Vazamento do plano Trump: o fim de mais um sonho palestino

Luiz Eça – O “acordo final”, ou seja, a pre­tensa so­lução Trump para a questão pa­les­tina, de­verá ser anun­ciado no início de 2018. A equipe do pre­si­dente norte-ame­ri­cano está dando os re­to­ques fi­nais. No en­tanto, o Middle East Eye (edição de 22 de no­vembro) re­cebeu in­for­ma­ções sobre seus prin­ci­pais pontos, re­ve­ladas por um di­plo­mata do Oci­dente e al­guns ele­mentos pró­ximos a Abbas, o pre­si­dente da Au­to­ri­dade Pa­les­tina. Todos eles in­sis­tiram no ano­ni­mato, já que não es­tavam au­to­ri­zados a dar o ser­viço.

Como se es­pe­rava, os pa­les­tinos podem es­perar pelo pior. Pro­va­vel­mente, esse plano é pro­duto de uma au­tên­tica cons­pi­ração, unindo EUA, Is­rael e Arábia Sau­dita, como se verá adi­ante.

O ponto mais im­por­tante de­ter­mina a cri­ação de um Es­tado Pa­les­tino, in­cluindo a faixa de Gaza, nas áreas A, B e parte da área C.

Pro­postas cada dia pi­ores

Desde o acordo de 1993, o ter­ri­tório do fu­turo Es­tado dos pa­les­tinos é di­vi­dido em três áreas, das quais a maior é a área C, cor­res­pon­dendo a 61% da su­per­fície total. As áreas A e B ficam com os 39% res­tantes, sendo ha­bi­tadas pela mai­oria dos pa­les­tinos, con­forme es­tudo da ONG B’Tselen, em 2014.

Na área C lo­ca­lizam-se os grandes blocos de as­sen­ta­mentos ju­daicos (ile­gais, se­gundo a ONU) com as terras vi­zi­nhas, além de vastas re­giões, de­fi­nidas como zonas de se­gu­rança e ter­ri­tó­rios sob ju­ris­dição de con­se­lhos dos as­sen­ta­mentos, ser­vidas por uma rede de es­tradas (res­tritas aos is­ra­e­lenses).

Em 2014, havia na área C cerca de 100 as­sen­ta­mentos, estes ile­gais também pelas leis de Is­rael. Pos­te­ri­or­mente sur­giram pelo menos ou­tros 55. Em 2017, pra­ti­ca­mente todos os as­sen­ta­mentos ile­gais foram le­ga­li­zados.

A zona de ocu­pação is­ra­e­lense so­mava, em 2014, 210 mil hec­tares, apro­xi­ma­da­mente 63% da área C. Hoje, de­vido à ex­pansão do pro­grama de as­sen­ta­mentos no pe­ríodo 2014-1017, essa por­cen­tagem deve ser bem maior.

No pe­ríodo acima não sur­giram pra­ti­ca­mente novas ha­bi­ta­ções pa­les­tinas. De acordo com o Con­selho No­ru­e­guês de Re­fu­gi­ados, Is­rael proíbe cons­tru­ções de pa­les­tinos em 70% da área C. Além disso, au­to­ri­za­ções para cons­tru­ções desse povo nos 30% res­tantes são pra­ti­ca­mente im­pos­sí­veis.

Sendo, pelo menos 63% dessa área ocu­pados por as­sen­ta­mentos ou zonas re­ser­vadas a Is­rael, apenas 37% cor­res­pon­de­riam ao novo Es­tado Pa­les­tino.

Como o pri­meiro-mi­nistro Ne­tanyahu tem rei­te­rado que ja­mais en­tre­gará as­sen­ta­mentos ju­daicos aos pa­les­tinos, vemos que as “partes da área C” que o plano Trump aceita in­te­grar no fu­turo Es­tado Pa­les­tino serão muito pe­quenas.

Se so­marmos os ter­ri­tó­rios das áreas A e B à pe­quena parte da área C, des­ti­nados pelo cha­mado “acordo final” aos pa­les­tinos, so­brará uma su­per­fície total in­sig­ni­fi­cante. Muito menor do que a su­per­fície total do ter­ri­tório acima das fron­teiras de 1967, de­ter­mi­nada por re­so­lução da ONU.

