Guerra da Síria parece definida

Luiz Eça – Para Staffan de Mis­tura, me­di­ador da ONU na Síria, Assad já ga­nhou a guerra.

É o que se con­clui desta re­cente de­cla­ração do di­plo­mata ita­liano: “para a opo­sição, a men­sagem é clara: se eles estão pla­ne­jando vencer a guerra, os fatos estão pro­vando que não é esse o caso. Por­tanto, é tempo de a paz vencer (The Times of Is­rael, 6 de se­tembro de 2017)”.

E os fatos pa­recem con­firmar a opi­nião de Mis­tura. A partir do ano pas­sado, as forças do go­verno de Da­masco têm acu­mu­lado vi­tó­rias.

A to­mada de Aleppo foi um marco, ex­pulsou os re­beldes de sua maior con­quista. E, re­cen­te­mente, com a queda de Deir al Zor para as tropas ofi­ciais, os fa­ná­ticos do Es­tado Is­lâ­mico (EI) per­deram uma de suas prin­ci­pais praças na Síria.

Hoje, as forças de Assad já re­to­maram quase todas as mai­ores ci­dades do país, com ex­ceção de Idlib. E con­trolam a maior parte das re­giões ha­bi­tadas do país.

Já a parte da Síria sob grupos re­beldes (apoi­ados mi­li­tar­mente pelos EUA), é pouco sig­ni­fi­ca­tiva e tende a se re­duzir ainda mais, mesmo le­vando em conta a con­quista de Raqqa, ca­pital do EI na Síria.

Sem um co­mando único, pul­ve­ri­zado entre 44 fac­ções, re­beldes pró-de­mo­cracia e jiha­distas têm de lidar com graves con­flitos in­ternos.

A Frente Al-Nusra, ex-fi­lial da Al-Qaeda na Síria, e maior grupo jiha­dista na frente anti-Assad, está em guerra com grupos da opo­sição, di­gamos, bem com­por­tada, na pro­víncia de Idlib, tendo já do­mi­nado to­tal­mente a ca­pital.

No nor­deste, os curdos do YPG (ar­mados pelos EUA e apoi­ados por bom­bar­deios yan­kees) têm for­mado no exér­cito da FSA (pa­tro­ci­nada pela Arábia Sau­dita, EUA e Qatar) na guerra ao EI. Por en­quanto, eles guer­reiam ex­clu­si­va­mente os bár­baros fa­ná­ticos.

De­pois da de­bacle total do Es­tado Is­lâ­mico, que ora se de­senha como pró­xima, du­vida-se que esta par­ceria pros­siga na luta contra Assad, pois aí os ob­je­tivos dos seus com­po­nentes são di­fe­rentes e até opostos, o que pode gerar com­bates entre eles.

A luta dos curdos é pela in­de­pen­dência da re­gião onde pre­do­mina a sua etnia. O que se choca com a opo­sição, cujo alvo é a des­truição do re­gime de Da­masco e sua subs­ti­tuição por um go­verno “de­mo­crá­tico”, no qual a Síria man­teria todo seu ter­ri­tório de antes da guerra civil, in­clu­sive as re­giões onde os curdos querem fundar um Es­tado in­de­pen­dente.

A Tur­quia, até há pouco membro des­ta­cado da co­a­lizão anti-Assad, passou a con­cen­trar seus ata­ques aé­reos e ter­res­tres contra os curdos, te­mendo que a cri­ação de um Es­tado deles na Síria es­ti­mule a luta pela in­de­pen­dência das áreas do ter­ri­tório turco onde os curdos são mai­oria. Sendo essas áreas con­tí­guas, o pro­jeto seria juntá-las num só Es­tado uni­fi­cado, com vistas na fu­tura in­te­gração das re­giões curdas do Iraque e do Irã, re­fun­dando-se assim o Es­tado do Cur­distão (que, aliás, teve vida efê­mera no pas­sado).

Se­gundo o Al Mo­nitor (3 de se­tembro de 2017), os turcos já an­te­ci­param o pos­sível con­flito entre as forças opo­si­ci­o­nistas sí­rias e as curdas. A partir de julho úl­timo, os dois grupos já trocam tiros de ar­ti­lharia, por en­quanto es­po­rá­dicos, no norte da pro­víncia de Idlib.

Por esses mo­tivos, mais os pro­blemas ético-mi­li­tares de es­tarem ar­mando grupos ter­ro­ristas como a Nusra, vá­rios países ali­ados da frente anti-Assad estão se de­sin­te­res­sando por con­ti­nuar par­ti­ci­pando da guerra.

Além da saia justa pro­vo­cada pelo apoio pres­tado a um grupo li­gado à Al-Qaeda, os EUA têm um outro mo­tivo, ainda mais im­por­tante: a de­cisão de con­cen­trar suas forças contra o EI.

Ine­ga­vel­mente, o bando ra­dical is­lâ­mico é um ini­migo mais pe­ri­goso e muito pior do que Assad, que, ao con­trário do EI, não ameaça, nem nunca ame­açou, a se­gu­rança do povo norte-ame­ri­cano e da Eu­ropa.

