1% mais rico dos EUA, os grandes vencedores da reforma fiscal de Trump

LLUÍS BASSETS – Política da Casa Branca, aprovada em dezembro, reforça posição do país no mapa da desigualdade.

A reforma fiscal de Donald Trump reforça uma das sociedades mais desiguais entre os países mais ricos do planeta, na qual 1% dos mais ricos acumulam 20% da renda, enquanto metade da população tem de se conformar com 12,5%. Embora a reforma tenha sido apresentada como uma redução de impostos que favorecerá a classe média, o único certo da legislação aprovada em dezembro pelo Congresso dos EUA é que encherá os bolsos das empresas, principalmente imobiliárias, e das pessoas com maior renda, e prejudicará, por outro lado, a reforma da saúde promovida pelo ex-presidente Barack Obama, a educação pública e até mesmo os programas de investimentos em infraestrutura, que serão limitados por um aumento de 1,3 trilhão de dólares (4,2 trilhões de reais) no déficit orçamentário nos próximos 10 anos.

O estudo não estabelece uma pauta universal nem uma regra de comportamento homogêneo. As diferentes velocidades de crescimento das desigualdades no mundo ressaltam o papel das políticas nacionais e das instituições de governo. Mas em todos os casos é corroborada a tese de Piketty sobre a regra capitalista que, se não houver políticas públicas que corrijam a tendência, conduz inevitavelmente ao acúmulo crescente e irrefreável da riqueza nas mãos de uma elite cada vez menor.

O Relatório sobre a Desigualdade Global 2018, além de oferecer um retrato do aumento da desigualdade mundial, permite observações comparativas entre países e continentes, e levanta uma espécie de mapa geopolítico dos desequilíbrios de riqueza e renda. As cifras, reunidas por essa centena de economistas, ajudam a compreender a evolução política do mundo desde o fim da Guerra Fria e até a estabelecer algumas correlações com a crise da democracia representativa, o surgimento dos populismos e as dificuldades de governança mundial. Rasgam, de certa forma, o véu de uma visão ingênua da globalização e permitem pensar em um inquietante horizonte de instabilidade mundial caso continuem crescendo desenfreadamente as desigualdades entre países e dentro deles.

Um mundo mais desigual é um mundo mais instável. O mapa das desigualdades apresenta correspondências também com o mapa da violência, seja na forma de guerras civis, seja na forma de violência política ou urbana. Assim como assinalou Martin Wolf, o aumento da desigualdade que estamos vivenciando em nível mundial “é um péssimo presságio, não só para a paz social, mas até mesmo para a sobrevivência das democracias estáveis baseadas no sufrágio universal que emergiram nos séculos XIX e XX nos países atualmente de major renda” (Financial Times, 19 de dezembro).

O cúmulo da desigualdade está no Oriente Médio, onde o desnível de riqueza é duplamente sangrento: entre os países produtores de petróleo do Golfo e o resto, e dentro deles, entre os cidadãos dos países do Golfo e os trabalhadores sem cidadania que fazem funcionar seus serviços e seu sistema produtivo. Só no Brasil e na África do Sul se encontram níveis de desigualdade comparáveis. Não é de estranhar que o Oriente Médio seja atualmente a região do mundo com mais zonas de guerra e maior fluxo de refugiados.

O mapa das desigualdades aponta os Estados Unidos e Ásia como as regiões de maior crescimento nestas quatro décadas, embora a Ásia, principalmente a China, também seja a região em que mais pessoas saíram da pobreza e as classes médias mais se beneficiaram com a globalização. Onde a desigualdade cresceu com mais moderação foi na Europa, que continua sendo o continente mais igualitário, no qual se mantém a essência do Estado de bem-estar construído no pós-guerra. Este é o território onde 10% dos mais ricos acumulam menos riqueza, 37%, em comparação com o Oriente Médio, onde eles ficam com quase o dobro, 61%. Em seguida vêm a Índia e o Brasil, com 55%, África subsaariana, com 54%, EUA e Canadá, com 47%, Rússia, com 46%, e China, curiosamente a mais próxima da Europa, com 42%.

Não há Governo sem estatísticas nem há Governo democrático sem debate público com base nas estatísticas. E isso é particularmente certo quando as estatísticas são sobre a distribuição da riqueza e, portanto, afetam as políticas de redistribuição, ou seja, os sistemas fiscais, a educação e os investimentos públicos em infraestrutura. Os trabalhos de Thomas Piketty nos anunciam um futuro muito próximo no qual o processamento e a análise dos dados estatísticos globais, graças ao big data, abrirão caminhos para o conhecimento que hoje nem sequer suspeitamos, principalmente com relação à distribuição de renda e patrimônio.

São cifras para o conhecimento, mas também há cifras para a propaganda. O primeiro resultado que a reforma fiscal de Trump quer alcançar é precisamente que as cifras demonstrem os supostos benefícios para a classe média pregados pela propaganda republicana. O presidente sabe que as boas cifras − que não necessariamente serão boas para seus interesses − não chegarão até 2019 e já não poderão influir na campanha para as eleições de meio de mandato de novembro de 2018. Ele terá de se limitar, portanto, à propaganda. Logo chegarão os pesquisadores que poderão demonstrar facilmente como Trump reforça com suas políticas – assim como fez Reagan há 40 anos − a tendência de acúmulo de riqueza em poucas mãos inerente às economias de mercado.

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/12/22/internacional/1513965275_403017.html?id_externo_rsoc=FB_BR_CM

Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controvérsia e escreve semanalmente.

Responda