E não é só. Os ter­ri­tó­rios dos pa­les­tinos nas áreas A e B não são con­tí­guos, a li­gação entre eles é feita através de es­tradas, que cortam ter­ri­tó­rios is­ra­e­lenses. Por isso, o trans­porte de pes­soas e mer­ca­do­rias pa­les­tinas terá de passar por muitos postos mi­li­tares de con­trole. O que oca­si­o­nará longas de­moras e con­ges­ti­o­na­mentos, com pre­juízos con­si­de­rá­veis.

Le­vando todas essas ob­ser­va­ções em conta, acre­dita-se que os ne­go­ci­a­dores pa­les­tinos não irão aceitar que seu fu­turo Es­tado tenha di­men­sões ir­ri­só­rias, muito me­nores das que, de di­reito, lhes ca­be­riam.

Sem terras e ou­tros di­reitos

A se­gunda dis­po­sição re­ve­lada ao Middle East Eye é:  os status de Je­ru­salém Ori­ental e do re­torno dos re­fu­gi­ados ficam para pos­te­ri­ores ne­go­ci­a­ções.

A esse res­peito, o jornal li­banês al-Akhbar re­velou uma carta si­gi­losa, na qual Abdel al-Ju­beir, mi­nistro do Ex­te­rior sau­dita, cla­ri­fi­cava que: Je­ru­salém Ori­ental fi­caria sob so­be­rania in­ter­na­ci­onal e o di­reito de re­torno dos pa­les­tinos (ex­pulsos pelo exér­cito de Is­rael na guerra de 1948), seria es­que­cido.

Para subs­ti­tuir essa exi­gência, bá­sica para os pa­les­tinos, as na­ções árabes se­riam pres­si­o­nadas a tor­narem os re­fu­gi­ados lo­cais ci­da­dãos do país onde vivem.

Assim, não ha­verá mais re­fu­gi­ados. E aca­baria esse incô­modo pro­blema dos re­fu­gi­ados. Trata-se de uma so­lução au­ten­ti­ca­mente das ará­bias, que só pode ter sido obra do gênio da lâm­pada.

Já foi de­ter­mi­nado por re­so­lução da ONU que Je­ru­salém Ori­ental será a ca­pital do fu­turo Es­tado pa­les­tino. Com a pro­posta sau­dita, o povo pa­les­tino teria de re­nun­ciar a mais um di­reito, ab­so­lu­ta­mente legal. A única van­tagem é que fi­caria livre das de­mo­li­ções de suas casas e de ou­tras ar­bi­tra­ri­e­dades pra­ti­cadas pelo exér­cito de ocu­pação.

Já os mo­ra­dores ju­daicos não re­nun­ci­a­riam a quase nada. Evi­den­te­mente, o go­verno de Te­la­vive iria per­mitir que eles man­ti­vessem sua ci­da­dania is­ra­e­lense.

Não vejo como os ne­go­ci­a­dores pa­les­tinos acei­tarão mais estas pro­postas tão pouco sa­lomô­nicas.

As na­ções do­a­doras con­tri­buirão com 10 bi­lhões de dó­lares para o es­ta­be­le­ci­mento da es­tru­tura e da in­fra­es­tru­tura do novo Es­tado, in­cluindo um ae­ro­porto e um porto para Gaza, ha­bi­ta­ções, agri­cul­tura, áreas in­dus­triais e novas ci­dades. Não creio que nem o mais ra­dical dos sa­la­fitas-waha­bitas teria algo a ob­jetar quanto a este item.

Sub­missão aos sau­ditas

As ne­go­ci­a­ções fi­nais, in­cluindo acordos re­gi­o­nais entre Is­rael e as na­ções árabes serão di­ri­gidas pela Arábia Sau­dita. Para o reino de Riad é a ce­reja do bolo do plano Trump.

O Iraque, a Síria, o Lí­bano e um ou outro país afri­cano, que não são sa­té­lites do reino dos pe­tro­dó­lares, te­riam de re­co­nhecer a li­de­rança do rei Salman e do prín­cipe her­deiro na nor­ma­li­zação das re­la­ções entre os países árabes e Is­rael, tida como missão im­pos­sível.