Trump co­meçou a se afastar ao can­celar o pro­grama de ar­ma­mento di­ri­gido pela CIA, que existe há mais de quatro anos. Isso pesou es­pe­ci­al­mente no equi­lí­brio do front da pro­víncia de Idlib. Ainda mais con­si­de­rando o rom­pi­mento total de Washington com a Nusra, que ori­ginou ata­ques desse grupo contra os antes ali­ados re­beldes, ali­nhados com a co­a­lizão in­ter­na­ci­onal anti-Assad, li­de­rada pelos EUA.

Em Idlib, a partir de agora sem armas es­ta­du­ni­denses e se des­gas­tando em lutas in­ternas, a causa da opo­sição tem seus dias con­tados na re­gião, a úl­tima no oeste e no­ro­este do país sob seu co­mando. Res­tarão al­gumas áreas es­pa­lhadas pela Síria, das quais as lo­ca­li­zadas no nor­deste e norte são as que lhes dão mai­ores es­pe­ranças, já que é ali que se de­sen­volve a luta contra o EI, com a par­ti­ci­pação dos curdos e da Força Aérea norte-ame­ri­cana.

A hi­pó­tese de que após a des­truição do Es­tado Is­lâ­mico os EUA man­te­nham sua força aérea, e au­mente suas tropas ter­res­tres (atu­al­mente em pe­queno nú­mero) em ação contra o re­gime Assad, pa­rece du­vi­dosa. En­quanto que o apoio russo – com bom­bar­deiros e armas –, dos mi­li­ci­anos do Hiz­bollah e dos grupos xi­itas ira­qui­anos é ga­ran­tido.

Além disso, o Irã, que já com­pa­rece com quan­ti­dades subs­tan­ciais de di­nheiro e ar­ma­mentos e um nú­mero ra­zoável de com­ba­tentes, de­verá au­mentar sua con­tri­buição, se ne­ces­sário, pois a vi­tória de Assad é do seu maior in­te­resse. O go­verno de Teerã pre­cisa con­ti­nuar com a Síria a seu lado, pois é seu maior su­porte no Ori­ente Médio. E cer­ta­mente, pelo muito que ajudou Assad, o Irã po­derá ga­nhará in­fluência ca­pital no go­verno de Da­masco.

Mesmo di­ante deste pa­no­rama car­re­gado de nu­vens nimbus, os lí­deres dos blocos opo­si­ci­o­nistas blo­queiam o início de ne­go­ci­ação de paz, exi­gindo a saída de Assad. Ora, isso é vi­ajar na mai­o­nese, num ce­nário em que as forças do chefe sírio estão em plena ofen­siva, ga­nhando ter­reno sem parar contra seus ini­migos.

Vendo a vi­tória pin­tando cada vez mais como certa, Assad tende a não se in­te­ressar num acordo de paz com a opo­sição, a não ser com con­ces­sões mí­nimas.

Por­tanto, sendo re­a­lista, a pré-exi­gência de de­gola de Assad (em termos sim­bó­licos) teria de ser des­car­tada.

As ou­tras pos­si­bi­li­dades – Assad ficar no trono apenas na tran­sição e não poder se can­di­datar nas elei­ções que vi­erem – reúnem mais chances de serem aceitas.

Para con­vencer os EUA e a Arábia Sau­dita a con­ven­cerem os re­beldes de que devem topar uma destas duas ideias, a Rússia conta com um po­de­roso ar­gu­mento. Mas, antes de enunciá-lo, vamos por partes.

O Irã é quem mais con­tri­buiu para o su­cesso do go­verno sírio. Di­re­ta­mente, com ar­ma­mentos, sol­dados e di­nheiro. In­di­re­ta­mente, através das armas e su­pri­mento que ga­rantem as ações bé­licas dos guer­reiros do Hiz­bollah e das mi­lí­cias xi­itas ira­qui­anas.

Não ha­vendo acordo, a guerra con­ti­nuará e os cré­ditos ira­ni­anos com Da­masco têm tudo para con­ti­nuar cres­cendo num ritmo veloz.

Visto isso, che­gamos ao ar­gu­mento com que Putin po­derá mo­derar o or­gulho de um Assad ven­cedor: como é pro­vável que Assad acabe ven­cendo, o Irã será o maior res­pon­sável pela vi­tória. Terá voz forte em Da­masco, que ten­derá a apoiar as fu­turas ini­ci­a­tivas e po­si­ções de Teerã.

Ora, o Irá é o maior ini­migo dos EUA no Ori­ente Médio e o grande rival da Arábia Sau­dita na luta pela he­ge­monia nessa re­gião.

Será que va­lerá a pena acetar a pro­ba­bi­li­dade de um Irã vi­ta­mi­nado, com a au­réola de ter ven­cido o Oci­dente e o mais rico país do mundo is­lâ­mico?

Me­lhor en­golir Assad do que ficar en­gas­gado com um Irã po­de­roso e vi­to­rioso em todo o Ori­ente Médio.

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