquirir medicamentos e alimentos. Isso impediu a aquisição de 300 mil doses de insulina. Ao mesmo tempo, um laboratório colombiano, pertencente ao grupo sueco BSN Medical, se negou a aceitar o pagamento venezuelano de um carregamento de um para o tratamento da malária.

O objetivo de todos esses bloqueios é impedir que o governo bolivariano possa utilizar seus recursos para adquirir os alimentos e os medicamentos que a população necessita. Tudo isso com a intenção de forçar a insatisfação popular e criar protestos contra o governo, fomentar o caos no sistema de saúde, colocando em perigo a vida de milhares de pessoas.

Nesse caso, graças às suas relações internacionais, o presidente venezuelano conseguiu resolver parcialmente os problemas. Com a chegada em novembro, de forma urgente, de importantes carregamentos de insulina procedentes da Índia, centenas de pacientes, em perigo de morte, puderam salvar suas vidas, o que sem dúvida se constituiu numa nova vitória de Nicolás Maduro.

Para quebrar o bloqueio financeiro, o presidente anunciou em novembro outra iniciativa: a criação de uma moeda digital, o petro. Esse anúncio despertou um forte entusiasmo na comunidade de investidores das criptomoedas, colocou a Venezuela na vanguarda da tecnologia e das finanças globais, e gerou enormes expectativas. Sem contar que o preço do petro não estará vinculado aos caprichos da especulação dos mercados, e sim se associará ao valor internacional de ativos reais como o ouro, o gás, o diamante e o petróleo. A Venezuela deu assim um passo enorme para possuir um mecanismo revolucionário de financiamento pelo qual nenhuma potência estrangeira poderá impor sanções, nem boicotar a chegada de capitais. Nesse sentido, o petro é mais uma vitória de Maduro.

Em meio a todas essas batalhas, e apesar da quebra total do modelo de dependência petroleira, o presidente se preocupou particularmente de que o socialismo bolivariano não fosse interrompido, e que não faltasse escolas, trabalho, teto, cuidados médicos, renda e alimentos. O governo revolucionário não deixou de financiar obras públicas fundamentais, nem de edificar novas moradias: em 2017 foram entregues mais de 570 mil casas. A Missão Bairro Adentro foi mantida, assim como todas as Missões sociais. Se consolidaram programas sociais como o Plano Semeia e a Missão de Abastecimento Soberano. Em meio a tantos tormentos, Maduro conseguiu um milagre social de salvação do país. A contrarrevolução não conseguiu deter o avanço do socialismo.

Nessa perspectiva, os Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAP), modelo centralizado de distribuição direta, continuaram de desenvolvendo em todo o país e já ajudam a cerca de quatro milhões de venezuelanos dos setores populares, protegidos contra o desabastecimento causado pela guerra econômica.

Ademais, durante todos o ano de 2017, o presidente Maduro foi lançando novas iniciativas sociais. A mais interessante foi o novo documento de identidade, que permite conhecer, através de um sistema de códigos, o status socioeconômico dos cidadãos. O modelo favorece o acesso das famílias necessitadas às ajudas sociais das missões socialistas. No final de dezembro de 2017, um total de 16,5 milhões de cidadãos haviam sido registrados com o novo documento.

O Presidente impulsionou também a criação do movimento “Somos Venezuela” com a finalidade de agilizar o processo de entrega das ajudas sociais. Os 200 mil brigadistas da organização têm como tarefa a identificação, casa por casa, das necessidades das famílias registradas. Depois, são destinadas ajudas às famílias de acordo com as verdadeiras necessidades. Outro dos objetivos importantes do movimento “Somos Venezuela” é garantir o pagamento a 100% dos pensionados em todo o país, como prometeu Nicolás Maduro.

O Presidente propôs também um plano chamado “Chamba Juvenil” (algo como “trampo juvenil”, em linguagem coloquial) dirigido aos jovens de entre 15 e 35 anos de idade, com o propósito de incorporá-los ao emprego em áreas orientadas à satisfação de necessidades humanas apontadas através do novo documento de identidade ou dentro dos trabalhos do movimento “Somos Venezuela”. O plano se dirige particularmente aos jovens universitários desempregados, aos não escolarizados, às mães solteiras com carga familiar e aos jovens em situação de rua. Se estima que o programa possa gerar cerca de 800 mil novos empregos.

Juntos, todos esses avanços sociais constituíram, sem nenhuma dúvida, algumas das mais apreciadas vitórias de Maduro em 2017.

Poderíamos citar também o sucesso obtido no campo da política externa, em particular a extraordinária viagem internacional de outubro, por Bielorrússia, Turquia, Rússia e Argélia, que terminou com importantes acordos bilaterais destinados a superar a guerra econômica e social. Ou as incessantes negociações mantidas com os países produtores de petróleo – tantos os da OPEP quanto os que estão fora dela –, que permitiram um espetacular incremento dos preços do barril, em mais de 3%.

Não se pode esquecer da grande ofensiva contra a corrupção iniciada em novembro, com o anúncio de várias dezenas de detenções, entre os altos mandos gerenciais e diretivos da PDVSA e da Citgo, incluindo dirigentes da primeira linha. Nada parecido havia ocorrido em cem anos da indústria petroleira venezuelana. Esta foi, sem dúvidas, a vitória mais comentada de Maduro no final de 2017.

Para terminar, é preciso dizer novamente que a destruição da imagem de Nicolás Maduro é a principal finalidade principal das campanhas mundiais de propaganda pilotadas pelas grandes corporações de comunicação. Sem esquecer da permanente guerra digital na esfera da Internet, através de múltiplas plataformas na Web, e nas redes sociais como Facebook, Twitter, WhatsApp, Youtube, Instagram, etc. Todas estas armas de manipulação massiva tentam degradar a figura do Presidente e manipular a realidade venezuelana. Querem ignorar o nível de respaldo real de amplos setores da população para com o mandatário, e ocultam as violências da oposição. O objetivo é político: destruir a Venezuela bolivariana, ator crucial do sistema mundial, não só por suas riquezas, mas sobretudo por seu modelo revolucionário e social. E, obviamente, por sua importância geopolítica como potência anti-imperialista de influência regional.

Até agora, todos esses planos para defenestrar a Nicolás Maduro fracassaram. Como ele mesmo afirmou: “o imperialismo não foi capaz de nos asfixiar, nem poderá vencer a Revolução Bolivariana em nenhum dos campos onde tentem nos atacar”. Pelo contrário, o Presidente sai fortalecido deste 2017.
Tantas vitórias permitem a ele retomar a iniciativa estratégica para a pacificação do país. Preocupado pela defesa dos grandes interesses nacionais, e apegado aos princípios de honestidade e de máxima humildade, Nicolás Maduro propõe à oposição uma mesa de negociação e a retomada do diálogo. Desta vez, o cenário é neutro: Santo Domingo, capital da República Dominicana. Sobre a base do respeito e do reconhecimento mútuo, com a ideia de restabelecer uma negociação nacional permanente como método democrático para defender o interesse superior da nação e para regular o conflito que surge naturalmente das diferenças políticas em meio a uma revolução. Semelhante avanço rumo à paz é uma das vitórias mais apreciadas do presidente.

Neste ano heroico de brutais ataques e infinitas agressões, o chavismo demonstrou sua fortaleza e sua capacidade de superação. Conseguiu ampliar sua base de apoio, incrementando as forças políticas e sociais em favor da revolução. Aí está, mais sólido que nunca. O que significa um alívio e uma luminosa esperança para toda a América Latina.

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Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controvérsia e escreve semanalmente.

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