Não se diga que tais países to­pa­riam aderir à cru­zada anti-Irã, pro­cla­mada pela re­a­leza sau­dita. No en­tanto, o rei e seu her­deiro, for­ta­le­cidos pelo êxito no “acordo final”, te­riam de serem ou­vidos, quando aren­gassem contra a pre­su­mida ten­ta­tiva de Teerã e o acó­lito Hiz­bollah para de­ses­ta­bi­lizar os países do Ori­ente Médio e os sub­meter à sua he­ge­monia.

No início de no­vembro, porta-voz do seu amado sogro, Jared Kushner brifou Salman & filho sobre os termos do plano de paz e apelou para que ambos fi­zessem a de­vida pressão sobre Abbas, en­qua­drando o pre­si­dente da Au­to­ri­dade Pa­les­tina.

O di­plo­mata-in­for­mante do Middle East Eye, aliás, muito pró­ximo dos ne­go­ci­a­dores norte-ame­ri­canos, disse que MbS (ape­lido do prín­cipe her­deiro Mohamed bin Salman), na reu­nião com Abbas, de­mons­trou-se “muito en­tu­si­as­mado com o plano e an­sioso para, pri­meiro ver um acordo de paz entre pa­les­tinos e Is­rael, de­pois entre Is­rael e os países árabes, como pri­meiro passo para formar uma co­a­lizão entre a Arábia Sau­dita e Is­rael para conter a ameaça ira­niana”. Ele teria ex­pli­cado a Kushner: “não po­demos ter Is­rael do nosso lado sem antes re­solver a questão pa­les­tina”.

O di­plo­mata ainda contou que o prín­cipe disse estar dis­posto a in­vestir grandes ca­pi­tais, o que re­pre­sen­taria um in­cen­tivo po­de­roso para os pa­les­tinos em­bar­carem nessa vi­agem.

Só faltou MbS su­bli­nhar sua con­fi­ança sol­tando a frase fa­mosa de Clinton: “é a eco­nomia, es­tú­pido!”

En­quanto isso, as re­la­ções, entre a Arábia Sau­dita e Is­rael vão se con­so­li­dando. Nos úl­timos meses, su­ces­sivas vi­sitas de altas au­to­ri­dades sau­ditas a Te­la­vive e de altas au­to­ri­dades is­ra­e­lenses a Riad cha­maram a atenção da im­prensa in­ter­na­ci­onal.

Como um dos re­sul­tados, o ge­neral Gadi Ei­zenkot, chefe do es­tado-maior das forças de Is­rael, de­clarou em 16 de no­vembro, que seu país es­tava pronto a par­ti­lhar “in­for­ma­ções de in­te­li­gência” com os sau­ditas, pois ambas na­ções te­riam in­te­resses em comum. Fato con­fir­mado pelo prín­cipe Mohamed.

Se­gundo as fontes pa­les­tinas do Middle East Eye, em reu­nião à qual con­vo­cara Abbas para lhe co­mu­nicar os termos do “acordo final’, MbS teria afir­mado que o Irã es­tava em “con­flito exis­ten­cial” com a Arábia Sau­dita. Por­tanto, seu país pre­ci­saria do apoio de Is­rael e dos EUA para en­frentar essa si­tu­ação pe­ri­gosa. Daí a ne­ces­si­dade de um acordo com os pa­les­tinos que agra­dasse a Is­rael e lhe abrisse as portas da ami­zade com os países árabes.

Pro­messas ao vento

Para re­forçar seu pe­dido de adesão de Abbas ao acordo pro­posto por Trump, o prín­cipe acenou com um au­mento no fi­nan­ci­a­mento atual dos sau­ditas à Au­to­ri­dade Pa­les­tina. Pas­saria de 7,5 mi­lhões de dó­lares men­sais para 20 mi­lhões, quase três vezes mais. E re­a­firmou que o Irã ame­a­çava as na­ções árabes.

Por­tanto, “deixe de his­tó­rias e aprove logo nossa pro­posta”. Abbas res­pondeu acre­ditar que o plano po­deria ser ok se apenas fossem acres­cen­tadas a ele as pa­la­vras “fron­teiras de 1967”. E Abbas acres­centou, se­gundo o in­for­mante: “eu lhes disse que da­ríamos tempo a Is­rael, se eles nos derem terra. Se o plano afirmar cla­ra­mente que, com o ‘acordo final’, te­ríamos um Es­tado Pa­les­tino dentro das fron­teiras de 1967, com uma pe­quena troca de terras”.

