Israel, Palestina e a limpeza étnica

Áli Onaissi – Livro de Ilan Pappé consegue desconstruir mitos que estão na fundação do Estado judeu

Em novembro deste ano, o mundo relembra os 100 anos da Declaração Balfour, documento oficial britânico que consentia e dava apoio explícito para a criação de um lar nacional judaico na Palestina. Para refletir sobre a tragédia que se abateu sobre um povo, recomendo o livro A Limpeza Étnica da Palestina, de Ilan Pappé.

livro

Esse autor faz parte de um grupo de pesquisadores israelenses, saídos principalmente da Universidade Hebraica de Jerusalém, denominados “novos historiadores”, que questionam a versão oficial (e disseminada mundialmente) acerca da criação do Estado de Israel e da expulsão de mais de 1 milhão de palestinos.

Por sua postura nesse livro, Pappé foi considerado um dos mais questionadores dentre os novos historiadores, afirmando categoricamente que o que ocorreu com o povo palestino foi, sem sombra de dúvidas, uma limpeza étnica. Com essa postura, o historiador angariou inúmeros inimigos e até ameaças de morte, obrigando-o a ir viver na Inglaterra.

Pappé explica, nessa obra, que diversos “mitos fundacionais”, ou “mitos de legitimação” segundo Hobsbawm, sobre a criação do Estado de Israel estão sendo desfeitos, especialmente, e por incrível que pareça, pelos próprios acadêmicos israelenses, espantados com as deformações históricas difundidas oficialmente com relação à fundação do Estado judeu. Vejamos alguns desses mitos, explicados e depois contraditos pelo autor:

1. A “saída” de mais de dois terços dos palestinos de suas cidades e aldeias foi voluntária:as pesquisas dos novos historiadores conseguiram confirmar inúmeros casos de expulsões massivas, massacres de aldeias inteiras e outras atrocidades. Pappé explica que o principal articulador dessa limpeza étnica foi o fundador do Estado israelense, David Ben-Gurion. Em sua biografia, Ben-Gurion diz que houve basicamente quatro planos para “desarabizar” a Palestina, dos quais o Plano D (ou Dalet) descreve em detalhes a expulsão, a qualquer custo, dos palestinos. Nessa biografia, ele afirma: “Eu sou pela transferência compulsória. Não vejo nada de imoral nisso”.

2. Uma terra sem povo para um povo sem terra: a frase, difundida principalmente por Golda Meir, espalhou-se mundo afora, dando a impressão de uma Palestina desértica, praticamente desabitada, composta de beduínos, poucas aldeias e nenhuma cidade. Pappé recolheu documentos oficiais do exército israelense confirmando que as cidades palestinas, especialmente as costeiras, eram prósperas e densamente habitadas, pois havia intercâmbio comercial com diversos países árabes, especialmente Egito, Síria e Líbano, além das grandes exportações de laranjas para a Inglaterra.

3. Os árabes em geral e os palestinos em particular sempre desejaram jogar os judeus ao  mar: essa frase foi difundida pela mídia para encobrir a verdade dos fatos. Diversas cidades litorâneas palestinas foram devastadas e, literalmente, desarabizadas. Dessas cidades, a mais emblemática foi Haifa. Com quase 80 mil habitantes (dos quais um terço composto por judeus de ideologia ultraortodoxa, portanto, contra o sionismo, situação idêntica nas outras cidades palestinas), Haifa foi esvaziada em poucos dias no mês de abril de 1948 por causa do estado de terror imposto pelas tropas judaicas que cercaram a cidade e que, a partir das montanhas que a rodeiam, bombardearam impiedosamente a população desarmada.

Para fugir do massacre, e por falta de barcos suficientes, milhares de palestinos se jogaram ao mar, morrendo afogados. (Depois da “desarabização” de Haifa, outras grandes cidades palestinas tiverem o mesmo destino: Safad, Acre, Nazaré, Tiberíades, Jaffa…)

4. Os israelenses sempre insistiram para os palestinos permanecerem em suas terras: Ilan Pappé derruba essa fantasia, afirmando: “É pura invenção essa história, que os livros ‘didáticos’ insistem em ensinar, de que houve tentativas de os judeus persuadirem os palestinos a ficar”. E para complementar a afirmação de Pappé, a professora de Pedagogia da Universidade Hebraica de Jerusalém, Nurit Pelled Elhanan, afirma também que esses livros didáticos “distorcem e desumanizam” os palestinos, transformando-os em seres primitivos e grosseiros.

5. Os israelenses sempre respeitaram os lugares sagrados:os movimentos pacifistas e os historiadores israelenses desmentem essa falsa ideia, para eles o que realmente ocorreu foi um “vandalismo de Estado”. A partir de 1948, inúmeros foram os santuários islâmicos e igrejas cristãs destruídos ou, no melhor dos casos, transformados em restaurantes, lojas, laticínios e outros comércios.

Para Pappé, “nem todos os judeus se fazem de cegos para as cenas de carnificina que os exércitos israelenses deixaram em seu rastro a partir de 1948”, e essa autocrítica terá de ser feita mais cedo ou mais tarde pelos judeus israelenses que teimam em nadar contra a corrente fundamentalista que assola seu país.

Essa corrente fundamentalista que domina, atualmente, a política israelense é a mesmíssima que possibilitou o despovoamento/destruição de mais de 500 aldeias e dezenas de cidades densamente habitadas a partir de 1948. Sem essa visão autocrítica, a ideia de uma paz abrangente e duradoura na terra santa será mais do que impossível.

Illan Pappé finaliza seu livro explicando que a Nakba (Catástrofe, em árabe) teve seu ápice em 1948, e a limpeza étnica contra os palestinos foi, e continua sendo, sistematicamente acobertada, tanto pelos governos ocidentais quanto pela imprensa. Mesmo assim, uma porcentagem cada vez maior de cidadãos israelenses, poucos ainda, está se conscientizando de que a matança de palestinos por Israel nunca teve fim, e isso precisa ser revelado à luz dos fatos históricos.

http://www.icarabe.org/politica-e-sociedade/artigo-israel-palestina-e-limpeza-etnica

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