Assim, es­taria apro­vado o pri­meiro es­tágio, es­ta­be­le­cendo o Es­tado pa­les­tino, com fron­teiras pro­vi­só­rias.

O re­ceio dos pa­les­tinos é que Is­rael trans­forme o pro­vi­sório em de­fi­ni­tivo. E tem razão. Caso o pri­meiro acordo (de que fala MbS) de­fina pro­vi­so­ri­a­mente a en­trega de apenas uns poucos as­sen­ta­mentos, dei­xando a dis­cussão final para mais tarde, Ne­tanyahu pode adiar as ne­go­ci­a­ções dos li­mites de­fi­ni­tivos do Es­tado pa­les­tino. In­de­fi­ni­da­mente.

E a exi­gência de Abbas e dos de­mais lí­deres pa­les­tinos de se res­pei­tarem as fron­teiras de 1967, acei­tando al­gumas áreas do ter­ri­tório de Is­rael em troca de al­guns as­sen­ta­mentos, se tor­nará mais uma ilusão per­dida.

Por mais que Abbas venha a pro­testar, é de se crer que tudo fi­caria para um fu­turo vago e in­certo. Quem iria obrigar os is­ra­e­lenses a en­trarem na linha? A Arábia Sau­dita? Os EUA?

Para um as­sessor de Abbas, o pre­si­dente da Au­to­ri­dade Pa­les­tina acre­dita que o plano, ela­bo­rado por Kushner e o en­viado es­pe­cial Jason Gren­blat, tem, na ver­dade, outra origem: “este é o plano de Ne­tanyahu e ele os vendeu à equipe dos EUA e eles os estão ven­dendo aos pa­les­tinos e árabes”, ga­rantiu a fonte do Middle East Eye.

Daí a Abbas e lí­deres darem o seu nihil obstat vai uma longa dis­tância. Com sua pro­vável ne­ga­tiva, os pa­les­tinos es­peram duras pres­sões de Washington e de certas ca­pi­tais árabes, leia-se Riad e Abu Dhabi (ca­pital dos Emi­rados Árabes Unidos, fiel sa­té­lite da Arábia Sau­dita).

Um Trump no meio do ca­minho

Trump já co­meçou a fazer seu tra­balho sujo. O de­par­ta­mento de Es­tado in­formou à Au­to­ri­dade Pa­les­tina que a li­cença para o es­cri­tório do PLO (par­tido de Abbas) fun­ci­onar nos EUA de­verá ser can­ce­lada, de acordo com lei do Con­gresso (sempre dócil a Is­rael). Abbas fez jus a essa pena por ter fa­lado em de­nun­ciar Is­rael ao Tri­bunal Penal In­ter­na­ci­onal pela ex­pansão de as­sen­ta­mentos ile­gais.

Muito es­tranho, pois, desde 2015, os pa­les­tinos so­li­citam que Is­rael seja le­vado ao banco dos réus desse tri­bunal pela prá­tica de vi­o­lên­cias contra os di­reitos hu­manos. Só agora, quatro anos de­pois, o de­par­ta­mento de Es­tado es­ta­du­ni­dense se lem­brou de aplicar a lei…

No en­tanto, in­forma-se que, sempre de acordo com a lei, o pre­si­dente dos EUA pode sus­pender o can­ce­la­mento da au­to­ri­zação ao PLO. Isso se os pa­les­tinos es­tejam re­al­mente em­pe­nhados em fazer as pazes com Is­rael.

De­pende da opi­nião de Trump. A ação do de­par­ta­mento de Es­tado pode até ser legal, mas é ex­tre­ma­mente opor­tu­nís­tica, pois acon­tece no mo­mento em que The Do­nald quer obrigar Abbas e os seus a acei­tarem seu in­di­gesto plano de paz com Is­rael.

Por en­quanto, não deu certo. Como res­posta, Abbas não baixou a guarda, re­agiu or­de­nando o con­ge­la­mento de todas as reu­niões com os EUA. Está criado um qui­proquó, pois como dis­cutir o plano de paz dos norte-ame­ri­canos sem se reunir com eles?

Mas a pressão que os pa­les­tinos podem so­frer pode ser muito mais pe­sada.
A so­bre­vi­vência dos ter­ri­tó­rios pa­les­tinos de­pende de fi­nan­ci­a­mentos ex­ternos. Que já co­me­çaram a cair.

Ines­pe­ra­da­mente, o Catar está can­ce­lando suas do­a­ções a Gaza, apesar de que, há três meses, seu em­bai­xador afirmou que isso “nunca acon­te­ceria”. Lembro que esse pe­queno país vem sendo de­fen­dido pelos EUA, no seu con­flito com a Arábia Sau­dita. Convém aos ca­ta­ri­anos manter as boas re­la­ções com Washington.

Seria esta a causa de sua abrupta mu­dança de po­sição? Seja como for, não é nada di­ante do que os pa­les­tinos po­derão so­frer se dis­serem não ao “acordo final” de Trump.

Tanto os EUA quanto a Arábia Sau­dita são im­por­tantes fontes de re­cursos que po­derão ser cor­tadas de uma hora para a outra.

Como po­derão ser subs­ti­tuídas?

Na co­mu­ni­dade eu­ro­peia, só França, Reino Unido e Ale­manha te­riam re­cursos su­fi­ci­entes para atender às ne­ces­si­dades pa­les­tinas.

De cara, os in­gleses podem ser ris­cados, pois a pri­meira-mi­nistra Te­reza May é sub­ser­vi­ente aos es­ta­du­ni­denses.

Quando ao prag­má­tico Ma­cron, de­pois de propor san­ções sobre o Irã, caso não re­duza seu pro­grama ba­lís­tico, e de prestar ser­viços a Riad no af­fair Ha­riri, além de apoiar as pe­sadas crí­ticas de MbS aos ira­ni­anos, de olho nas vendas de ar­ma­mentos fran­ceses aos sau­ditas – não se deve es­perar que vá des­gostar os países be­ne­fi­ciá­rios do “acordo final”.

Resta a Ale­manha de An­gela Merkel, cada vez mais in­de­pen­dente dos EUA, mas en­fra­que­cida pelas di­fi­cul­dades em formar um novo go­verno.

Tudo in­dica que os pa­les­tinos estão em si­tu­ação pra lá de di­fícil. Pa­rece que, de­pois dos fra­cassos na re­vo­lução síria, na guerra do Iêmen, no blo­queio do Catar e na chan­tagem com o Lí­bano, o in­can­sável prín­cipe her­deiro pode se re­dimir com a co­au­toria de uma paz in­justa im­posta aos pa­les­tinos. Pro­vável pre­lúdio de uma po­de­rosa ação contra o Irã, apoiada por Is­rael, EUA e al­guns sa­té­lites.

Não se sabe se o prín­cipe é o grande ar­qui­teto desta ope­ração. Mais pro­vável é que ela seja pro­duto de uma con­ver­gência de in­te­resses entre Arábia Sau­dita, EUA e Is­rael. Todos eles querem dar um fim ao Irã como po­tência forte e in­de­pen­dente, de­ci­dida a con­quistar o pro­ta­go­nista prin­cipal no te­atro do Ori­ente Médio.

Também não se sabe se o va­za­mento do plano Trump im­pli­caria numa re­ação pa­les­tina, des­con­for­tável para o trio acima. E faça a equipe Kushner ela­borar al­gumas mo­di­fi­ca­ções que tornem o “acordo final” mais pa­la­tável a Abbas, ao PLO e ao pró­prio Hamas.

Só po­demos afirmar que o ca­minho pa­cí­fico para a in­de­pen­dência da Pa­les­tina e a paz pa­rece estar aca­bando sem ter che­gado em parte al­guma.

Como os lí­deres pa­les­tinos cons­ci­entes já de­sis­tiram da opção ar­mada, fica di­fícil saber o que lhes resta.

Es­pe­ranças no­va­mente aba­ladas

As dú­vidas se agi­gan­taram de­pois do va­za­mento das ideias prin­ci­pais do plano Trump, a cha­mada “so­lução final” do pro­blema pa­les­tino.

Agora, surgem novas evi­dên­cias de que nem ele, nem o pre­mier Ne­tanyhau acei­tarão uma Pa­les­tina in­de­pen­dente e viável.

Desde os tempos de Bill Clinton, os EUA man­ti­veram sua em­bai­xada em Te­la­vive. Foi re­ve­lado que The Do­nald deve anular essa po­lí­tica. Ele pre­tende anun­ciar em 6 de­zembro a mu­dança da em­bai­xada norte-ame­ri­cana para Je­ru­salém.

Na prá­tica, os EUA es­ta­riam re­co­nhe­cendo Je­ru­salém como ca­pital de Is­rael.

Isso é ina­cei­tável para os pa­les­tinos que rei­vin­dicam a di­visão da ci­dade, tor­nando Je­ru­salém Ori­ental a ca­pital da fu­tura Pa­les­tina in­de­pen­dente, como foi de­ci­dido pela ONU.

“O re­co­nhe­ci­mento norte-ame­ri­cano de Je­ru­salém como ca­pital de Is­rael des­trói o pro­cesso de paz”, de­clarou o porta-voz de Mah­moud Abbas, pre­si­dente da Au­to­ri­dade Pa­les­tina.

Saeb Erekat, se­cre­tário-geral da PLO (cen­tral dos mo­vi­mentos pa­les­tinos), também pro­testou: “Je­ru­salém é a linha ver­melha, não apenas para os pa­les­tinos como também para os árabes, mu­çul­manos e cris­tãos de toda a parte (al Ja­zeera, 2-11)”.

Mais uma vez a cre­di­bi­li­dade de Trump como me­di­ador neutro foi para o es­paço. Que Ne­tanyahu não ad­mite uma Pa­les­tina in­de­pen­dente e viável pa­rece claro.

Ficou ainda mais evi­dente de­pois do Times of Is­rael de 7 de no­vembro pu­blicar de­cla­ra­ções do in­sus­peito John Kerry.

O ex-se­cre­tário de Es­tado no go­verno Obama acusou o go­verno de Te­la­vive de re­sistir ao es­ta­be­le­ci­mento do Es­tado pa­les­tino, cri­ando obs­tá­culos ao pro­cesso de paz.

Kerry ainda ad­vertiu os is­ra­e­lenses de que, se não mu­darem de po­sição, não ha­veria pro­gresso nas ne­go­ci­a­ções da paz, o que cau­saria uma vi­o­lenta re­volta dos pa­les­tinos.

O po­lí­tico fez questão de sa­li­entar aa ações po­si­tivas da Au­to­ri­dade Pa­les­tina, du­rante a onda de aten­tados à faca em 2015: “os pa­les­tinos têm feito um ex­tra­or­di­nário tra­balho, man­tendo seu com­pro­misso com a não-vi­o­lência. E, de fato, quanto acon­teceu a in­ti­fada (ata­ques à faca) eles pre­garam a não-vi­o­lência na Margem Oeste (Cis­jor­dânia)”.

E acres­centou: “se você vir 40 mil jo­vens mar­chando até o muro (er­guido para se­parar Is­rael da Cis­jor­dânia), com car­tazes di­zendo ‘dê-nos di­reitos”, quero dizer, não penso que a Pa­les­tina vai ficar sempre imune aos mo­vi­mentos de di­reitos civis que têm apa­re­cido em na­ções de todo o mundo”.

Do que de­pender de Trump e Ne­tanyahu não vai acon­tecer nada…

De­pois das leis que o Con­gresso faz es­pe­ci­al­mente para de­fender os in­te­resses de Is­rael, mesmo contra justos di­reitos dos pa­les­tinos e de­pois de tantos pre­si­dentes, por ação ou omissão, fa­vo­re­cerem Te­la­vive nos con­flitos da Pa­les­tina… Até quando Abbas e os pa­les­tinos con­ti­nu­arão acre­di­tando que virá dos EUA a so­lução dos seus pro­blemas?

Já de­morou de­mais. Está na hora do mo­vi­mento pa­les­tino pro­curar a jus­tiça de ou­tros modos. Es­pera-se que não seja através da vi­o­lência.

http://www.correiocidadania.com.br/2-uncategorised/12976-vazamento-do-plano-trump-o-fim-de-mais-um-sonho-palestino

Professor, mestre em geografia urbana pela USP e criador do site Controvérsia e escreve semanalmente.

Responda